Desde que o movimento Escola Sem Partido começou a chamar a atenção em todo o Brasil, o assunto "doutrinação ideológica" passou a ser amplamente debatido. Os argumentos contra o projeto variam bastante, desde negar a existência do problema, passando pela defesa da "liberdade de expressão" do professor até chegar à alegação de que uma educação neutra é impossível. Isso é claro, para não mencionar os que admitem, de forma cínica, que promovem a doutrinação em sala de aula mesmo e pensam que, com isso, estão promovendo o bem maior para os alunos e a sociedade.


Mas há muito tempo, alguns dos maiores defensores intelectuais da liberdade, já tentavam nos alertar para este, que é um problema intrínseco da educação pública. O primeiro desses foi John Stuart Mill. Como já comentei em um post anterior, John Stuart Mill, ao contrário do que muitos possam pensar, estava longe de ser um liberal laissez-faire ou um mero reacionário, pelo contrário, foi um dos pensadores mais progressistas de seu tempo. Embora Stuart Mill fosse a favor de subsídios estatais para a educação das classes menos abastadas, ele via com maus olhos, a educação pública totalmente gerida pelo estado. Ele chegou a escrever em seu Ensaio Sobre a Liberdade
"O sistema de ensino público para todos é um mero artifício destinado a moldar as pessoas para que se tornem exatamente iguais umas às outras: e o molde utilizado é aquele que agrada a quem exerce o poder, quer seja uma monarquia, uma classe de sacerdotes, uma aristocracia, quer a maioria da atual geração; na medida em que este sistema seja eficiente e produza resultados positivos, contribuirá para instaurar o despotismo sobre a mente, levando, por uma tendência natural, ao despotismo sobre o corpo."
Considerando então o nosso atual sistema de educação, totalmente controlado pelo estado em todos os seus detalhes, não é de se estranhar que o problema da doutrinação apareça.
Mas se você ainda não está totalmente convencido de que essa seja uma preocupação digna de um pensador realmente progressista, talvez você fique surpreso em saber que também Bertrand Russell, falou sobre o tema. 


Bertrand Russell era um pensador de esquerda, sem sombra de dúvidas, era um socialista libertário, secularista e pacifista, sua preocupação era não só com a doutrinação ideológica, mas também com a doutrinação religiosa, muito comum em seu tempo. Também foi o autor de numerosos escritos sobre educação.
Em uma conferência na qual tratava justamente do trecho acima citado de John Stuart Mill, denominada "John Stuart Mill, Proceedings of the British Academy", XLI (1955), 57 ele diz: 
"O ensino público, nos países que adotam os princípios [de Fichte], quando eficiente, gera uma horda de fanáticos ignorantes, prontos a atender a ordens superiores· para se engajar em guerras ou perseguições, conforme lhes seja ordenado. Este mal é tão grande, que o mundo seria um lugar melhor (pelo menos em minha opinião) se o ensino público nunca tivesse sido implantado". 
Talvez seja difícil para a esquerda brasileira atual, tão presa aos seus slogans fáceis como o da "educação pública e de qualidade", que alguém de esquerda possa ter se colocado contra a educação pública.

Também é atribuída à Russell, a frase:
"Os homens nascem ignorantes, não incapazes de pensar. O que os torna incapazes de pensar é a educação."
Russell alertou também que o sistema educacional, num futuro próximo, seria uma ferramenta tão poderosa de doutrinação, que poderia levar os estudantes a acreditarem que a neve é preta, como ele bem colocou em The Impact of Science on Society, em 1951:

"A fisiologia e a psicologia têm dentro de si espaço para técnicas cientificas que ainda aguardam desenvolvimento. A importância da psicologia em massa aumentou consideravelmente devido ao crescimento dos métodos modernos de propaganda. Destes, o mais influente é aquele chamado de “educação”. Os psicólogos sociais do futuro irão ter um número de cursos para as crianças em idade escolar, e neles serão testados métodos distintos de forma a produzir a inabalável convicção de que a neve é preta.
Rapidamente, se obterão vários resultados. Primeiro, que a influência do lar é destrutiva. Segundo, que nada mais pode ser feito a menos que a indoutrinação comece antes dos 10 anos. Terceiro, que os versos musicais entoados de forma repetitiva são muito eficazes. Quarto, que a opinião de que a neve é branca tem que ser mantida como forma de demonstrar um gosto mórbido pela excentricidade.
Mas já me estou a antecipar. Cabe aos cientistas do futuro dar precisão a estas máximas, e descobrir quanto é que custa, por cabeça, fazer com que as crianças acreditem que a neve é preta, e quão menos custaria levá-los a acreditar que ela é cinzenta-escura. Quanto a técnica tiver sido aperfeiçoada, todos os governos que estiverem encarregados da educação durante uma geração, serão capazes de controlar os seus súditos sem a necessidade de exércitos e polícias."

Mas afinal de contas, uma educação neutra é possível? Não totalmente, mas isso não é desculpa para partir em direção ao extremo oposto, o da doutrinação pura e simples. É o que tentou explicar um dos maiores defensores da neutralidade axiológica em ciências sociais, o sociólogo Max Weber.

Em novembro de 1917 Max Weber pronunciou a famosa conferência “A ciência como vocação” em Munique, na qual disse.
"O professor só pode mostrar a necessidade da escolha, mas não pode ir além, caso se limite a seu papel de professor e não queira transformar-se em demagogo. Além disso, ele poderá demonstrar que, quando se deseja tal ou qual fim, torna-se necessário consentir em tais ou quais consequências subsidiárias que também se manifestarão, segundo mostram as lições de experiências".
Resumindo, o professor deve ser um transmissor de conhecimento técnico e científico, não um propagador de valores. O problema em deixar a cargo da escola, a propagação de valores é esse: A escola controlada pelo estado, transmitirá os valores que interessam para o estado, ou para quem estiver no poder.
E em O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociais e humanas, Weber declara:
Porque é na verdade uma situação sem precedentes aquela em que numerosos profetas, creditados pelo Estado, em vez de pregarem pelas ruas, nas igrejas e em outros lugares, ou então privadamente, em pequenos conventos de crentes escolhidos pessoalmente e que se reconhecem como tal, se arrogam o direito de declamar ex cathedra, em “nome da ciência”, vereditos decisivos sobre a concepção do mundo, aproveitando-se do fato de, por um privilégio do Estado, as aulas lhes concederem um silêncio aparentemente objetivo, incontrolável, que os protege da discussão e consequentemente das contradições.
Nesse trecho específico, Max Weber expõe a covardia dos que usam de sua posição privilegiada, prestígio e autoridade, atributos concedidos todos pelo estado, para falarem em nome da ciência. É perceptível o quanto os doutrinadores parecem acreditar que não estão falando em nome de uma doutrina, ou de uma ideologia, mas sempre de um suposto "consenso científico".






O ludismo foi um movimento que surgiu na Inglaterra, por volta de 1811 e que ia contra a mecanização do trabalho proporcionada pelo advento da Revolução Industrial. Eles acreditavam que essa mecanização substituía a mão de obra humana e causava desemprego. O movimento chamava muita atenção pelos seus métodos que consistia basicamente em invadir fábricas e destruir máquinas.

Mas 200 anos depois, o antigo medo dos luditas parece ter retornado, ignorando o fato evidente de que, ao longo dos últimos séculos, a taxa de desemprego nos países industrializados tem se mantido em níveis mais ou menos constantes, exceto em períodos de crise, mesmo com o avanço ininterrupto da tecnologia durante todo esse longo tempo.

A maioria dos economistas, contudo, não vê fundamento no medo dos luditas e inclusive, chamam a hipótese de que máquinas geram desemprego, de “Falácia Ludita”. Abaixo segue a explicação para este ceticismo:


  • Quando os teares automatizados foram inventados, fabricar roupas tornou-se mais barato. Portanto, os consumidores de roupas teriam experimentado preços mais baixos e, assim, depois de comprar a mesma quantidade de roupas, eles teriam mais renda disponível para comprar outros bens. Por exemplo, comprar uma passagem de trem e ir e comprar um lenço de seda na cidade.
  • Com a mudança tecnológica, vemos um aumento na demanda por novos produtos; Portanto, novos empregos são criados nas ferrovias e lojas que vendem lenços de ceda.
  • Além disso, haverá alguns trabalhos criados na construção dos teares automatizados.
  • Com a nova tecnologia, as empresas que vendem roupas também serão mais rentáveis. Este lucro pode ser usado para financiar futuros investimentos que criarão mais empregos
  • Novas tecnologias permitem, por exemplo, que roupas sejam produzidas em massa com menos trabalhadores. Novamente, isso causaria uma queda no preço das roupas, e os consumidores teriam mais renda disponível não só para comprar mais bens, mas também para gastar em serviços de mão-de-obra mais intensiva. É o que aconteceu nos últimos 100 a 200 anos - a nova tecnologia permitiu à economia evoluir para uma economia mais baseada no setor de serviços. Hoje o setor de serviços emprega muito mais que a indústria. 
    Resumindo, custos mais baixos de bens manufaturados nos permitem pagar por uma gama mais ampla de bens e serviços, o que gera mais demanda que por sua vez, gera mais empregos.



    A mudança tecnológica pode ocorrer mais rapidamente do que nossa capacidade de criar e preencher novos empregos?

    A longo prazo, nunca houve evidência de que os avanços tecnológicos tenham aumentado a taxa de desemprego global. Apesar da rápida mudança tecnológica dos últimos 20 anos, não podemos dizer que a tecnologia tenha deixado milhões de desempregados. Em 1920, havia 1,3 milhão de mineiros de carvão no Reino Unido; hoje são menos de 6.000. Isso não significa que tenhamos 1,3 milhão de mineiros de carvão desempregados. Esses empregos são absorvidos em novas áreas da economia.

    No entanto, a mudança tecnológica pode causar níveis de desemprego relativamente significativos, especialmente entre os trabalhadores não qualificados.

    Por exemplo, as melhorias tecnológicas levaram ao relativo declínio da indústria britânica pesada (por exemplo, a indústria do carvão). Muitos trabalhadores manuais não qualificados perderam seus empregos. Simultaneamente, foram criados novos postos de trabalho no setor de serviços e em empregos qualificados de alta tecnologia. No entanto, como os mineiros de carvão e os trabalhadores siderúrgicos estavam frequentemente concentrados em certas áreas geográficas e tinham competências limitadas, muitas vezes, é muito difícil para eles conseguir um novo emprego.

