Algumas críticas ao capitalismo são bem construídas, bem fundamentadas e merecem uma análise séria, outras porém são simplistas, baseadas no senso comum e papagaiadas exaustivamente, explorando os limites da nossa paciência. Esse post é a reação de alguém que definitivamente, perdeu a paciência. Por serem tão simplistas e rasas, acho que tais alegações não merecem mais do que respostas curtas e objetivas.



"Trabalhamos em empregos que odiamos 
para comprar porcarias de que não precisamos."
- Frase clichê do filme Clube da Luta que eu colocava no nickname
do MSN quando eu tinha 16 anos.


1. O capitalismo nos força a passar a maior parte do nosso dia trabalhando. 
R: Qualquer que seja o sistema econômico, você terá que trabalhar porque os bens necessários para a sua sobrevivência e a da sociedade, não caem do céu.

2. O capitalismo nos força a consumir coisas das quais não precisamos. 
R: Ninguém é obrigado a consumir nada. 

2.1. Mas a publicidade tenta nos convencer de que nós precisamos de... 
R: Tenta nos convencer, mas não nos obriga a nada. 

3. O capitalismo é bom para produzir bens de consumo, mas saúde e educação são mais importantes. 
R: Saúde e educação demandam bens de consumo. Educação demanda carteiras, material escolar, prédios, etc; saúde por sua vez, demanda remédios, inúmeros materiais e até tecnologia de ponta. Uma sociedade que não for capaz de produzir nem papel higiênico, não tem nem como manter a higiene, quanto menos produzir coisas como ressonância magnética, por exemplo.

4. O capitalismo está destruindo o planeta. 
R: Não há a menor evidência de que as alternativas ao capitalismo se sairiam melhor nesse quesito. Pelo contrário, há inúmeros casos de desastres ambientais provocados pelo comunismo [1] [2] [3] [4] e até por sociedades mais "primitivas", como foi o caso de algumas civilizações pré-colombianas [1] [2], que desapareceram porque suas técnicas agrícolas inadequadas alteraram o equilíbrio ambiental da região em que viviam.
Também na Europa, muito antes da Revolução Industrial, na verdade, desde a pré-história, o desmatamento, por exemplo, já era muito intenso.


Norilsk, uma das cidades mais poluídas do mundo,
construída originalmente como um campo de concentração
pelo regime soviético.

5. No capitalismo, as empresas só se importam com o lucro.
R: O lucro numa economia de mercado, é um sinal de que a empresa está atendendo a uma demanda da sociedade. Para ter lucro, as empresas precisam vender aquilo que as pessoas querem e é só pra isso que as empresas servem: Produzir coisas que as pessoas querem.

6. Por causa do capitalismo, a desigualdade no mundo está aumentando.
R: Supondo que esta afirmação esteja certa, por outro lado há dados muito mais consistentes que mostram que a pobreza absoluta vem caindo.  Desigualdade é diferente de pobreza, a pobreza é um mal muito mais real e tangível, por isso deve ser combatido com mais urgência e o capitalismo tem se saído relativamente bem na redução da pobreza.



Proporção da população que vive na extrema pobreza desde 1990.


7. Nosso ar está poluído, nossa comida está envenenada, agrotóxicos e transgênicos estão nos matando.
R: Mas misteriosamente, a expectativa de vida em todo mundo só tem aumentado.



8. As mercadorias que consumimos são produzidas por chineses que enfrentam longas jornadas de trabalho e recebem salários baixíssimos.
R: Os chineses que trabalham na manufatura de exportação ganham muito mais do que os trabalhadores que vivem da agricultura de subsistência no interior do país. A renda média dos chineses vem crescendo muito rápido e inclusive, segundo projeções, deveria ultrapassar a renda brasileira ainda em 2016. Antes da China, a Coréia do Sul se desenvolveu seguindo o mesmo caminho: Começaram vendendo mão de obra barata para a indústria de exportação e hoje estão entre os países mais desenvolvidos do mundo.

9. A tecnologia vai causar desemprego generalizado no futuro. 
R: Há 200 anos atrás, quando as primeiras máquinas estavam surgindo na indústria, os ludistas já diziam que isso iria acontecer e até agora, não aconteceu.

Ludistas em 1812, destruindo máquinas que, 
segundo eles, iriam causar desemprego em massa.


10. A miséria não acaba porque dá lucro. 
R: Para ter lucro, os capitalistas precisam vender. Para que eles vendam, as pessoas precisam ter dinheiro para comprar. Se as pessoas são miseráveis, elas não tem dinheiro pra consumir, logo, os capitalistas não têm lucro.


11. Para que os ricos fiquem mais ricos, os pobres precisam ficar mais pobres. 
R: A economia não é um jogo de soma zero, pois o montante de riquezas disponíveis pode simplesmente aumentar. Quando você ouve falar que o PIB de um país cresceu, por exemplo, é exatamente isso que está acontecendo. 
No Brasil, ao mesmo tempo em que a pobreza estava sendo reduzida pela metade, a quantidade de bilionários estava sendo multiplicada por 10.


R: Metade da população mundial (que é de 7 bilhões de pessoas) dá 3,5 bilhões. Se dividirmos essa riqueza (US$ 1,7 tri) por 3,5 bi de pessoas, cada pessoa ficará com míseros US$ 485,71, ou ainda, pouco mais que US$ 40 por mês durante apenas 1 ano.
E depois que esse dinheiro acabasse, de onde iríamos tirar mais dinheiro pra fazer distribuição de riqueza no ano seguinte? E no outro? E no outro?
Distribuir riqueza não é a solução, a solução é criar riqueza para os mais pobres.




Quem foi John Stuart Mill?

Quem foi John Stuart Mill? Provavelmente apenas outro desses liberais reacionários que procuravam justificar os preconceitos e o elitismo da burguesia. Argumentava em favor da liberdade de expressão apenas para poder destilar seu discurso de ódio impunemente, não é mesmo?

