Como o socialismo destruiu a Bolívia - Parte I



A esquerda narra a vitória de Evo Morales nas eleições de 2005, como se esta fosse a primeira vez que o povo, como sempre personificado pela esquerda, alcançasse o poder neste, que é o país mais pobre da América do Sul, depois de uma longa história de domínio da direita, das elites e do imperialismo norte-americano.

Mas como muitas outras histórias contadas pela esquerda, esta também não é verdade. A Bolívia teve uma revolução socialista já em 1952 e uma sucessão de governos intervencionistas e populistas que começou muito antes disso e nunca chegou a ser interrompida de fato. Mas isso seu professor de história marxista não te contou.

Durante anos, a esquerda se aproveitou da ignorância histórica das pessoas para vender a ideia de que a culpa por toda a miséria, atraso e subdesenvolvimento no mundo é do capitalismo e que, todo e qualquer país que não teve um "República Popular" no começo do nome ou sua bandeira alterada para algum tom de vermelho com algum símbolo socialista estampado nela, era automaticamente, capitalista de livre mercado, adepto do laissez-faire.
Mas não poderão mais se aproveitar desta ignorância histórica, pois aqui estamos para contar a história que seu professor marxista não te contou.



Início dos anos 30 - Com a Grande Depressão, os preços dos minérios, em especial do Estanho, caem e a economia da Bolívia entra numa severa crise, dando início assim à um longo período de instabilidade política e econômica que nunca acabou de fato. A economia boliviana era altamente dependente das exportações de estanho, setor dominado por um grupo de empresas conhecido como "Rosca" - Patiño, Hotschild e Aramay - Todas de capital boliviano. 

Em 1932, mesmo em meio a crise econômica, o país decide entrar em guerra com o Paraguai numa disputa pela região do Gran Chaco. A Bolívia é derrotada e perde o território para o Paraguai.
Essa derrota provocaria ainda mais descontentamento e desconfiança em relação à elite política. A esquerda começa a se radicalizar. Gustavo Navarro, um dos mais radicais líderes de então lança o famoso slogan: "Terra para os índios, minas para o estado".

Antes da Revolução de 52 - Socialismo Militar

Com a derrota, os militares também começam a ficar divididos entre uma ala mais conservadora e outra mais radical. Já em 1936 a ala mais radical e reformista chega ao poder com o Coronel David Toro Ruilova (1936-37) graças a um golpe de estado. 
Seu programa de "socialismo militar" incluía as bandeiras da justiça social e controle governamental dos recursos naturais. O primeiro decreto de nacionalização da história boliviana data desse período. O governo do general David Toro, expediu duas medidas significativas no período: a criação da estatal YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolivia) e, posteriormente, a nacionalização sem compensações das reservas da Standard Oil. - A desculpa dada para isso era a de que a empresa americana havia vendido petróleo boliviano às forças paraguaias durante a guerra.

Ainda assim, Toro foi incapaz de conseguir apoio popular, um grupo mais radical que se ressentia por sua incapacidade de enfrentar a "rosca" resolveu apoiar o golpe que levou o Coronel Germán Busch Bacerra (1937 - 39) ao poder. Uma nova constituição, promulgada em 1938, estabelecia a primazia do "bem comum" sobre a propriedade privada e favorecia a intervenção do governo na economia. Ela também reconhecia as comunidades indígenas e introduzia uma legislação trabalhista. Em 1939, Busch emite um decreto que impedia as empresas de mineração de enviar capital para fora do país.
Ainda assim, suas reformas foram consideradas insuficientes e ele não conseguiu apoio popular e militar. Sua frustração o levou a cometer suicídio em 1939.
A esquerda radical crescia e se organizava, enquanto os militares socialistas tentavam trazer os conservadores para o seu lado a fim de manter um governo militar.
A articulação dessa diversidade de sentimentos de inconformidade ficaria a cargo de um ator surgido em meio à intelectualidade do meio urbano. O questionamento das causas da inoperância boliviana levou ao nascimento de um movimento nacionalista vigoroso, que propunha a reformulação da nação sobre bases mais abrangentes. E seu artífice era um partido político: o Movimiento Nacionalista Revolucionário (MNR).

Em 1943 o Major Gualberto Villarroel López (1943–46), chega ao poder com o apoio do MNR.
O governo de Vilarroel enfatizava a continuidade das reformas iniciadas por Toro e Busch. Paz Estenssoro, membro do MNR e que servia como ministro das finanças, esperava ganhar apoio popular com um orçamento que privilegiava os  gastos sociais do governo.
Mas sem conseguir apoio popular, enfrentando oposição dos conservadores e a rivalidade dos militares, o governo cai. Em 1946, uma multidão de estudantes, professores e trabalhadores pegou em armas e capturou o presidente Vilarroel, que foi enforcado em praça pública.



Os seis anos que precederam a revolução de 52 ficou conhecido como o sexênio e foi caracterizado pelas tentativas da direita em conter o avanço da esquerda radical. o que contudo, com o declínio da economia, se mostrou inútil.