    Portanto, se os trabalhadores estão ameaçados de perder o emprego como resultado de novas tecnologias, a solução não é parar a mudança tecnológica, mas oferecer educação e reciclagem para ajudar os desempregados a encontrarem novos postos de trabalho.




    Em 1998, o Yahoo recusou a oferta de comprar o Google por US$ 1 milhão.
    Em 2002, o Yahoo percebeu o erro e tentou comprar o Google por US$ 3 bilhões, o Google disse: "Queremos US$ 5 bi", o Yahoo disse não.
    Em 2008, o Yahoo se recusou a ser vendido para a Microsoft por US$ 40 bilhões.
    Em 2016, o Yahoo foi vendido para a Verizon por US$ 4,6 bilhões.

    Os donos do Yahoo estão muito ricos mesmo assim, mais do que a imensa maioria dos pobres mortais conseguirá ficar um dia? Sim, mas eles poderiam estar ainda mais ricos se tivessem feito as escolhas certas. Eles tiveram oportunidades que a maioria das pessoas jamais terá, mas não aproveitaram e pagaram o preço por isso.

    A Blockbuster era uma rede de "locadoras" de filmes, uma companhia gigante e com uma grande clientela fiel. E mesmo assim, morreu em pouquíssimos anos, quase de maneira surreal. As pessoas deixaram de alugar DVDs para assistir através de serviço de streaming em demanda, como Netflix e o Net Now. Para piorar: a companhia pode comprar a Netflix ainda em 2000 e não comprou. A empresa faliu em 2013.

    Moral da história: Você pode ser uma companhia gigante, mas se não for capaz de atender as novas demandas dos consumidores, você está morto. Ser grande não é garantia de continuar grante, nem mesmo de continuar vivo.

    As histórias desse tipo são muitas.
    Na década de 1970, a Kodak chegou a ser dona de 80% da venda das câmeras e de 90% de filmes fotográficos. E na mesma década, ela mesmo inventou o que ia falir a empresa: a câmera digital.
    Só que, prevendo que câmera digital iria prejudicar a venda de filmes, eles engavetaram a tecnologia. Duas décadas depois, as câmeras digitais apareceram com força e quebraram a Kodak. Ela até tentou sobreviver, lançou câmeras digitais, mas seu nome não era mais sinônimo de fotografia. Faliu em 2012 e acabou com uma marca famosíssima.

    O caso da Xerox também é interessante. A empresa não chegou a falir, mas vale muito menos hoje do que duas décadas atrás e menos ainda do que poderia valer se seus gestores tivessem mais visão.




    O PARC (Palo Alto Research Center) da Xerox tinha objetivo de criar novas tecnologias inovadoras. E conseguiram: computadores, impressão à laser, Ethernet, peer-to-peer, desktop, interfaces gráficas, mouse e muito mais. Steve Jobs só criou a interface gráfica de seus computadores após uma visita ao centro da Xerox, no coração do Vale do Silício. E ele não foi o único a “copiar” uma tecnologia deles com o intuito de lucrar. Muitos outros o fizeram e ganharam bastante dinheiro com as tecnologias desenvolvidas pela Xerox.

    Contudo, um player do mercado pouco aproveitou das tecnologias desenvolvidas pela companhia: a própria Xerox. Isso é uma prova de que não adianta ter um time de inovação dentro da sua empresa criando coisas sensacionais. Inovação também é gestão. Não adianta ter os melhores inovadores na companhia se seus gerentes não conseguem implementar essas inovações.

    Outra empresa do Vale do Silício que foi engolida pelos competidores por produzir produtos de qualidade questionáveis foi a Atari. Não bastou criar um mercado gigante de videogames praticamente sozinha, inovando com o Pong ou com o Atari 2600.

    A companhia superaqueceu o mercado de videogames no início da década de 1980 e chegou a ter que enterrar milhares de fitas não vendidas e assumir o prejuízo. Quando o mercado se recuperou, outras empresas mais inovadoras haviam tomado a liderança, como a Nintendo. A Atari até tentou entrar novamente no mercado, mas nunca mais teve sucesso. Faliu, ressuscitou, faliu de novo e atual fase da empresa foi vendida em 2008 apenas para manter a valiosa marca viva.

    A real inventora do smartphone foi a RIM no começo dos anos 2000. A companhia chegou a ter mais de 50% do mercado de celulares nos Estados Unidos, em 2007. Contudo, naquele mesmo ano, começou a sua derrocada.

    O primeiro iPhone foi lançado no dia 29 de junho de 2007. A Blackberry ignorou as tecnologias que o iPhone estava trazendo, como o touch-screen e julgou que a empresa nunca seria capaz de se tornar o standard corporativo por não conseguir lidar com a segurança a nível de e-mail empresarial.

    Mas a Apple dominou o mercado de consumidores pessoas-físicas e promoveu o BYOD (Bring Your Own Device, traga seu próprio aparelho) dentro das empresas. Com isso, o mercado foi redefinido e a Blackberry perdeu quase todo seu marketshare. A empresa faliu (o que foi muito bom para o ecossistema de startups de Toronto) e atualmente tenta se redefinir lentamente, com aparelhos que usam o sistema operacional Android.

    A lição aqui é a mesma que discutimos no artigo anterior: Estar no topo não é garantia de continuar topo. O que leva as empresas para o topo e as mantém lá por um tempo é sua capacidade de atender às demandas dos consumidores. Se isso é meritocracia, eu pretendo não responder ainda, mas é importante conhecer os fatos para que um debate construtivo aconteça.
    Talvez, empresas e indivíduos mais abastados, ou com mais acesso ao crédito, tenham mais condições de investir em pesquisa, inovação e de abrir ou absorver novos negócios. O mesmo vale para indivíduos que receberam melhor educação ou que possuem mais tempo livre para deixarem sua criatividade fluir, estes também têm maiores chances de alcançar e manter uma posição privilegiada. Estes são bons argumentos contra a ideia da meritocracia, mas tratar a economia capitalista como algo estático ou como um sistema de castas, extremamente rígido, é não entender nada.

    Se você entende meritocracia como oportunidades iguais e recompensa proporcional ao esforço, então realmente, meritocracia não existe. Mas se você entende meritocracia com recompensas proporcionais às oportunidades que lhe são dadas e que você consegue aproveitar, então nesse sentido sim, a meritocracia é real em economias de mercado.

    Fontes:
    https://conteudo.startse.com.br/mundo/felipe/7-empresas-gigantes-que-morreram-nos-ultimos-anos-por-nao-inovar/

    Autor: Luis Pablo de la Horra
    Publicado originalmente em inglês no site Foundation for Economic Education

    Apesar das tentativas de Bernie Sanders de identificar a Dinamarca como algum tipo de utopia socialista democrática, onde um governo altamente intervencionista regula todos os mínimos detalhes da economia, é bem conhecido hoje em dia que o sucesso deste país escandinavo está intimamente ligado ao seu alto grau de liberdade econômica. Precisamos apenas olhar para o mais recente Índice de Liberdade Econômica, publicado anualmente pela Heritage Foundation, para afirmar o óbvio: a Dinamarca está entre os 15 países mais livres do mundo.

    Ao olhar mais de perto, a Dinamarca se destaca em dois indicadores econômicos específicos: Liberdade de negócios e liberdade de trabalho. A liberdade empresarial mede o impacto da regulamentação governamental sobre as empresas. Este indicador coloca a Dinamarca no topo do ranking, apenas atrás de Hong Kong. Quanto à liberdade de trabalho, que examina o quadro jurídico que regula o mercado de trabalho num país, a Dinamarca encontra-se entre os seis primeiros. A forte correlação entre a liberdade de trabalho e as baixas taxas de desemprego parece explicar porque a Dinamarca tem uma das taxas de desemprego mais baixas na UE. Nas linhas seguintes, pretendo explorar as características específicas que tornam o mercado de trabalho dinamarquês um exemplo a seguir de muitas formas.

    Formação Salarial no Setor Privado

    A formação dos salários no mercado de trabalho dinamarquês é realizada em dois níveis: Setorial e empresarial. A nível setorial, os sindicatos que representam empregadores e trabalhadores negociam aumentos salariais, bem como outros benefícios. Contudo, deve ser observado que, a nível setorial, apenas os salários mínimos são acordados. Os salários reais são negociados ao nível das empresas e são, na maioria dos casos, superiores aos salários mínimos setoriais acordados na negociação coletiva. Como afirmado pela Eurofound,

    “Os salários negociados a nível empresarial são geralmente mais elevados que o salário mínimo bruto definido através da negociação coletiva. Mesmo os salários iniciais são, muitas vezes, mais elevados do que o mínimo. Metade de todos os recém-contratados no setor privado recebem um salário inicial que é consideravelmente maior (18% ou mais) do que o mínimo exigido pela convenção coletiva [...] os aumentos salariais reais são determinados a nível das empresas e, provavelmente, apenas alguns poucos empregados recebem um salário mínimo.”

    De fato, as negociações ao nível das empresas ganharam importância ao longo das últimas décadas, conforme revelado pela porcentagem de trabalhadores abrangidos pelo sistema de salários padrão em contraste com o sistema de salários mínimos, que passou de 34% em 1989 para apenas 16% em 1994 , e permaneceu nesse nível desde então. Sob o sistema de salários-padrão cada vez menos relevante, os salários são negociados a nível setorial e as empresas individuais não podem modificar os acordos setoriais. Em contrapartida, o sistema de salário mínimo, que é predominante hoje em dia, permite às empresas utilizarem o acordo setorial apenas como referência para fixar seus salários, com a empresa agindo como epicentro desse processo de formação salarial.

    Qual é o papel do governo dinamarquês neste processo? Nenhum. O governo não interfere na forma como os salários são determinados. Isto porque não existe legislação que estabeleça um salário mínimo a nível nacional.