Com certeza não era esse o caso. John Stuart Mill foi um dos pensadores mais progressistas de seu tempo, defendeu uma síntese entre a democracia rousseauniana e o governo constitucional defendido pelos liberais clássicos, defendeu o sufrágio universal, o voto feminino, e junto com sua esposa, Harriet Taylor, foi um dos precursores do feminismo, além de ter sido um proeminente abolicionista.
Apesar de ter defendido o liberalismo econômico, a teoria econômica de Mill fez uma defesa prévia de intervenções pontuais do estado na economia, dando origem a um liberalismo moderado. Por conta disso, John Stuart Mill foi chamado de socialista por outros liberais de seu tempo, até que se irritou com tudo aquilo e acabou se considerando socialista mesmo no final da vida, embora jamais tenha revisado ou demonstrado qualquer arrependimento por sua teoria econômica liberal.

Os argumentos

Todos os trechos citados aqui foram tirados do Ensaio Sobre a Liberdade, que dedica quase metade de suas páginas para defender a Liberdade de Expressão. Primeiro devemos começar pontuando que Liberdade de Expressão para John Stuart Mill significa "Liberdade Absoluta de Opinião". No Capítulo I do seu Ensaio, Mill deixa claro:

"Tal esfera é a esfera adequada da liberdade humana. Ela abrange primeiro, o domínio íntimo da consciência, exigindo liberdade de consciência no mais compreensivo sentido, liberdade de pensar, e de sentir, liberdade absoluta de opinião e de sentimento sobre quaisquer assuntos, práticos, ou especulativos, científicos, morais ou teológicos."

E em outro trecho:

"Nenhuma sociedade é livre, qualquer que seja a sua forma.de governo, se nela não se respeitam, em geral, essas liberdades. E nenhuma sociedade é completamente livre se nela essas liberdades não forem absolutas e sem reservas."


É importante deixar claro que os argumentos a seguir, defendem a Liberdade de Expressão ABSOLUTA, e que servem para demolir definitivamente falácias como a de que "liberdade de expressão não é liberdade de opressão" e outras tentativas de abrir exceções ao direito de expressar opiniões livremente. Explicaremos o argumento de Mill em favor da liberdade absoluta mais adiante.

1. Mesmo uma opinião equivocada pode nos ajudar a entender a verdade.

Para Mill, tanto faz se você sufoca uma opinião defendida por muitos ou por um só indivíduo em contradição com todos os demais, ao censurar uma opinião, você não está fazendo apenas um mal contra aquele indivíduo, mas contra toda a humanidade, privando-a do conhecimento daquela opinião. E um dos argumentos de Mill contra a censura é este:

"Se a opinião é certa, aquele foi privado da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se errônea, perdeu o que constitui um bem de quase tanto valor — a percepção mais clara e a impressão mais viva da verdade, produzidas pela sua colisão com o erro."

Ou seja, não devemos censurar uma opinião, ainda que ela esteja errada, pois o contraste entre a verdade e a opinião errada nos dá uma compreensão melhor da verdade. Uma das formas mais didáticas de se explicar uma verdade é contrapondo-a a uma ideia contrária e falsa.

2. Falibilidade

O segundo argumento de Mill, em suas próprias palavras é o de que "(...) a opinião que se tenta suprimir por meio da autoridade talvez seja verdadeira. Os que desejam suprimí-la negam, sem dúvida, a sua verdade, mas eles não são infalíveis. Não têm autoridade para decidir a questão por toda a humanidade, nem para excluir os outros das instâncias do julgamento. Negar ouvido a uma opinião porque se esteja certo de que é falsa, é presumir que a própria certeza seja o mesmo que certeza absoluta. Impor silêncio a uma discussão é sempre arrogar-se infalibilidade."

Mais adiante, Mill aprofunda essa argumentação, explicando que a liberdade de expressão é uma precaução contra a nossa falibilidade.

"Pois que, embora cada um saiba bem, no seu íntimo, que é falível, poucos acham necessário tomar quaisquer precauções contra a própria falibilidade."

Mill ainda atribui a arrogância dos que se julgam infalíveis à pura e simples estreiteza de visão e ignorância quanto à diversidade existente no mundo e na história.

"(...) àquele para quem o mundo significa algo tão compreensivo como o seu país ou a sua época. E a sua fé na autoridade coletiva não se abala, em absoluto, por vir a saber que outras épocas, países, seitas, classes e partidos pensaram, e ainda hoje pensam, precisamente, o contrário. Ele lança sobre o seu mundo a responsabilidade pela justeza de suas opiniões ante os outros mundos divergentes. E jamais o perturba que um mero acidente tenha decidido qual desses numerosos mundos seja o objeto da sua confiança. Como não o perturba que as mesmas causas que o fizeram anglicano em Londres, o poderiam ter feito budista ou confucionista em Pequim. Contudo, isso é tão evidente por si mesmo quanto é certo que as épocas não são mais infaliveis que os indivíduos - cada época tendo adotado muitas opiniões que as épocas seguintes consideraram não só falsas como ainda absurdas; e que muitas opiniões, agora gerais, serão rejeitadas no futuro, como muitas, outrora gerais, o foram no presente."

3. Uma ideia verdadeira não teme o debate livre

Mas esse ponto de vista não parece um pouco relativista? Se temos convicção de algo, não devemos lutar por aquilo que acreditamos ser a verdade? Alguns podem até admitir que devemos ter cuidado ao formular nossas opiniões, mas uma vez alcançado um certo grau de certeza, não teríamos o dever moral de cuidar para que ela seja aceita por todos? Não seria até covardia, se abster de impor essa verdade? A isso John Stuart Mill responde que não:

"(...) não se trata da mesma presunção, mas de outra muito mais ampla. Existe a maior diferença entre presumir a verdade de uma opinião que não foi refutada apesar de existirem todas as oportunidades para contestá-la, e presumir a sua verdade com o propósito de não permitir refutação. A completa liberdade de contestar e refutar a nossa opinião, é o que verdadeiramente nos justifica de presumir a sua verdade para os propósitos práticos, e só nesses termos pode o homem, com as faculdades que tem, possuir uma segurança racional de estar certo."

