Patrões e assalariados no Novo Testamento


Parábola dos Talentos


Eu não gosto de abordar religião em meus posts. Acho extremamente apelativo explorar a fé para vender ideologias políticas. Mas diante da enorme confusão que a esquerda vem fazendo ao usar a religião para seus fins políticos, me vejo obrigado a dar uma resposta à altura. Este artigo, portanto, não tem a pretensão de ser conclusivo, nem deve ser usado para impor o "capitalismo" através de argumentos religiosos, mas sim para defendê-lo dos ataques covardes dos que fazem isso para defender as ideologias contrárias a ele.

Jesus, que na óptica da teologia da libertação, era um revolucionário socialista, um profeta da distribuição de riquezas ou uma espécie de hippie que não gostava de trabalhar (mas foi carpinteiro durante a maior parte da sua vida), em suas próprias parábolas, costumava com frequência, se colocar no papel de um patrão, de um empregador e de um proprietário de bens de capital.

Uma curiosidade interessante que pode ser um argumento contra a teologia da libertação ou contra a crescente mentalidade esquerdizante dentro da igreja, é algo curioso que notei nos evangelhos: Vários dos personagens das parábolas de Jesus que, de acordo com a simbologia que elas propõem, parecem representar o próprio Deus Pai, Jesus Cristo, ou por vezes o Reino dos Céus, são homens ricos, patrões, empregadores e proprietários de capital.
Me recordo de pelo menos três exemplos disso: A parábola dos trabalhadores da vinha, a parábola dos talentos e a parábola do filho pródigo.


Parábola dos Trabalhadores da Vinha

A Parábola dos trabalhadores da vinha, que se encontra em Mateus 20, começa assim no versículo 1:
"Mateus 20:1 - Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha."

Vejam que interessante, na parábola, O Reino dos Céus é alguém que explora trabalhadores assalariados. E vejam só, patrão também madruga. Alguns podem argumentar que isto é apenas um recurso necessário para se construir uma alegoria, utilizando-se de cenas comuns do cotidiano da época, a fim de tratar de assuntos espirituais e não morais, nem sociais. Mas não é estranho pensar que Jesus escolheria uma prática imoral ou degradante – se realmente fossem – para representar o Reino dos Céus?

No fim da parábola, um dos trabalhadores questiona a remuneração supostamente "injusta" que o "patrão" dá aos trabalhadores, já que este pagou o mesmo salário para todos, independente das horas trabalhadas. 

12. Dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia.

E a resposta que se ouve é talvez a passagem mais libertária de toda a Bíblia:

Mateus 20:15. "Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? (…)"

Atenção! Vou colocar isso aqui de novo. Imagine a própria personificação do Reino dos céus dizendo isso pra você:

Mateus 20:15. "Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? (…)"

Traduzindo: Hey! O dinheiro é meu e eu faço o que eu quiser com ele!
O patrão ressalta que ele remunerou os trabalhadores de acordo com o que havia sido acordado desde o início. 

13. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo, não ajustaste tu comigo um dinheiro?

O trabalhador aceitou os termos. "Assinou o contrato". Então, não tinha o direito de reclamar.

Se tentássemos tirar uma conclusão sócio-econômica desta parábola e apenas dela isoladamente, a única possível seria esta: As pessoas são livres para firmarem contratos de trabalho como quiserem. A única obrigação do empregador é cumprir o combinado. É lícito fazer o que quiser com o seu dinheiro.
Sim, eu sei que não dá pra tirar uma conclusão destas de apenas uma parábola e ainda mais fora de contexto. Sei também que a "Doutrina Social" dos evangelhos é muito mais complexa do que isso. Mas acho que temos aqui um ponto de partida bastante provocador para começarmos a refletir a respeito.

Parábola dos Talentos

Em Mateus 25, a partir do versículo 14, está a parábola dos talentos. Onde a lógica literalmente, "capitalista" - Investir o dinheiro hoje para ter mais dinheiro no futuro - é a base da narrativa.
Na história, pra quem não conhece, um aparentemente endinheirado homem, dá a três de seus empregados, uma importante responsabilidade: Cuidar de parte do seu dinheiro. Dois deles investem os talentos (uma moeda usada na época) e conseguem com isso mais talentos, sendo no final, elogiados pelo seu senhor. O terceiro, no entanto, enterra a moeda que recebeu e é duramente criticado por isso.

Veja o versículo no qual o primeiro homem entrega ao seu senhor, os rendimentos do que foi investido:

Mateus 25:20 - Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei (LUCREI em algumas traduções) com eles.
21. E o seu senhor lhe disse: Bem está servo bom e fiel. (…)

Pera aí! Deus está chamando de servo bom e fiel, alguém que...lucrou?

E agora veja a crítica que o senhor faz ao empregado que enterrou a moeda: 

27. Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros.

O que? Juros? Banqueiros? Mas isso tudo não é pecado?
Lembrando que o senhor nesta parábola simboliza o próprio Jesus e sua volta para cobrar aquilo que deixou nas mãos dos empregados (Seus executivos? Ou seus corretores talvez?) simboliza sua segunda vinda.

Parábola do Filho Pródigo

A parábola do filho pródigo, que se encontra em Lucas 15, não tem nenhuma mensagem tão profundamente "capitalista" assim - exceto pelo fato de que a moral da história é a de que você deve usar seu dinheiro com sabedoria e que esbanjar tem suas conseqüências - é outra em que novamente, o próprio Deus é representado como um rico senhor, explorador de mão de obra.

No versículo 17, quando o filho pródigo finalmente cai em si, ele se questiona:

17. Caindo em si, ele disse: Quantos empregados de meu pai têm comida de sobra, e eu aqui, morrendo de fome!

Sabemos que o pai do filho pródigo na parábola, simboliza o próprio Deus pai, que sempre acolhe seus filhos arrependidos que se voltam para ele.
Mas vejam também que interessante: Quem não usar seu dinheiro com sabedoria, mesmo sendo um "playboy", herdeiro de uma boa fortuna, pode acabar numa situação muito pior do que a que seus próprios empregados teriam, se ele tivesse usado seu dinheiro sabiamente. O mercado não é estático, está sujeito a mobilidade social e é impiedoso para com os irresponsáveis.

Com tudo isso, acho que a mensagem econômica e social dos evangelhos é bastante clara. A doutrina cristã parece desaprovar tanto o consumo hedonista, a luxúria e o desperdício, quanto a simples acumulação sem nenhum propósito, ou seja, a avareza. No entanto é totalmente a favor do investimento, do capital no sentido estrito do termo, ou seja, de usar riquezas para gerar mais riquezas para si próprio e conseqüentemente para toda a sociedade, ou seja, de que se cumpra a famosa "função social" da propriedade.
Este conjunto de valores parece ter sido captado de forma muito mais profunda e contundente pela Doutrina Social da Igreja Católica e pela grande obra do sociólogo Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, perto das quais este artigo é apenas um palpite solto de um completo ignorante sobre o tema.

2 comentários:

  1. Excelente texto. O Mídia Sem Máscara também publicou um texto sobre o mesmo assunto.

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  2. Gostaria de acrescentar Mateus 22:21: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

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