A Revolução Socialista de 1952



Em 1951, Víctor Paz Estenssoro do MNR é eleito presidente com apoio do Partido Comunista da Bolívia. Os militares impedem sua posse, mas ele estabelece o poder civil em 1952, apoiado em uma rebelião popular que ficou conhecida como a revolução de 1952.
O governo MNR teve um início arrasador, decretando medidas que atendiam às demandas de suas frentes de apoio. Entre elas, o governo decretou a nacionalização de todas as reservas minerais do país, o que significava o fim da "rosca", e a formação da empresa estatal Comibol (Comissão Mineira Boliviana). A exportação e o comércio de estanho se tornou um monopólio estatal através do Banco Mineiro da Bolívia.
No campo político, o MNR estabeleceu o sufrágio universal e diminuiu o poder das forças armadas até que elas fossem quase que totalmente substituídas por milícias armadas formadas por mineiros, além de ter praticamente expurgado seus membros moderados.
Finalmente, o último passo do governo revolucionário, foi uma ampla reforma agrária. Em 1953 foi formada uma Comissão para Reforma Agrária e decretada a Lei da Reforma Agrária, dando início às expropriações e à distribuição das terras.
Nesta época os camponeses, bem como os mineiros, ganharam grande representatividade no governo. Estes últimos depois de se organizarem no COB (Central Obrera Boliviana) recebeu do governo três ministérios para seus representantes.



Logo notou-se que as nacionalizações tiveram um impacto negativo na economia. Os preços do estanho despencavam no mercado internacional e a produtividade das minas caia por falta de expertise e de capital para modernizar as usinas. Apesar de tudo isso, os trabalhadores no controle da Comibol, aumentaram seus salários em 50%.
Houve também um declínio na produção agrícola que rapidamente ajudou a deteriorar a economia. O campo se encontrava em anarquia com milícias de camponeses, armadas pelo próprio governo, tomando terras desordenadamente. Como resultado houve escassez e o país foi obrigado a importar alimentos.
Uma alta inflação, causada principalmente pelos altos gastos sociais, também atingia o país. O valor do peso, caiu de 60 para 12.000 para cada dólar americano entre 1952 e 1956.

Por conta desta crise, o MNR se encontrava dividido entre uma ala mais radical de esquerda, que queria ainda mais intervenção do governo na economia, apoiada  principalmente por mineiros e camponeses indígenas e outra mais moderada, apoiada pela classe média que penava com a inflação.
Sob esta pressão foi adotado o Código do Petróleo, de 1955, que abria a possibilidade de investimentos privados junto à YPFB, e outorgava a prioridade na exploração petrolífera à Bolivia Gulf Company (subsidiária local da americana Gulf Oil Company).

No entanto, as principais reformas nunca foram revertidas e o governo revolucionário durou até 1964. O MNR alternou-se no poder com as presidências de Victor Paz Estenssoro (1952-1956), Hernán Siles Suazo (1956-1960) e, novamente, Victor Paz Estenssoro (1960-1964).

Neste último governo, foi adoptado o Plano Triangular em 1961, com o objectivo de atrair capital dos Estados Unidos e da Alemanha Ocidental para modernização da mineração nacionalizada.

No entanto este esforço de estabilizar a economia que envolvia uma maior abertura ao capital estrangeiro, aproximação com os Estados Unidos, a decisão de cortar alguns subsídios aos mineiros e uma tentativa de reconstruir as forças armadas, levou à uma ruptura ainda maior dentro do MNR. Com a decisão de Victor Paz de concorrer à reeleição com apoio militar, houve o rompimento entre Paz e Siles Suazo, ao lado do agravamento definitivo das tensões internas. Em novembro de 1964, três meses após a posse, o general Barrientos (vice de Paz) decretava um golpe de Estado, e com ele, o fim do governo revolucionário de 1952.

Depois de 52 - Mais intervencionismo, mais populismo e mais caos social

O general Barrientos (1964 - 1969) legitimou-se no poder por meio do Pacto Militar-Campesino, pelo qual ganhava o apoio das milícias no campo, diminuindo as pressões às quais era submetido. Ao mesmo tempo a COB (Central Obrera Boliviana), ainda que duramente reprimida pelos militares, continuava desempenhando papel importante.
Barrientos manteve as políticas de modernização das minas de estanho, permitindo a entrada de capital dos Estados Unidos e Alemanha Ocidental. Apesar disso, o discurso oficial era de que o governo de Barrientos não era contra-revolucionário e sua intenção era retornar às raízes da revolução de 52.
Com isso a economia cresceu e em 1966, com o aumento dos preços do estanho, a Comibol (Corporación Minera de Bolivia) teve lucro pela primeira vez em sua história. Barrientos ainda tentou incentivar o setor privado, o investimento estrangeiro e permitiu que a Gulf Oil Company exportasse petróleo e gás natural a partir da Bolívia.
Ele também cortou os salários dos mineiros e reduziu a enorme burocracia que regulava a Comibol.

