"Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus.
E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus."
Mateus 19:23,24

Esse é o trecho que os adeptos do anti-capitalismo cristão usam para fundamentar a ideia de que Jesus condenava a riqueza. Acontece é que estes malignos manipuladores da palavra de Deus omitem sistematicamente os dois versículos seguintes:

"Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se?
E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível."
Mateus 19:25,26

Ou seja, é muito difícil para um rico, entrar no reino dos céus, mas não impossível. Se não é impossível, então a riqueza em si não pode ser o problema.

Mas vamos contextualizar melhor a passagem. O capítulo 19 de Mateus é bem grande, começa com Jesus falando que casamento é entre homem e mulher e que é indissolúvel - Mas essa parte os esquerdistas vão achar melhor pular, certo? - terminando na história do jovem rico.
Um jovem rico perguntou a Jesus o que ele deveria fazer para conseguir a vida eterna. Jesus responde que ele deve guardar os mandamentos, citando alguns em seguida. O jovem afirma que guarda todos eles desde sua infância e então pergunta: O que ainda me falta? Jesus então diz: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me." - Mateus 19:21
O jovem então se retira porque, aparentemente, era muito difícil se livrar de suas muitas propriedades. É então que Jesus profere a famosa sentença que citamos no começo deste texto. Os discípulos se mostram desconcertados com uma declaração aparentemente tão radical e questionam o Mestre, é quando ele explica que, por mais difícil que seja para um rico se salvar, não é impossível. A conclusão: A riqueza em sí não é o problema, mas a atitude de colocá-la acima de Deus. O jovem rico recusou um chamado de Jesus para não ter que se livrar de suas riquezas.

Bom, mas Jesus não mandou que ele vendesse tudo o que tinha e distribuísse aos pobres? Então não é isso que todos nós temos que fazer? Para responder essa pergunta, vou me ater só ao aspecto moral (se devemos ou não nos livrar voluntariamente de nossas riquezas) e ignorar aspecto político porque, se Jesus fosse mesmo um socialista, como alguns alegam, ele não teria pedido ao jovem que vendesse seus bens, teria feito uso da força para desapropriar os bens do rapaz, tomado para sí próprio uma parte, como pagamento pelo seu trabalho como justiceiro social e dado o restante para os seus apoiadores políticos, não necessariamente pobres.

Mas a resposta é não, não é isso necessariamente que Jesus espera de nós. Jesus pediu que ele, especificamente o moço rico, distribuísse seus bens entre os pobres e não que todos nós façamos isso. Disse que ele deveria fazer isso primeiro, se quisesse ser perfeito, já que o jovem demonstrou interesse em ir além e fazer algo mais, em segundo lugar, para obter um tesouro no céu e por fim, para que pudesse seguir Jesus, afinal, não fazia sentido simplesmente deixar para trás suas riquezas, sendo assim, já que ele não mais iria tomar conta delas, melhor que as vendesse e doasse aos pobres.

Jesus estava chamando o jovem rico para segui-lo de perto, num chamado semelhante ao que fez aos apóstolos, e isso pode ser confirmado nos versículos seguintes:

"Então Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos?
E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.
E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna."
Mateus 19:27-29

Gostaria de enfatizar um pouco mais este trecho: "E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos (…)". Quem conhece a história dos primeiros discípulos de Jesus, dentre eles Pedro, sabe que eles deixaram para traz não só seus bens, sua profissão de pescador, no caso de Pedro, mas também suas famílias. Mas será que é isso que Jesus espera de ABSOLUTAMENTE TODOS nós? Creio que não. Há uma vocação específica para cada um. Jesus não quer que você abandone suas propriedades para segui-lo, mais do que quer que abandone também sua família, cônjuge e filhos. Mas ninguém usa esta passagem para sugerir que Jesus está nos pedindo que abandonemos nossa família, não é mesmo?

Já escrevemos outro texto mostrando indícios de que Jesus não condenava a riqueza e que dava algumas indicações sobre o bom uso dela.