Resumindo, presumir a verdade de uma opinião porque ela ainda não foi refutada, não justifica impedir sua refutação futura. Proibir as tentativas de refutar uma opinião vigente, não é uma demonstração de convicção e segurança, pelo contrário, é uma demonstração de medo de que ela seja refutada.

4. Só é Liberdade de Expressão se for absoluta

Mas por que a Liberdade de Expressão deve ser absoluta? Tudo bem admitir opiniões divergentes, mas não deveríamos fazer algo para impedir o discurso de ódio, por exemplo? A resposta de John Stuart Mill para os "limites" da liberdade de expressão é a seguinte:

"É estranho que os homens admitissem a validade dos argumentos a favor da livre discussão, mas objetassem que eles são "levados ao extremo", não vendo que, se as razões não são boas num caso extremo, não são boas em caso nenhum. Estranho, ainda, imaginassem que não se arrogam infalibilidade quando reconhecem que deve haver livre discussão sobre todos os assuntos que se prestem a dúvidas, mas não sobre algum princípio ou doutrina especial que seja suficientemente certa, isto é, a respeito da qual eles estejam certos de que é certa. Chamar de certa alguma proposição enquanto haja alguém que, se fosse permitido, negaria, mas a quem tal não se permite, é presumir que nós, e os que conosco concordam, somos juizes da certeza, e juizes que dispensam a audiência da outra parte."

Explicando o que ele disse em outras palavras, usando o exemplo da objeção ao discurso de ódio, o problema é: Quem define o que é discurso de ódio? Dizer que tipo de discurso deve ser tolerado e qual não deve, já é em si, uma opinião que merece ser debatida livremente. Portanto, as mesmas razões que justificam a Liberdade de Expressão, justificam a Liberdade de Expressão absoluta. Na verdade, não é Liberdade de Expressão se não for absoluta.

5. Quem define quais ideias são perigosas?

Outra falácia comum em favor da censura é aquela que se diz preocupada com a ordem e a coesão social e não com a verdade. Alega-se que certas opiniões devem ser censuradas, não necessariamente porque são falsas, mas porque são perigosas e podem levar ao caos. Quanto a isso, Mill responde:

“Aqueles, porém, que se satisfazem com isso, não percebem que a presunção de infalibilidade apenas se deslocou de um ponto para outro. A utilidade de urna opinião é ela própria matéria de opinião: tão disputável, tão aberta a debate, exigindo tanto debate, como a própria opinião. Falta um juiz infalível de opiniões para decidir se a opinião é nociva da mesma forma que para decidir se é falsa (...)”

6. Se uma opinião nunca é contestada, seus fundamentos se enfraquecem

Não é possível impedir, absolutamente, que uma nova opinião seja introduzida na sociedade. Sem liberdade de expressão, porém, as opiniões se cristalizam e são transmitidas na forma de meros preconceitos, repetidos e aceitos sem questionamento, até o ponto em que não se conhece mais os argumentos racionais por trás delas. É aí que, uma vez introduzida uma nova opinião, a opinião antiga, mesmo correta, será rapidamente substituída. Mill explica:

"(...) ainda que a opinião aceita não seja apenas verdadeira, mas a verdade toda, só não será assimilada como um preconceito, com pouca compreensão ou pouco sentimento das suas bases racionais, pela maior parte dos que a adotam, se aceitar ser, e efetivamente for, vigorosa e ardentemente contestada.
E não somente isso, mas, em quarto lugar, se tal não se der, o significado mesmo da doutrina estará em perigo de se perder, de se debilitar, de se privar do seu efeito vital sobre o caráter e a conduta: O dogma se tornará uma mera profissão formal, ineficaz para o bem, mas a estorvar o terreno e a impedir o surgimento de qualquer convicção efetiva e profunda, vinda da razão ou da experiência pessoal."

7. Dialética

Meias verdades (ou meias falsidades) são muito comuns, isso para não dizer que são a regra geral. Uma opinião equivocada pode conter partes da verdade, e uma opinião correta amplamente aceita, pode conter apenas partes da verdade completa. O confronto de ideias, a velha dialética socrática, quando tese e antítese dão origem a uma síntese, é a melhor forma de se chegar a uma compreensão mais completa da verdade. Nas palavras de Mill:

"Existe, porém, um caso mais comum: ao invés de uma das doutrinas em conflito ser verdadeira e a outra falsa, partilham as duas entre si a verdade, e a opinião não conformista é necessitada para completar a verdade de que a doutrina aceita incorpora apenas parte. As opiniões populares, sobre assuntos não evidentes aos sentidos, são muitas vezes verdadeiras, mas raras vezes, ou nunca, completamente verdadeiras. São uma parte da verdade — às vezes uma parte maior, às vezes menor, mas sempre exagerada, adulterada, e desligada das verdades pelas quais se deve acompanhar e limitar. As opiniões heréticas, de outro lado, são, geralmente, algumas dessas verdades suprimidas ou negligenciadas, que quebram as cadeias que as prendem (...)"

8. Outros argumentos

Em outro ponto, Mill cita como exemplos de vítimas de perseguição ideológica, duas figuras muito importantes para a cultura ocidental: Sócrates e Jesus Cristo, ambos vítimas fatais da falta de liberdade de expressão. Mill argumenta que as pessoas que mataram Cristo não são piores seres humanos do que aqueles que hoje pedem alguma forma de censura, estes teriam agido exatamente da mesma forma se tivessem vivido naquela ocasião.