    Flexibilidade + Segurança = Flexigurança

    O mercado de trabalho dinamarquês baseia-se no conceito de "flexigurança". Este conceito, inicialmente cunhado pelo antigo Primeiro Ministro da Dinamarca, Poul Oluf Nyrup Rasmussen, refere-se às duas características principais do mercado de trabalho dinamarquês: a flexibilidade e a segurança.

    Em termos de flexibilidade, os custos para demitir são mínimos. Por exemplo, um trabalhador de colarinho branco que fosse demitido sem justa causa hoje receberia uma indenização de, no máximo, quatro meses de salário, depois de trabalhar por 10 anos na empresa. Esta flexibilidade permite que 25% dos trabalhadores do setor privado mudem de emprego a cada ano. Além disso, os empregadores são incentivados a contratar através de contribuições sociais muito baixas, que não excedam 2% do salário bruto do empregado.

    O segundo pilar do sistema é a segurança. Estar empregado tem prioridade sobre estar num emprego específico, o que significa que o foco está em evitar que os funcionários fiquem afastados do mercado de trabalho por longos períodos de tempo, em vez de protegê-los em suas posições atuais. Isto é obtido através da combinação de flexibilidade com consideráveis subsídios de desemprego (até 90% do último salário durante um máximo de 4 anos) e políticas eficazes para realocar os desempregados. Estes benefícios são, no entanto, acompanhados de sanções caso o candidato recuse uma oferta de emprego.

    Flexibilidade trabalhista derruba o desemprego

    Um mercado de trabalho funcional e eficiente é, sem dúvida, um dos ingredientes que explicam a prosperidade econômica da Dinamarca e é certamente, o responsável pelas baixas taxas de desemprego que o país tem desfrutado nas últimas décadas. A experiência dinamarquesa deve abrir os olhos dos governos europeus que se recusam a empreender reformas que liberalizem seus mercados de trabalho.

    A evidência é clara: A flexibilidade do trabalho resulta em menor desemprego. O exemplo dinamarquês será seguido pelos países atingidos pela praga do desemprego? A Espanha liberalizou parcialmente seu mercado de trabalho há quatro anos e a reforma parece estar produzindo resultados positivos. Quem será o próximo?




    Autor: Ivan Pongracic Jr.
    Publicado Originalmente no site FEE - Foundation for Economic Education
    Artigo Original em Inglês

    O autor agradece especialmente a Lawrence H. White e Ivan Pongracic, Sr., pelos seus comentários úteis.

    Poucos eventos na história dos EUA podem competir com a Grande Depressão pelo seu impacto. O período de 1929 a 1941 viu mudanças fundamentais na paisagem da política e da economia americanas, incluindo eventos tão monumentais como a América saindo do padrão-ouro e a fundação da Seguridade Social. Foi um divisor de águas para o crescimento do governo federal.

    A Grande Depressão criou o equívoco generalizado de que as economias de mercado são inerentemente instáveis ​​e que devem ser administradas pelo governo para evitar grandes flutuações macroeconômicas, isto é, ciclos econômicos. Esta visão persiste até hoje, apesar dos mais de 40 anos desde que Milton Friedman e Anna Jacobson Schwartz mostraram convincentemente que as políticas monetárias do Banco Central é que foram, em grande parte, as culpadas pela gravidade da Grande Depressão. Em 2002, Ben Bernanke (então governador do Federal Reserve) fez esta surpreendente admissão em um discurso pronunciado em homenagem ao aniversário de Friedman: "Gostaria de dizer a Milton e Anna: Sobre a Grande Depressão , vocês estavam certos. Nós a causamos. Sentimos muito."

    Friedman, o grande campeão do mercado livre dos últimos 50 anos e um dos economistas mais influentes dos últimos 200 anos, morreu em novembro de 2006 aos 94 anos. Ele nos deixou um imenso legado intelectual, incluindo sua explicação da Grande Depressão, que, apesar de ter persuadido a maioria dos economistas profissionais, ainda não chegou ao público. É realmente um grande mistério por que a explicação de Friedman não foi mais amplamente reconhecida e aceita, especialmente devido à sua influência entre os economistas. Talvez a razão seja que ela não se presta tão prontamente aos políticos ansiosos para justificar mais poder. Ou talvez seja porque geralmente apresentada de uma maneira muito difícil de ser entendida por leigos. Ou talvez, seja apenas porque as pessoas acham mais fácil culpar os "capitalistas" do que o consagrado Banco Central. Seja qual for o caso, seria interessante rever o argumento de Friedman.


    Milhares de desempregados aguardam fora do 
    prédio do Departamento de Trabalho do Estado 
    em Nova York para se inscreverem 
    nos programas federais de emprego em 1933.

    A explicação padrão para a Grande Depressão, encontrada na maioria dos livros didáticos de história do ensino médio, é que ela foi criada pela especulação selvagem e irracional do mercado de ações que finalmente levou ao Grande Quebra de outubro de 1929. As especulações dos investidores eram tão excessivas - Assim a história segue - que assim que a bolha estourou, ela provocou o mais severo declínio na atividade econômica na história dos EUA. O ponto-chave desta história é que a quebra e a subsequente depressão foram devidos a fatores intrínsecos ao sistema capitalista, que era totalmente descontrolado sob as políticas supostamente laissez-faire de Herbert Hoover. Foi apenas quando Franklin Delano Roosevelt entrou no cargo que o governo começou a recuperação. Diz-se, portanto, que as políticas de Roosevelt eram responsáveis ​​não apenas pela recuperação, mas, de fato, por "salvar o capitalismo de si mesmo", quando muitos americanos estavam dispostos a considerar a adoção do socialismo completo nos anos 30 como forma de lidar com a recessão.

    A maioria das pessoas não percebeu o quanto essa explicação havia sido moldada pela economia keynesiana, o paradigma econômico dominante dos anos 1940 aos anos 70. A economia keynesiana teve seu início com a publicação da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda de John Maynard Keynes em 1936. Lá, Keynes propôs uma visão da Grande Depressão que estava em desacordo com o resto dos economistas profissionais da época. A maioria dos economistas da época tendiam a concordar que as economias de mercado são "auto-ajustáveis" e que não podem ficar presas em uma recessão por muito tempo. No entanto, essa visão parecia estar em desacordo com a realidade deplorável da época: Taxas de desemprego persistentes de 20 por cento ou mais, chegando mesmo a bater 25 por cento em 1933 - e sem previsão de alívio.

    Keynes parecia ser o homem certo para a época certa, já que ele refletia a visão cada vez mais comum que culpava os próprios capitalistas pela situação. Na Teoria Geral, Keynes rejeitou a visão de que o ciclo de crescimento e recessão se devia à política monetária excessivamente expansiva do governo e que a teimosia da Depressão se devia à interferência do governo nos mecanismos de mercado. Ele rotulou todos os economistas que acreditavam em tais pontos de vista como "clássicos" - em outras palavras, irremediavelmente fora de contato com a realidade. Em vez disso, Keynes propôs uma "teoria geral" que ele pensava ser capaz de explicar não só os tempos de bonança, mas também os de crise.


    John Maynard Keynes

    Segundo Keynes, o que impulsiona a economia é a demanda agregada ou despesas agregadas. A demanda agregada pode ser dividida em três componentes principais: consumo pessoal (C), investimento privado (I) e despesas governamentais (G). A relação pode ser resumida com a seguinte fórmula: DA = C + I + G. Se a Demanda Agregada for forte, a economia será forte. No entanto, se a demanda agregada vacilar, as empresas acabarão com grandes estoques não vendidos e reduzirão a produção para evitar superávits no futuro. À medida que reduzem, naturalmente, precisarão de menos insumos - incluindo mão-de-obra - e haverá alto desemprego.

    O culpado nesta história, o elemento que quebra todo o sistema, é o investimento privado. O investimento privado consiste em despesas de negócios em máquinas, edifícios, fábricas, e assim por diante. Em outras palavras, o investimento é formação de capital. Keynes afirmou que o investimento privado é inerentemente instável devido ao que ele chamou de "espíritos animais" de empresários e capitalistas. Ele acreditava que os homens de negócios são, em última instância, irracionais e propensos ao comportamento de rebanho. Como ovelhas que seguem cegamente outras ovelhas no rebanho, é fácil para os empresários se tornarem "irracionalmente exuberantes" - bem como irracionalmente letárgicos. A letargia do investimento desencadearia uma grande diminuição no investimento privado, diminuindo assim as despesas agregadas e provocando uma recessão econômica.

    Da recessão à depressão

    Como passamos desta recessão para uma recessão completa ou mesmo uma depressão? À medida que a economia desacelera, o desemprego aumenta e conduz a uma perda de confiança dos consumidores. O pessimismo do consumidor levará a economias e menos gastos, diminuindo assim o componente de consumo pessoal da demanda agregada, exacerbando a recessão. Note que tanto I como C são, portanto, impulsionados pelas expectativas dos indivíduos particulares (irracionais no caso dos investidores e empresários): Se os investidores e os consumidores se tornam pessimistas e esperam uma recessão, reduzirão seus gastos e, assim, estes serão demasiado baixos para conseguir o pleno emprego dos recursos disponíveis. Segundo Keynes, a recessão é, em poucas palavras, uma profecia auto-realizável.

    A Grande Depressão foi, portanto, um longo e persistente período de gastos agregados extremamente baixos, e de acordo com Keynes, não havia forças econômicas trabalhando para tirar a economia desta situação automaticamente. Em outras palavras, ele achou que não havia mecanismo de auto-correção (ou mão invisível) em uma economia de mercado livre. Em vez disso, mudanças irracionais nas expectativas conduziriam regularmente a flutuações amplas e destrutivas na macroeconomia. Assim, vemos que o ciclo econômico é a consequência natural e esperada do funcionamento irrestrito de uma economia de mercado. Portanto, se uma economia de mercado sem restrições resultar em depressões, isso é claramente indesejável. Também deve ser óbvio agora que a explicação padrão do livro de história da escola secundária é, basicamente, apenas uma versão keynesiana simplificada da história.

