O fetiche da mercadoria e os marxistas de iPhone



Marxista pode ter iPhone? Acho que sim pois, até onde eu sei, o boicote aos produtos do capitalismo, partindo de iniciativas individuais não parece ser uma via revolucionária viável para Marx. O problema é que, de acordo com a teoria económica marxista, alguém disposto a pagar tão caro pra ter um iPhone é, digamos assim, um trouxa.

Deixe-me explicar: Marx acreditava na Teoria do Valor Trabalho, diferente dos liberais modernos que acreditam na Teoria do Valor Subjetivo. Os liberais modernos acreditam que o valor de uma mercadoria depende das preferências, dos valores e dos gostos subjetivos das pessoas, já Marx acreditava que o valor da mercadoria depende do trabalho necessário para produzi-la.

Como Marx explica então, a disposição de algumas pessoas em pagar tão caro em mercadorias com alto valor agregado? Como um marxista explica, por exemplo, o preço elevado de uma simples xícara de café no Starbucks, feito com ingredientes os quais qualquer um pode ter acesso? Ou o preço salgado de um...iPhone? 



Para contornar a evidência da Teoria do Valor Subjetivo, Marx cria o conceito de "Fetiche da Mercadoria". Segundo esse conceito, a mercadoria deixa de ter a sua utilidade atual e passa a atribuir um valor simbólico, quase que divino. O ser humano não compra o real, mas sim a transcendência que determinado artefato representa. Segundo Marx, o fetichismo é uma relação social entre pessoas mediatizada por coisas. O resultado é a aparência de uma relação direta entre as coisas e não entre as pessoas. As pessoas não controlam as coisas, são as coisas que controlam as pessoas. Tudo bem que isso é dizer que o rabo abana o cachorro, mas já discutimos esse assunto aqui neste blog e no momento, ele não vem ao caso.

O importante é que, para Marx, quando você aceita pagar por uma mercadoria, mais do que o valor do trabalho necessário para produzi-la, você está idolatrando um objeto e deixando que as coisas te manipulem. Você está comprando um símbolo e não um objeto na medida em que ele lhe é útil. Agora, como você calcula o valor do trabalho e como você mede a utilidade de uma mercadoria, sem levar em conta os critérios subjetivos das pessoas, pergunte para um marxista que defenda esta baboseira e não pra mim.

Resumindo, para Marx, o valor das mercadorias é objetivo e intrínseco, não subjetivo como pensam os liberais, assim sendo, pagar mais do que o valor intrínseco da mercadoria, é se render a esse fetiche.


Mas há outro problema também: Se por causa desse fetiche, uma mercadoria não é só a utilidade que ela deve suprir, mas também um símbolo social, ostentar tais mercadorias é também ostentar tais símbolos. Por isso o capitalismo é tão irresistível. Não adianta pregar o discurso marxista de que a Apple explora os pobres trabalhadores chineses através da Foxconn, não adianta nem mesmo tentar fazer uma revolução cultural gramsciana enquanto, ao mesmo tempo, você ostenta um iPhone, reforçando o símbolo presente no próprio objeto, que diz que ter um iPhone é maneiro. Resumindo, não adianta fazer propaganda do marxismo e do capitalismo ao mesmo tempo, porque uma coisa sempre anulará a outra e assim, sua revolução nunca sairá do lugar.

8 comentários:

  1. Ótimos texto esse site, vou pegar uns para colocar no meu e direcionar links.

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    1. Em 1961, o engenheiro da União Soviética desenvolveu um dispositivo ainda menor, que cabia na palma da mão, e tinha um alcance de mais de 30km. Segundo Leonid, no mesmo ano foi planejado a fabricação desse objeto em larga escala, segundo sua entrevista dada à agência de notícias APN. O inventou também comentou sobre o planejamento da construção de estações de telefonia celular.


      Celulares nas décadas de 50 e posteriores na URSS, compatíveis com uma capa ou terno
      O primeiro dispositivo de telefonia celular nacional acabou sendo o "Altay", distribuído comercialmente a partir de 1963, e em 1970 ele já estava presente em mais de 114 cidades da URSS. Muitos de seus dispositivos foram inicialmente empregados pelo universo médico, em hospitais, e depois por táxis no país. O sistema foi usado em países do Leste Europeu como a Bulgária, e exibido na exposição internacional Inforga-65.


      Logo, dá próxima vez que vir alguém sofismar dizendo que "comunista de verdade não usa celular", ou que "iPhone é coisa capitalista", faça questão de lembrar ao tagarela que o invento que ele usa, que contém algarismos(invenção da Índia escravista que não o torna escravocrata), foi criado pelo comunista Leonid Ivanovich Kupriyanovich, surgiu na União Soviética, e não nos Estados Unidos e sua patente é uma prova disso!




      Argumentos escatológicos são facilmente refutados com pesquisa e leitura, com o conhecimento dos clássicos do marxismo-leninismo, que revelam que seus magísteres sempre se mostraram favoráveis à tecnologia. Karl Marx escreveu na "Crítica ao programa de Gotha" que era necessário que os trabalhadores desfrutassem de conforto material no socialismo. Marx e Engels eram entusiastas do progresso industrial, condenando os métodos pelo qual foi alcançado, Lenin era um entusiasta da tecnologia, e em sua obra política fez questão de enfatizar que o comunismo dependeria do poder soviético mais a eletrificação de todo o país(a eletricidade era, então, talvez a mais avançada forma de tecnologia humana em sua época), a era de Stalin permitiu ao homem soviético dominar a mesma força que gera o sol, a energia nuclear, e Che Guevara, aluno deste último, costumava apresentar como uma das definições de socialismo a democratização da tecnologia. Logo, longe de ser proibido ao obreiro ter um iPad ou iPod, este pode ter a consciência tranquila de que é plenamente comunista portar um aparelho celular(especialmente se tiver uma capinha comunista para deixar anticomunistas irritados!), uma invenção de um gênio comunista soviético que facilita e dinamiza as telecomunicações.