Mill também alerta que, ainda que não exista censura legalmente institucionalizada, o estigma social que carrega os que possuem uma opinião impopular, pode ser quase tão ruim quanto. Excluir ou discriminar socialmente alguém por conta de suas opiniões inibe a participação das pessoas no debate público e isso empobrece, portanto, o debate, faz com que as pessoas tentem amenizar e moderar suas próprias posições e em muitos casos, que tentem até trair suas próprias consciências apenas para se sentirem melhor perante a sociedade. O que sobra então é o conformismo e aqueles capazes de especular de forma livre, audaz e criativa, acabam escolhendo o silêncio:






Acho que a PEC do teto dos gastos será aprovada tranquilamente, minha preocupação é com a reforma da previdência, acredito que ela será muito impopular, tão impopular que pode sobrar até pra nós. Explico:

A mudança para uma idade mínima de 65 anos para se aposentar é muito radical em comparação com a situação atual. Imagine um garoto que recebeu uma mesada de R$ 500 durante toda a vida e, ao chegar aos 17 anos, o pai diz que a mesada cairá pra R$ 50. Por mais que o pai tenha lá suas razões, é evidente que o filho ficará extremamente revoltado. Bom, acho que a revolta da imensa maioria do povo brasileiro, tão mal acostumado com décadas de populismo, será incomparavelmente maior, sem exagero. Acho que o governo Temer está colocando a mão dentro de um vespeiro de tamanho sem precedentes, a revolta será grande, a popularidade de Temer cairá a zero e vai sobrar pra nós.

Em primeiro lugar, a impopularidade do governo será canalizada contra todos os que apoiaram o impeachment - "Tiraram a Dilma para colocar o Temer e agora, vejam o que ele fez!". - Em segundo lugar, vão culpar a ideologia por trás da reforma, pra ser mais exato, acredito que vão culpar o liberalismo e a chamada "austeridade". Vai sobrar para o PSDB também, afinal são parte da base de apoio ao governo Temer, com consequências nas eleições de 2018 e por fim, ao fazerem resistência à reforma, também o PT terá a sua grande chance de recuperar parte da popularidade perdida, colocando-se mais uma vez como defensores dos "direitos dos trabalhadores". Eu diria até que, pela habilidade e experiência política que o PT tem, eles já devem estar trabalhando nisso desde agora.

A saída para os liberais, na minha opinião - o que infelizmente não vai contar muito porque sei que poucos vão me ouvir - é simplesmente olharmos para os nossos ideais e nos mantermos fiéis a eles, sem fazer concessões para soluções pela metade e isso significa que também devemos nos colocar contra a reforma, principalmente se ela for tão radical quanto está sendo proposto agora. Antes de tudo, porque a reforma já não é a solução ideal do ponto de vista liberal, a solução ideal para nós é a privatização da previdência e acreditem, essa seria uma solução menos impopular do que a reforma proposta pelo governo. Uma solução que por sinal, não deveria ser vista como tão utópica assim, visto que já foi praticada em outros países, como no Chile por exemplo. O discurso de que a previdência social não funciona tem, além de tudo, os fatos a seu favor, pois o Brasil não é o único país onde a previdência passa por problemas. A previdência estatal está em processo de falência completa em todo o mundo, principalmente nos países desenvolvidos onde a população está envelhecendo.

Por mais que a reforma do governo Temer seja uma opção melhor do que simplesmente deixar tudo como está, não valerá a pena, nesse caso, apoiar o mal menor, como normalmente é o melhor a ser feito, se esse mal menor, do ponto de vista econômico, é o mal maior do ponto de vista político.
Ao invés de um discurso de apoio à reforma, deveríamos adotar, na minha humilde opinião, a posição de que a reforma termina por provar que o estado é ineficiente também para gerenciar a previdência, já que se exige cada vez mais de nós, enquanto se entrega cada vez menos, em primeiro lugar porque essa é a mais pura verdade e em segundo lugar, porque essa posição poderia nos proteger da ira popular que certamente virá.

Mas o mais grave é que os tais "movimentos de rua liberais", a essa altura já totalmente subservientes ao governo Temer, com certeza vão apoiar a reforma e trabalhar incansavelmente (e em vão) para tentar mudar a opinião do povo, o que só servirá para fazer com que a opinião do povo se volte contra eles próprios e por tabela, contra nós todos também.
Mas para aqueles que, assim como eu, não têm rabo preso com políticos e partidos a dica que eu tenho pra dar essa: Não apoiem a reforma da previdência do governo Temer, apresentem como solução ideal, a privatização completa da previdência e usem a própria reforma como prova de que a previdência estatal não funciona. Precisamos pelo menos tentar mostrar que há independência e diversidade de pensamento entre os liberais e que nosso compromisso é em primeiro lugar, com ideais e valores, não com políticos e partidos que nem sequer representam nossas ideias.

Meritocracia é um assunto polêmico. Talvez seja um dos assuntos mais frequentes e mais polêmicos dentro do debate socioeconômico maior entre defensores do livre mercado e defensores da distribuição de renda. Este artigo pretende apenas jogar mais lenha nessa fogueira, apresentando alguns dados que, na minha opinião, podem mudar o rumo desse debate.
Os que se mantém céticos diante da ideia de meritocracia, criticam a ideia de que basta possuir algumas virtudes, como disposição ao trabalho e perspicácia empreendedora, para subir aos mais altos graus de opulência, não importando o quão baixo você estivesse na escala social. Para esses críticos, um garoto que nasce na favela, jamais terá as mesmas chances que um garoto que nasce em berço de ouro, as oportunidades simplesmente não são as mesmas para todos, por isso o garoto pobre jamais alcançará ao longo de sua vida, a mesma riqueza do garoto que já começou a corrida na frente.
Afinal, qual é a probabilidade de um garoto que nasceu na base da pirâmide social, ascender ao topo da piramide? Bom! Depois de uma rápida pesquisa na internet, encontrei a resposta. Pra ser mais preciso, pelo menos nos Estados Unidos essa probabilidade é de 9%. Encontrei o gráfico abaixo numa matéria da revista The Economist.