    O que é necessário para evitar uma recessão, então, é que o governo garanta que as despesas agregadas sejam suficientes para alcançar o pleno emprego. O governo pode fazer isso por meio da política fiscal (impostos e gastos governamentais) ou da política monetária (controle da oferta monetária). Keynes favoreceu a política fiscal e recomendou que o governo se envolva em gastos maciços e deficitários. Os gastos deficitários permitiriam um aumento das despesas públicas sem um aumento compensatório da carga fiscal sobre os indivíduos e as empresas. Assim, o aumento dos gastos do governo poderia neutralizar qualquer diminuição das despesas no setor privado, preservando o emprego e os rendimentos e, em última instância, revertendo as expectativas pessimistas que levaram, a princípio, ao declínio. A "gestão da demanda" keynesiana claramente prescreveu um papel importante para o governo.

    A explicação de Keynes, além de criar uma nova forma de analisar a economia como um todo, influenciou fortemente os formuladores de políticas e as pessoas comuns em todo o mundo. Logo se aceitou que o governo deve se engajar em uma política anticíclica de gestão da demanda para estabilizar as economias de mercado. Tanto Franklin Delano Roosevelt quanto Keynes foram proclamados os "salvadores do capitalismo"!

    Friedman segue os fatos



    Capa da edição americana do livro A Monetary 
    History of the United States - 1857 - 1960 
    de Milton Friedman e Anna Schwartz.

    Na década de 1950, Friedman e Anna Schwartz começaram a compilar dados históricos sobre variáveis ​​monetárias sem nenhuma agenda específica ou pretensão de derrubar a explicação dominante da Grande Depressão. Mas tornou-se óbvio que os dados estavam em desacordo com a explicação keynesiana padrão. Assim, em seu livro de 1963, "Uma História Monetária dos Estados Undios: 1867-1960", eles apresentaram a evidência empírica que os levou a uma explicação completamente diferente.

    Como resultado de um exame mais minucioso dos anos-chave entre 1929 e 1933, Friedman e Schwartz concluíram, pela primeira vez, que a Grande Depressão não era o resultado inevitável e direto do choque da bolsa de outubro de 1929, atribuído a uma bolha especulativa de investimento. O estouro da "bolha" teria sido instigado pela elevação da taxa de desconto do Federal Reserve - a taxa de juros que o FED cobra em empréstimos a bancos comerciais - em agosto de 1929. 

    Sobre a causa da bolha especulativa que levou ao crash, Friedman e Schwartz concordaram que ela foi causada por investidores, aparentemente endossando - pelo menos em parte - a explicação keynesiana dos "espíritos animais" (Os economistas austríacos argumentariam diferente.) Na verdade, eles acreditavam que a economia teria se recuperado rapidamente se o FED, o banco central dos Estados Unidos, não tivesse se envolvido em uma série de políticas desastrosas após o acidente.

    O FED existia há apenas 15 anos na época do crash, tendo aberto suas portas em 1914. Os Estados Unidos tiveram dois bancos centrais antes do FED (o Banco dos Estados Unidos, 1792-1812, e o segundo Banco dos Estados Unidos, 1816-1836), mas o país permaneceu sem um banco central de qualquer tipo por mais de 75 anos até a criação do FED. Ele foi criado principalmente para atuar como um "credor de última instância", a partir do qual os bancos privados poderiam pedir dinheiro emprestado em tempos de crise. A necessidade de um credor de última instância no sistema bancário dos EUA foi devido a uma debilidade sistêmica causada acidentalmente por regulamentos bancários estaduais e federais. (O Canadá, com um sistema bancário mais livre, não tinha tal fraqueza sistêmica e não havia necessidade de um credor de última instância.) Os bancos fracos estão sujeitos a crises quando seus depositantes já não estão confiantes de que seu banco detém reservas suficientes para satisfazer todas as demandas de retirada. Com o tempo, isso pode desencadear uma "corrida aos bancos", onde os depositantes tentam chegar ao banco antes dos outros depositantes para retirar seu dinheiro antes que as reservas limitadas do banco se esgotem. Uma corrida aos bancos pode facilmente gerar outras corridas aos bancos já que os depositantes se preocupam com a saúde financeira de seus próprios bancos igualmente fracos.

    O problema com corridas aos bancos é que quando os depositantes retiram o dinheiro e seus colchões se tornam mais confiáveis do que outros bancos, a fonte de dinheiro diminui. Para entender esse fenômeno, precisamos explicar como medimos a oferta monetária. As medidas mais simples incluem não apenas moeda, mas também depósitos de cheques, que também são comumente usados ​​para fazer pagamentos. O que complica as coisas é que um sistema de reservas fracionárias leva a uma expansão múltipla dos depósitos. Quando alguém coloca dinheiro em um banco, sua conta corrente reflete o depósito, mas o banco não mantém todo o dinheiro em mãos - Um banco não é um armazém. Em vez disso, ele mantém apenas uma fração como "reserva" e empresta o resto a um mutuário, que por sua vez, compra bens ou serviços. O vendedor então deposita sua nova renda em um banco, onde ele tenha uma conta corrente. A oferta de dinheiro aumenta conforme a quantia do novo depósito. Este processo continuará, embora em quantidades cada vez menores, uma vez que os bancos têm de manter parte dos novos depósitos como reservas. No entanto, cada ciclo aumentará a oferta de dinheiro, aumentando o montante global de depósitos detidos em bancos.

    Este processo funciona em sentido inverso também. Quando os bancos perdem reservas devido a corridas bancárias, a economia experimenta uma contração múltipla de depósitos. Os depósitos que são removidos da economia excedem em muito a moeda adicional que o público agora detém, então a oferta de dinheiro diminui.

    O crash da bolsa de outubro de 1929 tornou mais difícil para muitas empresas pagar seus empréstimos para os bancos, e muitos viram seus balanços prejudicados como resultado. Mas a causa mais importante das corridas bancárias que começaram em outubro de 1930 foram tempos ruins no cinturão agrícola americano, quando os bancos ficaram excepcionalmente fracos e mal diversificados. O número de corridas bancárias aumentou exponencialmente em dezembro de 1930 - naquele único mês, 352 bancos faliram. A maioria dos bancos falidos estava no meio-oeste, suas falências foram causadas por fazendeiros que não pagaram seus empréstimos porque foram pegos em cheio pela crise econômica. Assim que a primeira onda de corridas bancárias diminuiu, outra se iniciou na primavera de 1931, criando o que Friedman e Schwartz descreveram como um "contágio do medo" entre os depositantes de bancos. As crises bancárias continuaram a surgir em ondas até a primavera de 1933.

    Roosevelt entra em cena


    Franklin Delano Roosevelt


    Franklin D. Roosevelt foi empossado em 4 de março de 1933 e, dois dias depois, declarou "feriado bancário", permitindo que os bancos recusassem legalmente as retiradas dos depositantes; Durou dez dias. Com sua famosa frase: "A única coisa que temos que temer é o próprio medo", ele pretendia dissuadir os depositantes a não correrem aos bancos, mas já era tarde demais. Em 1929 havia um total de 25.000 bancos nos Estados Unidos. Quando o feriado bancário terminou, apenas 12.000 bancos estavam operando (embora outros 3.000 reabririam depois). O efeito sobre a oferta monetária foi igualmente dramático. De 1929 a 1933 ela contraiu 27 por cento - para cada $ 3 em circulação em 1929 (seja em moeda ou depósitos), apenas $ 2 haviam restado em 1933. Tal queda drástica na oferta de dinheiro inevitavelmente levou a uma diminuição maciça na demanda agregada. As poupanças das pessoas foram dizimadas, então a reação natural foi economizar mais para compensar, levando os gastos de consumo despencarem. Naturalmente, a produção econômica total também caiu drasticamente: o PIB estava 29 por cento menor em 1933 do que em 1929. E a taxa de desemprego atingiu o seu histórico máximo de 25 por cento em 1933.

    Friedman e Schwartz argumentaram que tudo isso foi causado pelo fracasso do FED em cumprir seu papel de emprestador de última instância. Ao invés de fornecer liquidez através de empréstimos, o FED apenas observou os bancos caindo como moscas, aparentemente inconscientes do efeito que isso teria sobre a oferta de dinheiro. O FED poderia ter compensado a diminuição causada por falências bancárias ao se envolver em compras de títulos, mas não o fez. Como Milton e Rose Friedman escreveram em Livres para Escolher:

    "O Sistema de Reserva Federal (Federal Reserve) poderia ter proporcionado uma solução muito melhor, se envolvendo em compras em grande escala de títulos governamentais em mercado aberto. Isso teria proporcionado dinheiro adicional aos bancos para atender às demandas de seus depositantes. Isso teria terminado - ou pelo menos reduzido drasticamente - o fluxo de falências bancárias e impedido a tentativa do público de conversão de depósitos em moeda, que acabou reduzindo a quantidade de dinheiro. Infelizmente, as ações do FED foram hesitantes e pequenas. Em geral, ele permaneceu ocioso e deixou a crise seguir seu curso - um padrão de comportamento que repetido nos próximos dois anos."

    De acordo com Friedman e Schwartz, esta era uma abdicação completa das responsabilidades centrais do FED - responsabilidades que ele havia tirado das câmaras de compensação dos bancos comerciais que tinham atuado para mitigar pânicos antes de 1914 - e essa foi a causa principal da Grande Depressão.

    A pergunta óbvia é: Por que o FED não fez nada? Nós não sabemos ao certo, mas Friedman e Schwartz propuseram várias explicações possíveis: 1) Os funcionários do FED não compreenderam completamente as conseqüências desastrosas de deixar que tantos bancos falissem. Friedman e Schwartz escreveram que os funcionários do FED podem ter "considerado as falências de bancos como conseqüências lamentáveis ​​da administração bancária ou de práticas bancárias ruins, ou como reações inevitáveis ​​a excessos especulativos anteriores, ou como conseqüência, mas dificilmente como causa do colapso financeiro e econômico em curso"; 2) Funcionários do FED podem ter agido em interesse próprio, já que muitos deles eram afiliados a grandes bancos da região nordeste dos Estados Unidos. As falências bancárias, pelo menos nos estágios iniciais, "estavam concentradas entre os bancos menores e, como as figuras mais influentes no sistema eram os banqueiros das grandes cidades, que lamentavam a existência de bancos menores, o desaparecimento destes pode ter sido visto com complacência"; 3) A inatividade pode ter sido causada por conflitos políticos entre o Federal Reserve Board em Washington, D.C., e os bancos regionais do FED, em particular o banco distrital de Nova York, que era a parte mais importante do sistema na época. Mas talvez nunca saibamos a verdadeira razão.