Contudo, a oposição contra Barrientos crescia, principalmente entre os mineiros. Ele era acusado de favorecer o capital estrangeiro em suas negociações com os Estados Unidos e chegou ainda a ser acusado de ser um agente da CIA. As suspeitas sobre ele aumentaram ainda mais depois que o exército boliviano ajudou agentes americanos na captura de Che Guevara em 1967, que tentava formar uma guerrilha no país.

Barrientos morreu num acidente de helicóptero em 1969, deixando o poder para o seu vice que não chegaria a exercer o cargo pois um novo golpe levaria ao poder o General Ovando.

O governo do General Alfredo Ovando Candia (1969 - 1970) marcou um retrocesso aos governos populistas de outrora. Ele dissolveu o Congresso, e nomeou um gabinete que incluiu civis reformistas independentes que se opunham às políticas de Barrientos, esperando ganhar apoio popular e militar com um programa de "Nacionalismo Revolucionário". Os militares nesta época, acreditavam que era necessário desenvolver o país, que a instabilidade e o atraso econômico eram os responsáveis pela instabilidade e agitação política. Por isso, viam a necessidade de acabar com as "injustiças sociais" e a "dependência econômica".
Ovando decretou o fim do Código do Petróleo, a nacionalização da Gulf Company e estabeleceu relações com a URSS e o bloco socialista, ao mesmo tempo que sufocava focos guerrilheiros no país. Apesar disso, a economia que já ia mal, ficou ainda pior com um boicote internacional ao petróleo boliviano e Ovando não conseguiu apoio popular.



Novas divisões entre os militares os levaram a apoiar o nome do mais radical, General Juan José Torres González (1970–71), que chega ao poder depois que Ovando foi forçado a renunciar.

Torres esperava manter apoio civil se inclinando ainda mais para a esquerda. Ele nacionalizou algumas propriedades dos Estados Unidos, tais como a operação de tratamento de resíduos das minas de estanho de Catavi e a mina de zinco Matilde, também ordenou que o Corpo da Paz, um programa dos Estados Unidos, se retirasse da Bolívia. Além de limitar a influência dos Estados Unidos na Bolívia, Torres aumentou a cooperação com a União Soviética e seus aliados nos setores econômicos e técnicos.

No entanto, o governo de Torres também foi marcado pela falta de autoridade e pelo caos. Em junho de 1970, foi estabelecida a Assembleia Popular (Asamblea Popular), na tentativa de formar uma alternativa de governo popular. Composta principalmente por representantes dos trabalhadores e de organizações de camponeses, a Assembleia Popular se destinava a servir como uma base para uma transformação radical da sociedade. No entanto, a esquerda permaneceu dividida por diferenças ideológicas e rivalidades políticas.  Eles não conseguiram chegar a um consenso quanto a questões controversas como a plena participação dos trabalhadores nas empresas estatais e privadas, a criação de milícias armadas, bem como o estabelecimento de tribunais populares com jurisdição legal sobre crimes contra a classe operária. A Assembleia Popular, no entanto, teve sucesso em enfraquecer o governo, criando um clima em que as organizações populares agiram de forma independente do Estado.

Descontentes com o governo caótico de Torres, principalmente por causa da interferência de civis em assuntos militares e por deixar que  casos de desobediência militar passassem impunes, ocorre um novo golpe em 21 de Agosto de 1971 que leva ao poder o coronel Hugo Banzer Suárez.



A Segunda parte deste texto será publicada em breve. Aguardem!






7 comentários:

  1. Muito bom, assim sabemos o que faz o socialismo popular, destroi o país onde se instala e o atraso e a desordem vira rotina.

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    1. Da uma olhada na net, sobre economia boliviana, A Bolívia atualmente é o país que tem o maior crecimento economico da sua região. Inclusive na data de Hoje foi elogiada nos Estados Unidos (Nueva York, ESTADOS UNIDOS, 20 sep (ABI).- El secretario general de la Unión de Naciones Suramericanas (UNASUR) y ex presidente colombiano Ernesto Samper, afirmó el martes en la ciudad estadounidense de Nueva York, que Bolivia es como la joya y la corona en materia económica del continente).
      Melhor se informar antes de comentar.

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  2. Salvei o texto para terminar de ler depois do trabalho hoje!!!! Vou compartilhar com meus amigos!!!!

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  3. Sei que vocês não postam muito, mas gostaria de pedir um artigo referente à Ditadura Militar de 64. (Não tenho muito conhecimento sobre esse assunto e queria saber mais. Não defendo a ditadura, que acabou com as liberdades civis, aumentou o nacionalismo, etc)

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  4. Quanto vão postar a segunda parte ?

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  5. Quanto vão postar a segunda parte ?

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  6. Atualmente o governo da Bolivia é socialista há dez anos, e a Bolivia tem o maior crecimento da américa latina, há dez anos a Bolivia crece a 5%.
    A Bolivia era um pais dependente das esmolas dos EUA.
    Os governos socialistas que se levantavan na Bolivia eran aniquilados pelos EUA.
    Quando EUA dominava e mandava na Bolivia, levava Petroleo e minerais a preço de banana.

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