Parece uma chance pequena, mas lembrando que essas são as chances de passar do último quintil para o primeiro. Podemos presumir que passar do quinto para o segundo ou para o terceiro quintil, é bem mais fácil. (Vamos mostrar isso mais adiante)
Outros dados interessantes que constam nessa matéria: Em outros países, como na Dinamarca por exemplo, a probabilidade chega a ser o dobro maior. Isso se deve ao fato de que, na Dinamarca, existe mais igualdade social, alguns devem pensar, e isso pode estar certo em partes (em partes), pois é de se imaginar que um abismo maior entre ricos e pobres seja mais difícil de atravessar. Mas também não é bem assim.
O estudo do qual essa matéria trata, que por sinal, é o mais completo sobre mobilidade social nos Estados Unidos até então, concluiu que a mobilidade social no país praticamente não mudou nos últimos anos, isso justamente num período em que, segundo muitos especialistas, a desigualdade aumentou. Ou seja, a desigualdade parece não ter afetado a mobilidade social.

Se a probabilidade de chegar ao topo, saindo da base, fosse muito grande, isso invalidaria a tese da meritocracia ao invés de fortalecê-la, afinal se a tarefa não for difícil, não é preciso mérito cumpri-la. Se 100% dos pobres se tornassem ricos, isso significaria que você vai ficar rico de qualquer forma, provavelmente mesmo que não mereça.
Mas deixar de ser pobre nos Estados Unidos, ou seja, passar do último quintil para o quarto quintil, é algo tão provável, que daria até pra supôr que requer pouco esforço. É o que mostram os seguintes dados:

Um estudo do Federal Reserve Bank of Dallas. mostra que quase 86% das pessoas que eram pobres em 1979, já não eram mais pobres em 1988.





Mas o que você pode estar se perguntando agora é: Se tantas pessoas deixam de ser pobres todos os anos, como é possível que continue a existir pobreza? Acontece é que todos os anos, novas pessoas "entram na economia", principalmente jovens, que ainda não acumularam patrimônio e que recebem salários menores pela falta de experiência e também por conta dos imigrantes. Estes costumam ser os "novos pobres" que ocupam o lugar daqueles que vão deixando a pobreza. Espero também que você tenha em mente que "pobreza" nos Estados Unidos não significa o mesmo que no resto do mundo. Um pobre americano poderia facilmente ser comparado a alguém da classe C no Brasil, como demonstra este ótimo artigo do site Spotniks.

Tão interessante quanto a possibilidade de subir, é a possibilidade de cair. Repare que mais da metade dos que estavam no topo da piramide em 1976, não estavam mais em 1988. Posso imaginar muitos desses ricos "fracassados" ajudando a engrossar o coro que repete exaustivamente: "Meritocracia não existe."

As chances de perder o paraíso são reais não só para os 20% mais ricos da população dos Estados Unidos, mas até para aqueles cujo nome aparece no ranking de bilionários da Revista Forbes. Como destaca essa matéria da própria revista Forbes, desde que o ranking de pessoas mais ricas do mundo foi lançada pela primeira vez em 1987, poucos conseguiram se manter na lista ao longo dos anos.

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Comparando a lista de Bilionários 
da Forbes de 1987 com a de hoje, 
percebemos que é bastante difícil 
permanecer no topo.
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Outro dado interessante revelado pela revista Forbes, é discutido nesta matéria: Cerca de 2 terços dos 1810 participantes da mais recente lista de bilionários, são self-made man, ou seja, pessoas que construíram sozinhas suas próprias fortunas. Destaque para o primeiro da lista, Bill Gates, que fundou a Microsoft com seu então sócio, Paul Allen, praticamente do zero. Mesmo no Brasil, cujo ambiente para o empreendedorismo não é nem um pouco elogiado, 38% dos bilionários daqui fizeram suas próprias fortunas.

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Cerca de 2 terços dos bilionários
da lista da Forbes fizeram suas
próprias fortunas. No Brasil, 38%
dos bilionários construíram suas
fortunas do zero.
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Isso tudo é suficiente para dizer que meritocracia existe? Não sei, até porque este artigo é apenas o primeiro de uma série que pretendo escrever sobre o assunto e até porque também, nem tratamos de meritocracia aqui diretamente mas somente de mobilidade social. O que eu acho muito estranho contudo, é que discussões sobre meritocracia não levem em conta a mobilidade social como fator importante; em especial os críticos da meritocracia, pelo menos aqui no Brasil, falam como se esse fator sequer existisse, como se mobilidade social fosse impossível, tratando o sistema de classes quase que como um sistema de castas, enquanto que nos Estados Unidos, a preocupação por parte da esquerda política parece ser com a possibilidade de que, com o aumento da desigualdade, a mobilidade social seja reduzida. Nos Estados Unidos a esquerda não só reconhece a mobilidade social como preza por ela.

Se esses dados não esgotam o assunto, creio que pelo menos algumas conclusões podem ser tiradas deles: A primeira e mais importante é a de que o capitalismo, pelo menos quando tratamos de um país mais próximo do ideal de capitalismo, como é o caso dos Estados Unidos, é um sistema bastante dinâmico, que ser rico não é garantia de permanecer rico e que nascer pobre não significa estar condenado a ser pobre pelo resto da vida.

Quando defendemos a economia de mercado e o capitalismo dizendo que com isso, estamos defendendo a liberdade, muita gente pode não entender muito bem o que uma coisa tem a ver com a outra. A esquerda vem logo questionar: Que liberdade é essa? A liberdade para explorar o trabalhador, o meio ambiente e os consumidores? Existem mesmo as tais liberdades econômicas no capitalismo ou isso é pura propaganda ideológica?