    Perigos do Poder Centralizado



    Sede do Federal Reserve System em Washington, D.C.


    Há uma lição importante a ser aprendida neste episódio: Quando centralizamos grandes responsabilidades e poderes em uma única instituição, seu fracasso terá consequências grandes e terríveis. O FED foi instituído para agir decisivamente nas circunstâncias exatas que ocorreram em 1930-33. Friedman e Schwartz ressaltaram que o fracasso do FED era ainda mais sério e difícil de entender, dado o quão facilmente ele poderia ter evitado tudo isso:

    Em todos os momentos durante a contração de 1929 a 1933, políticas alternativas estavam disponíveis para o sistema através das quais ele poderia ter evitado a queda do estoque de dinheiro, e na verdade, poderia ter aumentado a quase qualquer taxa desejada. Essas políticas não envolveram inovações radicais. Elas envolviam medidas do tipo que o sistema tinha tomado nos anos anteriores, de um tipo explicitamente contemplado pelos fundadores do sistema para previnir exatamente o tipo de crise bancária que se desenvolveu no final de 1930 e persistiu depois disso. Trata-se de medidas que foram realmente propostas e muito provavelmente teriam sido adotadas sob uma estrutura burocrática ligeiramente diferente ou com uma maior distribuição de poder, ou se apenas os homens no poder tivessem personalidades um pouco diferentes.

    Este é o fato mais preocupante. A instituição falhou por causa das pessoas dentro dela. E dado o imenso poder e influência que elas tinham sobre a economia, seu fracasso foi desastroso. É importante entender que a Grande Depressão poderia ter sido evitada se o FED não tivesse conduzido tão mal a sua política monetária. De fato, Friedman e Schwartz alegaram que a depressão não teria sido uma Grande Depressão se o Federal Reserve sequer exisisse: "Se o sistema bancário anterior a 1914 e não o Sistema Federal Reserve existisse em 1929, o estoque de dinheiro quase certamente não teria sofrido um declínio comparável ao que ocorreu. "


    Esse ponto foi efetivamente elaborado por Milton e Rose Friedman em Livres para Escolher:

    "Se o Sistema Federal Reserve nunca tivesse se estabelecido e se tivesse se iniciado uma série similar de corridas, não há dúvidas de que as mesmas medidas que foram tomadas em 1907, também teriam sido tomadas dessa vez - Uma restrição de pagamentos. Isso teria sido mais drástico do que de fato ocorreu nos meses finais de 1930. No entanto, impedindo o esvaziamento das reservas dos bons bancos, a restrição teria quase certamente impedido a série subsequente de falências bancárias em 1931, 1932 e 1933, exatamente como a restrição em 1907 rapidamente acabou com as falências bancárias naquela ocasião. (...) Com o fim do pânico e a confiança restaurada, a recuperação econômica provavelmente teria começado no início de 1931, assim como ocorreu no início de 1908."

    A existência do Sistema de Reservas impediu a drástica medida terapêutica: Diretamente, ao reduzir a preocupação dos bancos mais fortes, que, equivocadamente, acreditavam que o empréstimo do Sistema lhes ofereceria um mecanismo de fuga confiável em caso de dificuldades; Indiretamente, ao acalmar a comunidade como um todo, e o sistema bancário em particular, na crença de que tais medidas drásticas não eram mais necessárias agora que o Sistema estava lá para cuidar de tais assuntos.

    Em 15 de fevereiro de 2007, o economista e colunista Paul Krugman, do New York Review of Books, acusou Friedman de "desonestidade intelectual" porque Friedman repetidamente pediu uma redução significativa do poder do FED ou até mesmo sua abolição definitiva por conta de seu mau trabalho na Grande Depressão. Krugman, no entanto, concluiu que a verdadeira lição a ser aprendida com a explicação de Friedman é que as instituições governamentais deveriam ser mais ativas, não menos. Krugman acredita que sua conclusão é tão óbvia que ele está convencido de que a recomendação contrária de Friedman só pode ter sido conduzida por uma agenda ideológica e é, portanto, um exemplo de desonestidade intelectual. No entanto, Krugman claramente não entendeu a questão.

    A conclusão de Friedman era perfeitamente lógica, dada sua crença de que se o FED nunca tivesse sido criado, a recessão de 1929 não teria se tornado uma grande depressão. Friedman afirma no parágrafo acima que, sem o FED, "as mesmas medidas teriam sido tomadas [em 1930] como foram tomadas em 1907 - Nesse caso, uma restrição de pagamentos", o que segundo ele, teriam impedido a crise de se espalhar para os "bancos mais fortes", aqueles que não carregavam a culpa de se expandirem por meio de empréstimos de alto risco. O economista monetário Lawrence H. White, da Universidade de Missouri-St. Louis, preencheu as lacunas deixadas por Friedman no Blog "Divisão do Trabalho", em 12 de março de 2007):

    Friedman compreendeu (...) que antes do Federal Reserve Act, os pânicos financeiros nos EUA foram atenuados pelas ações das câmaras de compensação de bancos comerciais privados. A visão de Friedman e Schwartz sobre a década de 1930 era a de que o FED, depois de ter estatizado o papel das associações das câmaras de compensação (CHAs), particularmente o papel de credor de última instância, fez menos para mitigar o pânico do que as ACS tinham feito anteriormente nos pânicos de 1907 e 1893. Nesse sentido, a economia teria sido melhor se o FED nunca tivesse sido criado. Esta posição é perfeitamente coerente com a posição de que, dado a estatização do papel das câmaras de compensação feita pelo FED, o FED foi culpado de não fazer o seu trabalho.

    Assim, o fracasso do FED no início dos anos 30 mostra os perigos da centralização excessiva de importantes funções de mercado que antes estavam dispersas entre várias instituições privadas. A tese principal de Friedman permanece intacta: o FED causou a Grande Depressão.

    A tempestade perfeita



    Milton Friedman na cerimônia de entrega 
    do prêmio nobel de economia de 1976.


    Nas décadas seguintes, graças ao trabalho de Friedman e Schwartz, os economistas começaram a examinar outras falhas na política governamental após o Crash e eles encontraram uma quantidade grande deles. Aqui estão vários exemplos-chave dessas políticas ruins: 1) Em resposta a uma queda acentuada das receitas fiscais entre 1930 e 1931 (causada pela desaceleração das atividades econômicas), o governo federal promoveu o maior aumento de impostos em tempo de paz na história dos Estados Unidos, o que claramente serviu como um freio para qualquer recuperação que poderia ter ocorrido; 2) o governo federal também aprovou a Lei Tarifária Smoot-Hawley em 1930, aumentando substancialmente as tarifas e levando a restrições de retaliação por parte dos parceiros comerciais, o que resultou em uma queda considerável na demanda por exportações dos EUA e um novo abrandamento na produção (sem mencionar a perda de divisão de trabalho mutuamente vantajosa que o comércio proporciona); 3) o governo federal também instituiu todo tipo de programa de "obras públicas", começando sob Herbert Hoover e aumentando dramaticamente sob Roosevelt; Os programas retiraram centenas de milhares de pessoas do mercado de trabalho e envolveram-nas em atividades economicamente dispendiosas, como esculpir caras de presidentes mortos nas margens de uma montanha, impedindo ou atrasando assim os ajustes necessários ao mercado de trabalho; 4) outra política federal que impediu os ajustes necessários foram os controles de preços e salários decretados pela Administração Nacional de Recuperação, em vigor de 1933 até 1935 (quando declarados inconstitucionais); Esta política distorceu massivamente os preços relativos do mercado, prejudicando a sua capacidade de funcionar como guias para os empresários; 5) o FED não foi menos culpado depois de 1933. Ele aumentou as exigências por reservas bancárias em três etapas entre 1936 e 1937, levando a outra diminuição significativa na oferta monetária. O resultado foi a recessão 1937-38 dentro da Depressão, piorando ainda mais as coisas.

    Os economistas passaram a entender a Grande Depressão como uma "tempestade perfeita" de falhas políticas. Um número verdadeiramente assustador de políticas destrutivas foram realizadas quase que simultaneamente. Em retrospecto, parece que, sempre que a economia começava a mostrar o menor indício de recuperação, uma política seria promulgada para colocar um rápido fim nela.

    A melhor explicação da Grande Depressão revelou que ela não foi causada por forças do livre mercado. Não há nada na operação de mercados livres que crie depressões ou mesmo recessões. Em vez disso, sabemos agora que devemos procurar as causas desses fenômenos em políticas mal administradas e erradas do governo. E muito do crédito por esta mudança na forma como os economistas olham para a Depressão se deve ao trabalho inovador de Friedman e Schwartz sobre o papel do FED. Friedman forneceu - e, finalmente, persuadiu a maioria dos economistas - essa explicação alternativa, graças a sua insistência na investigação intelectual honesta e livre de preconceitos ideológicos. Era uma coisa corajosa a se fazer numa época de domínio keynesiano absoluto na profissão de economista, e poderia ter sido prejudicial ou até mesmo destrutivo para sua carreira. Mas a força pessoal de caráter e a honestidade intelectual de Friedman o obrigaram a manter-se fiel à verdade, e todos nós hoje ganhamos com isso.

    Ironicamente, como resultado da crise bancária de 1930-33, o Fed recebeu mais responsabilidades e mais controle sobre o sistema bancário. Como é frequentemente o caso na política, o fracasso foi usado para justificar uma expansão do poder. Essa expansão do poder do FED resultou em uma grande destruição econômica nas décadas subseqüentes. Em 1980, Milton e Rose Friedman escreveram sobre a atuação do FED nos 45 anos após a crise bancária de 1930-33:

    "A partir de 1935, o Sistema de Reserva Federal comandou - e contribuiu grandemente - para uma grande recessão em 1937-38, para uma inflação durante os tempos de guerra e após ela e para uma economia de "montanha-russa" desde então, com aumentos e quedas alternados na inflação e no desemprego. Cada pico inflacionário e cada queda inflacionária temporária tem estado num nível cada vez mais alto, e o nível médio de desemprego aumentou gradualmente. O Sistema não cometeu o mesmo erro que cometeu em 1929 e 1933 - permitir ou promover um colapso monetário - mas cometeu o erro oposto, o de fomentar um crescimento indevidamente rápido na quantidade de dinheiro e assim promover a inflação. Além disso, ele continuou, balançando de um extremo para outro, para produzir não só booms, mas também recessões, algumas leves, outras duras."