      Fontes de consulta:


      - Muzey Oborony Mozga(Museu da defesa do cérebro). O celular soviético de Kupriyanov. Disponível em: http://brainexpo.livejournal.com/8873.html
      - O primeiro celular do mundo. Artigo do site Portal o Rossii. Disponível em: http://www.opoccuu.com/pervyj-mobilnik.htm
      - Em 9 de abril de 1957, na URSS, foi produzido o primeiro celular do mundo. Artigo do site Za russkoe delo. Disponível em: http://www.zrd.spb.ru/news/2013-01/news-0286.htm
      - WIKIPEDIA. Artigo biográfico de Leonid Ivanovich Kupriyanovich. Disponível em: http://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%9A%D1%83%D0%BF%D1%80%D0%B8%D1%8F%D0%BD%D0%BE%D0%B2%D0%B8%D1%87,_%D0%9B%D0%B5%D0%BE%D0%BD%D0%B8%D0%B4_%D0%98%D0%B2%D0%B0%D0%BD%D0%BE%D0%B2%D0%B8%D1%87

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    2. Caro Tamuz Dumuzi
      1. Ninguém está negando que o marxismo clássico seja entusiasta da tecnologia.
      2. Eu começo o texto dizendo que não há impedimento nenhum, dentro do marxismo, para que um marxista tenha um iPhone, até porque o marxismo não é uma doutrina ética voltada para regular o comportamento e as escolhas individuais.
      3. Não estamos discutindo avanços tecnológicos. A questão aqui é o alto valor agregado de um modelo específico: O iPhone. O preço de um iPhone não representa apenas a tecnologia presente nele, mas todo um valor subjetivo criado em torno da marca que seria descrito por Marx como "fetiche da mercadoria", algo que leva as pessoas a pagarem um preço muito mais alto do que o valor do trabalho para produzi-lo. (se é que existe como medir o valor do trabalho objetivamente, Marx diz que sim, mas os economistas posteriores disseram que não.)
      Enfim, não estamos discutindo quem contribui mais para o avanço tecnológico, por isso, levar a discussão para esse lado não invalida os argumentos apresentados no texto.

      Agora vamos ao que interessa mesmo:
      O celular foi inventado na União Soviética? É muito complicado dizer onde exatamente algo foi inventado pois cada passo que torna possível uma nova realização, foi dado em um lugar e em um tempo diferente. Não nego que os invenos de Kupriyanovich tenham contribuído para o surgimento e desenvolvimento das tecnologias que tornam o celular moderno possível, mas dizer que ele inventou o celular talvez seja exagero, e ainda que sejamos generosos com essa ideia, ele com certeza não inventou nada parecido com os celulares modernos. Os celulares de hoje são muito diferentes e usam tecnologias muito diferentes, até mesmo se comparados com os celulares de 10 anos atrás, quanto mais se comparados com os "celulares" soviéticos.
      O aparelho de Kuprianovich nada mais era do que um walkie-talkie de longa distância. Tanto que ele próprio o apresentava assim e seu primeiro modelo foi apresentado numa revista científica sobre radioamadorismo.

      Não foram os soviéticos os inventores do sistema operacional Android ou iOS, não foram inventores do touch screen, não inventaram as linguagens de programação usadas para criar os aplicativos, nem a internet, nem nada relacionado à infra-estrutura que torna a internet possível, nem os microprocessadores, placas e memórias que tornam um celular atual algo muito mais próximo de um computador portátil.
      Na verdade, mesmo se tratando de telefonia, o primeiro grande passo, ao transformar sons em impulsos elétricos, foi dado por Graham Bell nos EUA.

      E por último, inventar algo é muito diferente de torná-lo viável economicamente para um grande público.

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  2. Ótimos texto esse site, vou pegar uns para colocar no meu e direcionar links.

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  3. Tu faz o questionamento para o qual tu ja deu a resposta!
    Se somos seres sociais e nossa subjetividade advêm de nossas relações sociais. E sabe-se que na sociedade atual capitalista o lucro é oque importa.
    Quanto maior é o fetiche criado por um produto maior é o seu valor subjetivo.
    O Valor de uso de uma camiseta branca e uma camiseta branca com o simbolo da nike é o mesmo não? As duas servem para cobrir o corpo. Porem tem aquele simbolo né, o fetiche da mercadoria! Ou seja estamos em uma prisão mental que denomino como alienação do real. Causada pelo modo de vida consumista que vivemos.

    A gente chega a julgar uma pessoa pelas mercadorias que ela consome, pra mim isto é sureal.

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    1. Sim, julgar uma pessoa pelas mercadorias que ela consome não é boa coisa, mas isso está intrínseco na natureza humana. Ninguém é obrigado a consumir esse produtos de marca. Mas pelo menos temos a escolha, já no sistema socialista de economia planificada, a escassez miséria, falta de liberdade, de imprensa, artística, de pensamento é gigante o capitalismo não é perfeito mas funciona já o comunismo/socialismo. Venezuela,Cuba, Coreia do Norte são países atuais que enfrentam esse problema de ter suas economias planificadas.

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  4. Não vejo problema de um esquerdinha ter um iPhone, o problema é ele pagar 4x mais por um produto de marca. A esquerda não fala tanto em distribuição de riquezas? Para um esquerdinha ter um iPhone ele tem que concentrar bastante riqueza, não?
    O que mais existe são os esquerdinhas caviar que vivem no luxo, falam em distribuição de riqueza, mas a riqueza deles eles não distribuem...

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