O que o capitalismo tenta nos oferecer são basicamente, duas liberdades:
1. Liberdade de escolher o que você quer consumir
2. Liberdade de escolher como você vai trabalhar

1. LIBERDADE DE CONSUMO


"É dia de feira, quarta-feira, sexta feira não importa a feira (...)"

Vamos começar pela liberdade de consumir. 
Consumir é uma palavra muito mal vista atualmente por conta dos problemas ambientais que parecem resultar do consumismo, mas ainda que abandonemos o consumismo, jamais poderemos abandonar o consumo. O ser humano precisa consumir pra viver, mesmo que seja apenas comida, água e oxigênio, mas como diria a música dos Titãs: "A gente não quer só comida". É natural do ser humano desejar muitas outras coisas.
Diversão, arte, cultura e conhecimento parecem boas pedidas, mas nossa demanda por essas coisas demanda outras coisas. Por exemplo,  para pintar um quadro, precisamos de tinta, tela, pincel, etc. Esses materiais demandam recursos naturais. Um telescópio para observar as estrelas apenas para ficarmos estarrecidos com as profundezas do universo, demandam inúmeros instrumentos, materiais e tecnologias que por sua vez também demandam várias cadeias produtivas e inúmeros recursos naturais.
Resumindo, não tem como fugir do consumo, mesmo que estejamos em busca apenas das atividades que mais enobrecem a alma, como contemplar a arte e o universo.

Mas voltemos então à liberdade de consumir: Escolher o que você vai comer no almoço, se uma lasanha ou uma salada, parece importante pra você? Escolher as roupas que vou usar, que livros vou ler, ou se ao invés de comprar um livro, prefiro ir ao cinema, pelo menos pra mim, parecem liberdades fundamentais. Eu simplesmente não seria feliz tendo que viver uma vida que outra pessoa escolheu pra mim e acredito sinceramente que a maioria das pessoas, pra não dizer todas, também não seria.
Muita gente na esquerda também defende liberdade de consumo. Os que defendem a liberação da maconha por exemplo, simplesmente estão dizendo: Queremos liberdade para consumir maconha. Mas não quero entrar aqui no mérito da discussão da liberação das drogas, nem se a liberdade de consumo deve ser absoluta ou não, mas a questão que fica é: Onde está a coerência da esquerda que defende o livre consumo de maconha? Se devo ter liberdade de consumir maconha, por que não posso ter liberdade também de consumir um Big Mac? Sendo os malefícios da maconha, um assunto ainda envolto em certa controvérsia, a liberação do seu consumo exige, por uma questão de coerência, uma defesa muito mais radical da liberdade de consumo do que vários outros produtos exigiriam. O que quero dizer é que estes que defendem a liberação do consumo da maconha, deveriam ser os mais radicais defensores da liberdade de consumo, mas como coerência não é o forte em muita gente na esquerda, não é isso que acontece.


"(...) tô vendendo ervas que curam e acalmam"

Mas a liberdade de consumir no capitalismo tem uma limitação: Você pode consumir o que quiser, desde que tenha dinheiro para pagar. Onde está a liberdade então? - Alguns se perguntariam. - Liberdade no capitalismo é só para quem tem dinheiro?
Bom, vamos pular a parte sobre como o dinheiro é distribuído no capitalismo. Muita gente acha que é justamente aí que se encontra a injustiça desse sistema e não nego que essa seja uma discussão pertinente, mas não é o nosso foco aqui, posso discutir esse assunto em outro artigo futuramente, mas neste artigo, estamos falando de liberdade no capitalismo e não justiça social no capitalismo. Os dois aspectos estão intimamente ligados, mas infelizmente, teremos que nos focar em apenas um deles ou o texto ficará muito longo.
Vamos nos focar então nessa limitação à liberdade de consumo no capitalismo: O dinheiro. 

Bom, primeiramente, precisamos ter em mente que as limitações ao consumo são imperativos impostos pela própria natureza e não depende do sistema econômico vigente. Não vivemos num mundo de abundância infinita, não podemos ter tudo o que queremos, as riquezas são finitas, por isso, a escassez é a primeira lei da economia, tanto é que alguns economistas preferem chamar a economia de "a ciência da escassez".
Tenha isso sempre em mente: Independente do sistema econômico, não importa se estamos no capitalismo, no socialismo ou em qualquer outro sistema que alguma mente criativa e pretensiosa ainda vá inventar, AS RIQUEZAS SÃO FINITAS E NÃO PODEMOS TER TUDO O QUE QUEREMOS, de uma forma ou de outra, as riquezas são limitadas e portanto, nossa liberdade de consumir também.
É uma limitação imposta pela própria natureza que infelizmente resolveu não ser infinita. Da mesma forma que a natureza não nos deu a liberdade de escolhermos, por exemplo, quantos anos de vida teremos neste mundo, ela também nos negou uma liberdade de consumo absoluta. Faz parte daquilo que muitos filósofos chamaram de "condição humana".

Então, qualquer sistema econômico, e o capitalismo não foge à regra, precisa de um sistema para RACIONAR o consumo. Precisamos de um sistema que nos diga quem tem direito a consumir o quê. O sistema adotado pelo capitalismo é o sistema de preços, do qual voltaremos a falar, mas basicamente, a ideia é essa: Tudo tem um preço - Se você pode pagar por um bem, ótimo, você adquire direito de consumi-lo, caso contrário, você não tem esse direito. É assim que o consumo de bens é racionado no capitalismo. Se este sistema é justo, é uma discussão a parte, mas que ele é eficiente, é o que vamos provar mais adiante.

Concluo então dizendo que, embora o capitalismo nos garanta liberdade de consumo, ele não faz milagre e não faz com que as riquezas caiam do céu feito maná abundantemente, por isso ele, como qualquer outro sistema econômico, precisa de um mecanismo para racionar o consumo. Podemos então agora, discutir a segunda liberdade que o capitalismo procura oferecer: A liberdade de trabalho.