    O desempenho do FED melhorou desde 1980, mas isso não significa que ele não seja mais capaz de erros que teriam consequências devastadoras para nossas vidas. O trabalho de Friedman deve servir como um aviso do que pode acontecer quando tanto poder é concentrado artificialmente em uma instituição. É por esta razão que é tão vitalmente importante que as pessoas hoje aprendam a verdadeira história da Grande Depressão. Sua fé nas instituições governamentais pode ser consideravelmente prejudicada se entenderem o que realmente aconteceu.


    Por: Jason Sorens
    Publicado originalmente no site Learn Liberty. Artigo Original em Inglês

    Se você quiser entender a base moral de uma sociedade livre, pode não haver opção melhor para começar do que com o pensamento de Immanuel Kant. Ele é o filósofo moral mais importante e amplamente discutido na história. E ele era autoconscientemente um liberal iluminista que acreditava em um governo limitado e liberdade máxima.

    Vamos dar uma olhada nos elementos de seu argumento moral e político para a liberdade.

    I. A Boa Vontade e a Lei Moral

    Em seu primeiro trabalho de filosofia moral, Os Fundamentos da Metafísica dos Costumes, Kant tenta sistematizar nossas intuições morais comuns a fim de nos deixar um método para decidir sobre controvérsias morais - isto é, questões em que nossas consciências ou intuições podem discordar dos outros ou não falar claramente.

    Ele observa que a única coisa incondicionalmente boa no mundo, de acordo com o entendimento comum, é uma boa vontade. A boa sorte, a saúde e até mesmo a felicidade, amplamente compreendida, não são coisas incondicionalmente boas, porque quando combinadas com uma má vontade, se tornam fonte de condenação para um espectador imparcial. Nós não aplaudimos o homem mal que alcança seus objetivos e saboreia sua vitória. Nós o condenamos e esperamos que seus planos sejam frustrados. Não, mais importante do que ser feliz é ser digno de felicidade, isto é, de ter uma boa vontade.

    Sobre este ponto Ayn Rand, a fundadora do objetivismo, interpretou mal Kant. Ela acreditava que ele era aquilo que ela chamava de "altruísta", ou seja, alguém que achava louvável sacrificar a felicidade. Kant acreditava, como a maioria de nós, que a felicidade não deve anular o dever. Obediência à lei moral - dever - é a coisa mais importante, mas a felicidade também é desejável.

    Kant observa que uma suposição importante e necessária para a responsabilidade moral é a idéia de que nós, seres humanos, definimos a lei moral para as nossas próprias vontades. Dizemos a nós mesmos: "Esta é a coisa certa a se fazer, e assim farei". Não sabemos como é possível para nós determinar livremente nossas próprias vontades, mas deve ser possível se nos considerarmos como seres moralmente responsáveis.

    II. O imperativo categórico

    A lei moral assume a forma de um imperativo incondicional ou categórico. Ele diz, por exemplo: "Não matarás, ainda que você possa alcançar seus objetivos ao fazê-lo". Não é um imperativo hipotético como "se você não quer queimar a sua mão, não toque no fogão quente" ou "se você não quer ir para a cadeia, não mate." Ele comanda nossas vontades, independentemente de quais forem nossos objetivos particulares.

    Kant pensa que todos os mandamentos morais particulares podem ser resumidos num imperativo fundamental e categórico. Ele toma três formas. Tratarei de dois deles aqui.

    Uma forma do imperativo categórico enfoca a noção de que os seres humanos são especiais por causa de nossa capacidade de responsabilidade moral. Kant assume que esta capacidade dá a cada ser humano individual uma dignidade, não um preço. Isso significa que não devemos trocar os direitos e interesses legítimos de qualquer ser humano por qualquer outra coisa. Não devemos tratar as outras pessoas ou a nós mesmos como meros meios para algum outro fim, mas sempre como fins em si mesmos.
    A outra forma, talvez mais freqüentemente citada, do imperativo, é altamente abstrata: "Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza". Em outras palavras, pense no princípio ou regra que justifica sua ação; Então veja se ele é universalizável. Se assim for, é um princípio ou regra aceitável para se seguir; Se não, não é. "Roubar quando posso ganhar uma vantagem com isso" não é universalizável porque implica que os outros podem roubar de mim, isto é, tomar o que eu tenho contra a minha vontade. Mas minha vontade não pode ir contra minha própria vontade.

    III. Direitos e Liberdades

    Ora, essa compreensão da dignidade do ser humano individual implica que as pessoas têm direitos, ou seja, que temos um dever obrigatório de respeitar as liberdades de todas as pessoas.

    Portanto, não podemos passar por cima das liberdades de uma pessoa para ajudar outra ou muitas outras (contra o "agir utilitarista"). Por exemplo, seria errado matar uma pessoa saudável para distribuir seus órgãos para várias pessoas doentes, mesmo se isso fosse necessário para salvar duas ou mais vidas. Cada pessoa tem uma dignidade que não deve ser violada, sob nenhum pretexto.

    (Outra má interpretação de Kant diz que ele achava que suas intenções são a única coisa que importa e que você pode ignorar as conseqüências de suas ações, pelo contrário, ignorar as conseqüências é agir com má intenção. Consequencialistas diferem de Kant por acreditar que apenas um agregado de conseqüências de ações precisam ser levadas em conta. A teoria política de Kant é individualista, enquanto as teorias conseqüencialistas são inevitavelmente coletivistas.)

    Em um ensaio intitulado "Teoria e Prática" (abreviação de um título muito mais longo), Kant dá uma visão geral de sua teoria política. Uma vez que um estado civil foi estabelecido para garantir nossos direitos, ele diz:

    “Ninguém pode me obrigar a ser feliz de acordo com sua concepção do bem-estar dos outros, pois cada um pode buscar sua felicidade da maneira que julgar conveniente, desde que não infrinja a liberdade dos outros de perseguir um fim semelhante e que possa ser conciliado com a liberdade de todos os outros dentro de uma lei geral viável - ou seja, ele deve conceder aos outros o mesmo direito do qual ele próprio goza.”

    Kant, portanto, endossa a lei da igualdade de liberdade, que todos devem ter a máxima liberdade para buscar a felicidade consistente com uma liberdade igual para todos os outros, ou o que alguns liberais chamaram de "Princípio de Não Agressão". Este princípio se aplica sob o governo e não só sob o estado de natureza.

    A igualdade de liberdade de cada sujeito em um estado civil, diz Kant, "é, porém, perfeitamente compatível com uma bem maior desigualdade da massa no grau de suas posses, quer elas tomem a forma de superioridade física ou mental, ou de propriedade externa legítima ou ainda de direitos particulares (dos quais podem haver muitos) em relação aos outros. "Kant não é rawlsiano; Ele é um liberal clássico que percebe que a liberdade perturba os padrões e deve ser preservada apesar disso (ou por causa disso).

    No mesmo ensaio, Kant endossa a visão de Locke de contrato social. Um Estado legítimo, com direito de governar, só pode surgir após um consentimento unânime ao contrato inicial. Fazer o contrário seria violar os direitos dos não-consentidores. Sabemos hoje que o consentimento unânime ao contrato social raramente ocorreu na história da humanidade, mas ainda assim, a firme teoria de Kant sobre os direitos individuais nos embasa para uma rejeição da autoridade política.

    Se rejeitarmos a autoridade política, o maior estado que poderemos justificar é um estado mínimo e, segundo alguns, nem mesmo isso.

    IV. Liberalismo kantiano

    A filosofia moral de Kant justifica direitos individuais extremamente fortes contra a coerção. A única justificativa para a coerção em sua filosofia parece ser a defesa de si mesmo ou de outros. Seu governo ideal, portanto, parece ser extremamente limitado e permitir o livre jogo da imaginação, da empresa e das experiências de vida dos cidadãos.

    Kant toma algumas posições estranhas em posições morais particulares. Ele tem uma visão estranha do casamento como uma espécie de servidão mútua, nega que exista um direito de resistir a um soberano injusto, e acha que mentir é sempre errado, não importa o motivo, mas acho que Kant é mais persuasivo em seus pensamentos mais abstratos, quando ele lida com questões filosóficas fundamentais.

    Qualquer que seja a sua opinião sobre o trabalho desse filósofo, Immanuel Kant merece ser amplamente lido por liberais clássicos e libertários. Suas contribuições ao liberalismo são importantes e ainda subestimadas.

    cover


    Embora a mídia venha fazendo um servicinho bem porco na tentativa de denegrir Donald Trump e seus seguidores, em especial o novo movimento político de extrema-direita que vem crescendo nos Estados Unidos, a Alt-Right, isso não significa que este movimento não seja realmente algo com o que se preocupar. Então, é importante que você não confunda esse artigo com as matérias toscas, pouco fundamentadas e que beiram o infantil (como essa, por exemplo) que a grande mídia vem fazendo sobre a Alt-Right.

    Também é importante deixar claro que, embora a proximidade de Donald Trump com Stephen Bannon, o fundador do principal blog da Alt-Right, o Breitbart, e com a Rússia, isso não significa que Donald Trump seja, pessoalmente, adepto da Alt-Right, muito menos que todos os seus apoiadores ou eleitores sejam, a maioria obviamente nem sabe do que se trata. Confundir os apoiadores de Trump com a Alt-Right é dar a essa última, uma importância que ela não tem.

    E foi justamente no Breitbart que eu encontrei um guia (vamos nos referir a ele constantemente nesse texto como "nosso guia" ou com termos semelhantes) para explorar a Alt-Right embasar este artigo. O guia é este artigo, co-assinado por Milo Yiannopoulos. Bom, se um artigo do Breitbard e co-assinado por Milo Yiannopoulos não tiver autoridade para falar em nome da Alt-Right, então ninguém mais tem. E embora alguns possam argumentar que a Alt-Right é um movimento composto pelas mais diversas opiniões e sub-ideologias políticas e que nem toda a Alt-Right está representada nesse artigo (algumas vertentes não estão porque são ainda piores), ele é suficiente para nos deixar preocupados, já que ele representa a opinião de, no mínimo, uma boa parte dos seus adeptos.



    Um texto publicado no portal de esquerda Voyager e assinado por Luan Toja, sob o título "12 Fatos que provam que os liberais brasileiros são, na verdade, conservadores", tentou cagar regra sobre quais pautas o liberalismo brasileiro deve defender ou deixar de defender de forma bastante conveniente para políticos de esquerda. Eu não gosto muito de acusar de má fé, os autores dos textos que tento refutar, mas é difícil não imaginar motivações escusas por trás das falácias que este texto traz.

    Considerando apenas os tópicos do artigo, eu tenderia a concordar pelo menos com a metade deles. Realmente, há muito conservadorismo travestido de liberalismo no Brasil, e eu mesmo dedico uma boa parte dos posts da nossa página no Facebook para denunciar estes equívocos (E esse post abaixo, que me rendeu muitas críticas, é uma prova disso). O problema com esse texto porém, é que ele aproveitou esses equívocos comuns no jovem movimento liberal brasileiro para induzir a equívocos ainda maiores. E onde está a má fé na minha opinião? O texto tenta induzir o leitor a acreditar que o liberalismo tem mais a ver com a esquerda do que com a direita e que portanto, liberais devem votar ou apoiar políticos de esquerda. Bastante conveniente, não é mesmo?




    Mas vamos refutar o texto, item por item, começando pela introdução. Veja o que o autor pensa do ex-presidente Lula:

    "Os adeptos desse proselitismo precisaram aguardar o término do mandato de Lula à frente da presidência do Brasil para tentarem aproveitar a lacuna deixada pela saída de um grande líder popular"

    O cara considera Lula, um "grande líder popular" e quer cagar regras sobre o liberalismo. Então me perdoem se algumas colocações minhas ao longo do texto forem demasiado óbvias, mas acredito que para muitos será bastante didático e esclarecedor.

    1 – São contra o direito ao aborto




    Eu também sou. E não sou brasileiro.

    Esse tema divide liberais e não há um consenso sobre o tema no meio, já que os princípios liberais por sí só, não são suficientes para solucionar a questão.
    Tudo depende da resposta que você dá para a pergunta: Um embrião deve ser considerado um ser humano, portador de todos os mesmos direitos que qualquer ser humano nascido possui? Se a resposta é não, então realmente, proibir o aborto é uma intromissão indevida no corpo da mulher, mas se a resposta for sim, então o embrião deve ter o seu direito à vida preservado pois o direito à liberdade de um, não pode passar por cima do direito à vida de outro.

    E não é só no Brasil que há esse dilema, entre os libertarians americanos (a forma como os liberais são conhecidos nos Estados Unidos), um dos mais proeminentes, populares, influentes e eu diria até, um dos mais radicais, é Ron Paul, e vejam só, mesmo sendo favorável à algumas das pautas que o autor do texto também defende, como a legalização das drogas e o casamento gay, ele é contra a legalização do aborto.
    Então, se ser contra o aborto é uma pauta necessariamente conservadora, não são só os liberais brasileiros que estão errando.

    2 – Não se posicionam a favor da legalização das drogas



    Situação legal da maconha na Europa

    Eu realmente acho que a legalização das drogas é uma pauta tipicamente liberal, mas não vejo motivos para tratá-la como prioridade, tampouco devemos deixar de apoiar um político favorável a várias outras liberdades, apenas porque ele não se posiciona sobre a legalização das drogas.

    E novamente, esse problema não é exclusivo dos liberais brasileiros. Quantos partidos liberais ao redor do mundo se posicionam claramente a favor da legalização radical de todas as drogas? 
    Na Europa, por exemplo, o grupo dos partidos liberais é o quarto maior em número de deputados do Parlamento Europeu, seus partidos são de situação e exercem grande influência, ainda assim, quantos países europeus legalizaram as drogas? Até mesmo os super-progressistas nórdicos possuem políticas bem restritivas em relação às drogas.

    A mesma crítica vale até para a esquerda, mesmo entre os politicos de esquerda que se posicionam favoravelmente a liberação da maconha, como Obama e Fernando Henrique, por exemplo, quantos deles de fato liberaram alguma coisa enquanto estiveram no poder? E nem por isso vamos chamá-los de conservadores, certo?
    E isso tem uma explicação muito simples: Em geral, tanto os políticos liberais quanto esquerdistas não defendem liberação das drogas abertamente PORQUE ESSA É UMA PAUTA EXTREMAMENTE IMPOPULAR. Não é uma questão de conservadorismo, é uma questão de ganhar votos.

    3 – Apoiam o autoritarismo estatal



    Os Chicago Boys

    De fato, não dá pra entender que tipo de alucinação leva alguém que defende o regime militar de 64 a se considerar liberal. Apesar de serem (acredito eu) poucos os que incorrem em tal incoerência, ela é muito grave para não ser criticada.

    Mas mesmo num tópico em que poderia haver alguma concordância, eu me ví extremamente incomodado com um trecho em particular:

    "Defesa, que na verdade, não passa de uma sociopatia e um medo exacerbado pela perda de privilégios que as reformas de base de João Goulart e Salvador Allende poderiam acarretar. Reformas estas que inclusive já foram feitas pelos países mais desenvolvidos do globo."

    Tudo bem que é incoerente que liberais concordem com o regime de 64 no Brasil ou com o regime de Pinochet no Chile, mas tentar nos convencer de que as políticas de João Goulart e Salvador Allende foram boas, de um ponto de vista liberal, é ofender nossa inteligência.

    Essas políticas, que envolviam nacionalização de empresas, descontrole fiscal e controle do estado sobre a economia (que segundo o autor, os liberais deveriam defender), foram, segundo o autor, postas em práticas em vários países desenvolvidos. Pra começar: Quais países são esses? Quando isso aconteceu? Esta afirmação está bem pouco fundamentada. 
    E o mais importante: Ser liberal não tem nada a ver com ter complexo de vira-lata. Foda-se se países desenvolvidos fizeram tais "reformas de base", a questão é saber se isso foi causa do desenvolvimento desses países ou se foi apenas um empecilho.

    Na verdade eu posso citar um país desenvolvido onde políticas desse tipo foram implementadas, e ainda não de forma tão radical como nos governos de Allende e João Goulart: No Reino Unido do pós-guerra. Quando os trabalhistas chegaram ao poder, perto do fim da II Guerra Mundial, eles implantaram uma espécie de economia mista no país, mas é redundante dizer que deu tudo errado e que sobrou para Margareth Thatcher, que embora conservadora, tinha um programa liberal em economia como nunca se havia praticado antes, arrumar a bagunça toda criada pelos trabalhistas (e conservadores estatistas).

    E por fim, embora liberais devam necessariamente, repudiar o aspecto político autoritário do regime de Pinochet no Chile, eles também devem apreciar a política econômica desse mesmo regime, que contou com a assessoria de Milton Friedman e dos Chicago Boys para reverter toda a merda feita pelo governo Allende.


    4 – Apoiam projetos de censura como os do “Escola Sem Partido”




    Eu particularmente sou contra o projeto Escola Sem Partido, porque acho que é uma solução simplista que não deve funcionar. A doutrinação esquerdista nas escolas existe, mas na maioria das vezes não é por má fé dos professores e sim porque eles simplesmente não conhecem outra coisa que não seja o lixo marxista. O projeto é ruim porque, além de não funcionar, abriria margem para a perseguição arbitrária de professores.

    Mas obviamente que o projeto em sí, não se trata censura, até concordo que ele abre margem para a censura, mas dizer que professores devem se limitar a ensinar o conteúdo das disciplinas da forma mais imparcial possível, não é defender a censura. O professor tem o direito de expressar suas opiniões, mas fora do horário de aula, afinal ele é pago pelos pais dos estudantes (seja em forma de mensalidades para escolas particulares ou de impostos para escolas públicas) para ensinarem os conteúdos que os pais e a sociedade consideram relevantes e não para fazer proselitismo de suas próprias convicções pessoais. Professores prestam um serviço aos pais e à sociedade, não a sí mesmos, por isso devem se submeter, enquanto professores (óbvio que fora das escolas eles podem dizer o que quiserem) àquilo que os pais e a sociedade esperam que eles ensinem.

    Se não devemos aceitar que um professor tenha o direito de chegar na sala de aula e começar a ensinar os alunos a jogar truco, por exemplo, sob a alegação de que está exercendo sua "liberdade de expressão", tampouco devemos aceitar que eles usem a sala de aula como palanque. Até porque, os mesmos críticos do projeto Escola Sem Partido, não aceitam que professores ensinem religião ou que rezem o Pai Nosso antes das aulas por exemplo, ora, mas isso não seria censura também?

    5 – Apoiam Trump / 6 – Apoiaram Crivella




    Freixo fazendo cosplay de "libertário".

    Vou falar dos dois tópicos ao mesmo tempo porque no fundo tratam da mesma coisa.
    Se algum liberal vê em Trump ou Crivella, a salvação da América ou do Rio, respectivamente, esse sujeito é evidentemente retardado, mas se ele considera que esses candidatos eram a opção menos ruim entre duas opções ruins, essa já é uma posição bem mais respeitável, embora não necessariamente acertada.
    Então não é que Trump e Crivella sejam bons, Hillary e Freixo é que eram muito ruins. E eu particularmente, ficaria de lados diferentes nas duas situações, entre Crivella e Freixo, prefiro Crivella, mas entre Trump e Hillary, prefiro Hillary. Acontece é que a diferença de um sobre o outro é tão sutil que eu realmente não acho que um liberal que preferisse Trump fosse menos liberal por causa disso.

    E novamente, são alguns trechos específicos que me levam a crer que o autor maliciosamente tenta induzir o leitor a apoiar políticos de esquerda:

    "No segundo turno das últimas eleições municipais do Rio de Janeiro, a disputa ficou entre Marcelo Freixo, candidato que defende pautas libertárias como as legalizações do aborto e das drogas, e Marcelo Crivella, bispo de uma igreja ultrafundamentalista"

    Então Marcelo Freixo tem pautas libertárias? Quantas exatamente? Você só citou uma: A legalização das drogas. Ter uma, ou duas, que seja, pautas libertárias, não faz de você um libertário e em segundo lugar, esssa pauta é irrelevante para um pleito municipal, simplesmente porque não tem como legalizar as drogas em um único muncicípio, logo, o tema é totalmente irrelevante nessa situação.