2. LIBERDADE DE TRABALHO




"Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado" - Genesis 3: 19

Passamos uma grande parte da nossa vida trabalhando, então a liberdade de escolher como passar todo esse tempo é sem dúvida, muitíssimo importante. Muitas pessoas só encontram realização pessoal no trabalho, para os que gostam do que fazem e têm prazer nisso, o trabalho passa a ser quase que um fim em si mesmo e não apenas um meio para se conseguir dinheiro, por isso, a liberdade de escolher com o quê e como trabalhar é tão importante para a felicidade e para a realização plena do ser humano.

A primeira objeção que surge e que tem sido muito comum ultimamente é a de que, no capitalismo, somos obrigados a trabalhar. Somos obrigados a ficar longas horas presos num escritório, executando uma tarefa enfadonha, isso quando não temos que executar trabalhos braçais e extenuantes. Por que temos que trabalhar afinal de contas? Onde é que está a liberdade?
Bom, essa é outra imposição que não vem do capitalismo e sim da condição humana, mais uma vez: Vamos nos lembrar que as riquezas não caem do céu, que não são infinitas e que não se criam magicamente, por isso, PRECISAMOS TRABALHAR PARA PRODUZIR RIQUEZAS. No pain, no gain.
Você pode até não ser cristão, mas deve admitir que a Bíblia é rica em alegorias, uma que descreve perfeitamente essa verdade sobre a condição humana é aquela que se encontra no livro do Genesis: Perdemos o paraíso, por isso, temos que ganhar o pão de cada dia com o suor do nosso rosto. Novamente: Isso indedepende do sistema econômico. No socialismo, você também teria que trabalhar, se tivesse o azar de ser mandado para um Gulag, talvez teria que trabalhar até mais do que suas forças suportariam.
Em última instância porém, você não é absolutamente obrigado a trabalhar. Você pode escolher não trabalhar se quiser, ou trabalhar pouco, desde que assuma as consequências dessa escolha.

Alguns vão argumentar que essa liberdade também encontra outra limitação no capitalismo: Suponhamos que meu sonho seja me tornar um médico, mas que eu não tenha dinheiro para pagar uma faculdade, ou que ninguém queira se consultar ou se tratar comigo porque não tenho formação, ou porque julgam que não tenho competência ou suponha ainda que nenhum hospital ou clínica queira me contratar. Nessas condições, eu simplesmente não posso realizar minha vontade de ser médico.
É verdade, mas nossa liberdade termina onde começa a do outro. Ainda que o diploma de medicina não fosse obrigatório para se exercer a medicina, as pessoas podem simplesmente escolher não procurar os meus serviços e elas o farão exercendo a liberdade de escolha delas. Não podemos obrigar as pessoas a consumirem o nosso trabalho, pois dessa forma, estaríamos violando a outra liberdade da qual falamos anteriormente: A liberdade dessas pessoas de escolherem que serviços ou produtos querem consumir.
Mas o bom do capitalismo é o seguinte: Você sempre tem liberdade para tentar. Ainda que não exista demanda para o seu produto ou serviço, você ainda é livre para tentar. Suponhamos que seu sonho seja se tornar jornalista, mas que o mercado esteja extremamente saturado de jornalistas e que muitos recém-formados não encontram emprego na área. Ainda assim, você é livre para tentar, para se esforçar e tentar se destacar dos demais. Pode ser que você consiga conquistar um espaço, que você consiga tomar a vaga de alguém que já estava no mercado antes de você mas, caso venha a falhar, você deve sempre arcar com as consequências de suas escolhas.

Outra objeção que sempre foi muito comum é: Por que, no capitalismo, um músico como por exemplo, Wesley Safadão, ganha tanto dinheiro, enquanto um baterista de jazz, que estudou durante anos e que adquiriu um virtuosismo técnico impecável, mal consegue viver da sua arte? Isso não parece injusto?
Bom, é aí que entra a liberdade. Esse questionamento esconde um viés autoritário por trás dele. Isso mesmo: Há muita tirania e autoritarismo por trás desse argumento e é isso que vou demonstrar.
Por que Wesley Safadão ganha tanto dinheiro? Simples: Porque as pessoas escolheram livremente consumir a musica de Wesley Safadão. Por que o baterista de Jazz não consegue viver da sua música? Porque as pessoas não ligam para a música dele. Simples assim. Se você faz o que as pessoas querem, você ganha dinheiro, se você não atende à vontade das pessoas, você não ganha.
Não estou dizendo que um tipo de música é melhor do que outro. Não estou fazendo nenhum juízo de valor, isso cabe a cada indivíduo. Infelizmente, o capitalismo não tem a solução para o mal gosto, o capitalismo apenas respeita o gosto, as preferências e a LIBERDADE de escolha das pessoas, concorde você com eles ou não.


Se 99% ouve Wesley Safadão, mas aquele 1% prefere outro tipo de música, que a liberdade de todos seja respeitada.

Não haveria como fazer com que o baterista de jazz ganhe dinheiro (nesse caso hipotético do qual estamos falando, pois eventualmente, alguns bateristas de jazz ganham algum dinheiro também), sem forçar as pessoas a consumirem algo que elas não querem, ou a pagar por algo que elas não estão consumindo. Ou seja, não haveria como resolver essa situação sem apelar para a tirania e o autoritarismo.

Acreditem, eu já fui de esquerda, e a fonte da minha revolta contra o capitalismo era justamente essa, eu queria que as pessoas gostassem das mesmas músicas que eu gostava, a saber: Power Metal Sinfônico. Pra mim, aquilo sim era música de verdade. Mas as pessoas insistiam em ouvir Zezé Di Camargo e Luciano, aquilo que, na minha opinião, era puro lixo feito para ganhar dinheiro.
Por mais juvenil que pareça, essa ainda é a fonte da revolta contra o capitalismo de muito adolescente inconformado de esquerda. E mais incrível ainda: Essa é a fonte da revolta contra o capitalismo por parte de muitos intelectuais, basta ver por exemplo, a crítica de Theodor Adorno contra a "Indústria Cultural". Acontece é que Adorno, como todo bom marxista, é também um bom autoritário.