    E se ser de uma religião ultrafundamentalista é motivo o suficiente para não votar num candidato a prefeito, então os londrinos erraram ainda mais feio ao eleger um prefeito muçulmano, não é mesmo? Ou será que o autor é um daqueles que acham que dizer que o islã é intrinsecamente fundamentalista, é islamofobia, mas dizer que a Igreja Universal o é, está tudo bem? - Tranquilo, você pode até receber uns tapinhas nas costas dos seus amigos do DCE da sua faculdade por isso.
    Tamanha falta de senso das proporções não pode ser fruto apenas de uma falha de raciocínio, o autor desse texto realmente está tentando cooptar liberais para sua agenda de esquerda.

    7 – Defendem e apoiam a família Bolsonaro

    Novamente, o autor pega uma verdade, nesse caso, ser liberal e apoiar a família Bolsonaro é uma tremenda incoerência, para manipular o leitor, numa típica falácia non-sequitur.

    Ele dá a entender que o MBL apoia Bolsonaro incondicionalmente por conta de UM ÚNICO CASO ESPECÍFICO em que o movimento se manifestou em defesa do deputado, nesse caso, em relação à acusação que Bolsonaro sofreu no STF por suposta apologia ao estúpro durante uma discussão com a colega Maria do Rosário.

    E veja bem, eu particularmente acho que Bolsonaro estava errado nesse episódio, mas não é a simples posição em favor do deputado NESSE CASO ESPECÍFICO que torna o MBL menos liberal.

    8 – São contra o movimento feminista





    O feminismo liberal tem o dever de proteger a liberdade
    dos ataques vindos do feminismo pós-moderno

    O autor está correto ao afirmar que o feminismo é uma pauta tipicamente liberal e que o feminismo liberal é uma vertente importante do movimento feminista, mas também é fato que feministas liberais têm não só o direito, mas o dever de criticar o chamado "feminismo de terceira onda" por seu caráter fortemente anti-liberal. O autêntico feminismo liberal, aquele realmente preocupado com as liberdades individuais, tem o dever de dedicar tantas energias para criticar o feminismo pós-moderno, com seu irracionalismo e autoritarismo intrinsecos, quanto para lutar contra o machismo. E é justamente isso que uma conhecida feminista liberal, a autora americana Christina Hoff Sommers, por exemplo, faz em seu excelente canal no youtube.

    9 – São anti-igualitários



    O autor colocou bem ao lembrar de autores liberais como Hayek e Friedman, que defenderam programas governamentais para o alívio da extrema pobreza, mas isso é muito diferente de defender igualdade. Confundir desigualdade com pobreza é um erro típico de socialistas, não tem como alguém cometer esse erro e ainda se prestar a cagar regra sobre liberalismo. Definitivamente, o autor desse texto ofende nossa inteligência.
    Aliás foi o mesmíssimo Hayek, o autor da frase: "Existe uma enorme diferença entre tratar as pessoas igualmente e tentar torná-las iguais."

    Portanto, a única igualdade que liberais defendem é a igualdade de tratamento. OK, eu sei que igualdade de condições sociais, também foi um tema caro para John Rawls, outro importante pensador liberal que o autor cita, mas a teoria da justiça de Rawls está longe de ser consenso entre os liberais, ela foi durante criticada por Robert Nozick e, novemente, por Hayek.
    E mesmo John Rawls defendia que a desigualdade poderia ser justificada quando, de alguma forma, contribuísse para o bem comum.

    E é justamente por defender a igualdade de tratamento que o liberalismo rejeita cotas raciais e políticas afirmativas. Milton Friedman, citado pelo autor, defendia programas de governo contra a pobreza, mas argumentava que estes programas deveriam se focar nos pobres, não nos negros, não nas mulheres, não nos camponeses, mas apenas nos pobres e qualquer outro critério para as políticas assistenciais do governo seria um erro com consequências negativas para os mesmos grupos que se tenta ajudar.
    A ideia de igualdade de tratamento foi tão marcante em Friedman, que dois de seus mais proeminentes alunos, os economistas afro-americanos Thomas Sowell e Walter Williams, fizeram carreira criticando as politicas afirmativas.

    10 – Defendem os “corporativistas”





    Você sabia que: As chuvas intensas em São Paulo são
    feitas das lágrimas dos petistas que não aceitam que
    o Doria é mil vezes melhor do que o Haddad?

    No começo deste tópico, o autor acusa os liberais brasileiro de tentarem deslegitimar a política de campeãs nacionais do governo Dilma, ao mesmo tempo em que citam a Coréia do Sul, um país que praticou tais políticas, como caso de sucesso.

    Acontece é que, em primeiro lugar, liberais citam a Coréia do Sul, na maioria das vezes, apenas em comparação com a Coréia do Norte. Alegam que o contraste entre a Coréia do Sul corporativista, mas ainda assim, uma economia de mercado a grosso modo, e a Coréia do Norte plenamente comunista, é nítido, o que não significa que a Coréia do Sul seja um modelo ideal.

    Em segundo lugar, é evidente que a Coréia do Sul deu certo, pois país saiu da pobreza abjeta direto para o primeiro mundo em apenas algumas décadas, e o Brasil de Dilma deu errado e a crise que estamos vivendo é a prova mais inegável disso.
    Mas se ambos praticaram a política de campeãs nacionais, o que explica tamanha disparidade de resultados? São vários fatores: O estado na Coréia do Sul investiu em educação, o governo Dilma investiu em estádios de futebol; a Coréia do Sul investiu em infra-estrutura, em bens de capital e no lado da oferta, o Brasil incentivou o consumo e o lado da demanda; a Coréia do Sul tem poucas políticas trabalhistas, tanto que cresceu oferecendo mão de obra barata, o Brasil trata a CLT como sagrada e inquestionável; a Coréia do Sul tem um ambiente favorável para os negócios e uma carga tributária civilizada, o Brasil tem uma carga tributária sufocante e é um pesadelo para os empreendedores. Definitivamente, as diferenças são enormes.

    Em seguida ele acusa Doria de ser um empresário corporativista, o que pode não estar totalmente errado, ao mesmo tempo em que alega que corporativismo existe em todo mundo e é algo quase que inevitável, mas os liberais brasileiros só criticam os corporativistas que apóiam ou estão envolvidos com o PT, fazendo vista grossa para os que estão envolvidos com os demais partidos.
    Mas isso é óbvio não? Sendo o PT pior que suas alternativas (PSDB por exemplo) e estando todos eles no mesmo barco quando se trata de corporativismo, então melhor um corporativista que não apoia o projeto bolivariano do PT, que culminaria, a longo prazo, no socialismo, do que um que o faz.

    E sim, o fato de o sujeito ser financeiramente independete e financiar a própria campanha, como foi o caso de Dória, o torna menos vulnerável a se tornar refém de outros empresários corporativistas, e essa é uma tese que o autor do texto nem tentou refutar.

    11 – Pensam que a religião é um dos fundamentos do liberalismo




    Tocqueville, Lord Acton, José Ortega y Gasset? Nunca ouvi falar!

    É verdade que o liberalismo defende o estado laico, e o autor está correto ao citar novamente John Rawls (que volto a afirmar, não é consenso entre liberais) para fundamentar a tese de que as instituições políticas não devem ser lastreadas por uma noção de bem derivada da religião, embora também não precise necessariamente estar em contradição com essas noções, diga-se de passagem.

    Mas daí a pular para a afirmação que o autor faz a seguir, é um salto lógico inaceitável.

    "Isso sem falar que o liberalismo é a crença de que o ser humano tem riquezas intrínsecas, únicas a cada indivíduo, que – se retirarmos os entraves externos (o que inclui a Igreja) – se desenvolvem ao máximo. Então não pode haver repressão por parte da Igreja, nem mesmo indução."

    Nem todos os liberais acreditam que a Igreja ou a reprovação moral de um grupo ou instituição, seja necessariamente um entrave para a expressão da individualidade, Tocqueville é um desses liberais que, pelo contrário, acreditavam que a liberdade só funciona em sociedades extremamente moralistas, justamente porque esses códigos morais substituem a coerção do estado na moderação do comportamento humano.
    E mesmo os liberais libertários, aqueles que reprovavam a tirania da opinião alheia tanto quanto a tirania da coerção estatal, como era o caso de John Stuart Mill, não achavam que a segunda era a solução para a primeira. As pessoas, segundo estes, devem se libertar do dogmatismo e do moralismo (religioso ou não), mas não cabe ao estado libertar as pessoas da "tirania não estatal", tal tentativa geraria uma tirania ainda pior. Usar o estado para livrar as pessoas da tirania religiosa, geraria uma tirania atéia. A decisão de ser livre (para os que concordam com essa concepção de liberdade que, repito, está longe de ser consenso entre os liberais) deveria, como sempre, partir da razão do próprio indivíduo.

    Eu poderia citar vários outros autores liberais que certamente discordariam do autor do texto, Lord Acton provavelmente é um nome desconhecido pra ele, Escola de Salamanca então, nem se fala. Posso citar também o espanhol José Ortega y Gasset que argumentou de forma esclarecedora que defender um estado laico é muito diferente de defender o anti-clericalismo.

    12 – São contra os direitos LGBT

    Veja o que o texto diz:

    "Já Fernando Holiday, um dos líderes do MBL, vereador eleito em São Paulo, se posicionou a favor da extinção das secretarias da prefeitura de São Paulo voltadas para a promoção da igualdade racial e também a que atende a população LGBT."

    Quer dizer, se você é liberal você deve tratar como inquestionável o gasto estatal com uma secretaria inútil apenar porque ela diz promover a igualdade. Sacaram qual é? Liberais devem acreditar no estado como mediador de todos os conflitos humanos.

    Definitivamente, o autor desse texto subestima nossa inteligência ao achar que seria tão fácil cooptar liberais para sua agenda de esquerda.