Vemos então que nossa liberdade de ofertar produtos e serviços, está limitada pela liberdade dos outros de consumirem ou não estes produtos e serviços. Mas acho que já estou adiantando demais o próximo tópico...


3. COMO ESSAS LIBERDADES SE HARMONIZAM: O SISTEMA DE OFERTA E DEMANDA


Modelo matemático da Lei de Oferta e Demanda. Olhando assim parece complicado, mas eu entendi isso quando ainda era criança e a humanidade já conhece essa lei desde a Idade Média.

Como vimos, nossa liberdade é limitada pela liberdade dos outros e por isso, precisamos de um sistema que ordene a vontade de todos. No capitalismo, ou seja, numa economia de mercado, esse sistema tem um nome: É o sistema de oferta e demanda que se expressa através dos preços.
E como funciona esse sistema?
A lei de oferta e demanda diz que nos períodos em que a oferta de um determinado produto excede muito à procura, seu preço tende a cair. Já em períodos nos quais a demanda passa a superar a oferta, a tendência é o aumento do preço.

Quanto mais alto for o preço de um produto, menos pessoas estarão dispostas ou poderão comprá-lo. Quando o preço de um bem sobe, o poder de compra geral diminui e os consumidores mudam para bens mais baratos.

Quanto maior for o preço pelo qual uma mercadoria pode ser vendida, mais produtores estarão dispostos a fornecê-la. O preço alto incentiva a produção. Em oposição, para um preço abaixo do equilíbrio, há uma falta de bens ofertados em comparação com a quantidade demandada pelo mercado. Isso faz com que o preço suba.

Esse sistema tem um efeito duplo: Estimula os produtores a produzirem aquilo que os consumidores desejam e ajuda a racionar o consumo dos bens de acordo com o seu grau de escassez.

                                                              

"Talvez por conviver com isso desde criança, o sistema de oferta e demanda e a forma como os preços se formam, pra mim, sempre foi a coisa mais óbvia do mundo. Quando se fala em livre mercado, muita gente lembra do mercado de ações e daqueles caras engravatados berrando feito loucos numa Bolsa de Valores, já eu, quando ouço falar em livre mercado, me lembro da barraca de feira do meu pai e dos feirantes berrando feito loucos: 'Chega pra cá freguesia'. "
                                                              


Simples de entender não? Certifique-se de que tenha entendido essa parte pois é aqui que acontece toda a mágica do livre mercado. Bom, eu nunca tive dificuldades em entender, porque convivi com isso desde a mais tenra idade. Meu pai era feirante. Me lembro que os preços das mercadorias eram escritos com giz em plaquinhas de madeira para que pudessem ser alterados com facilidade.

Me lembro de que certa vez, quando tinha uns 5 ou 6 anos, meu pai me pediu que eu colocasse uma plaquinha de preço na laranja: R$ 1,00 a dúzia. (Sim, num passado distante, era possível comprar 12 laranjas com R$ 1,00) Eu perguntei: Por que só R$ 1,00? Por que você não coloca R$ 100,00 e ganha muito mais dinheiro? Foi então que ele me explicou: Por que as pessoas não vão querer pagar esse preço por apenas 12 laranjas. Elas vão ver que outras barracas estão vendendo mais barato, então vão escolher comprar em outra barraca ou simplesmente não terão todo esse dinheiro (na época isso era quase um salário mínimo).
Me lembro também que várias vezes, meu pai me pedia que eu fosse dar uma volta pela feira e dar uma olhada nos preços das mercadorias de outras barracas concorrentes. Frequentemente ele era "forçado" a mudar o preço de suas mercadorias para se adequar ao "preço de mercado", por isso as plaquinhas de madeira e o giz: Os preços precisavam flutuar rapidamente dependendo das circunstâncias.
Várias vezes também meu pai tinha que vender as mercadorias a um preço menor do que ele havia pago, nesses casos, ele tinha prejuízo. Ele achou que as pessoas iriam comprar uma certa quantidade de maçãs, quando a procura era menor do que o esperado, ele tinha que arcar com as decisões erradas que ele tomava. E eu questionava: Mas você terá um prejuízo! - E ele me explicava: Se eu insistir num preço mais alto, as pessoas vão comprar ainda menos, as frutas vão estragar e eu terei um prejuízo ainda maior. Se não há procura o suficiente, o preço tem que diminuir, não há outro jeito.
Quando ele acertava, tinha lucro, quando errava, tinha prejuízo. Acho que era um bom estímulo para que ele fizesse o maior esforço possível para acertar.

Talvez por conviver com isso desde criança, o sistema de oferta e demanda e a forma como os preços se formam, pra mim, sempre foi a coisa mais óbvia do mundo. Quando se fala em livre mercado, muita gente lembra do mercado de ações e daqueles caras engravatados berrando feito loucos numa Bolsa de Valores, já eu, quando ouço falar em livre mercado, me lembro da barraca de feira do meu pai e dos feirantes berrando feito loucos: "Chega pra cá freguesia". 

Nunca tive dificuldades em entender que os preços carregam duas informações:
1. O que as pessoas querem consumir.
2. O grau de abundância ou escassez de um determinado bem.

O mercado não te obriga a nada, você pode fazer o que quiser, mas ele também não te deixa às cegas, ele informa o que as pessoas querem e mais: Ele te dá uma recompensa de acordo com o quanto você é capaz de satisfazer a vontade das outras pessoas. Aquilo que as pessoas mais querem e que mais está em falta, tem um preço mais alto, por isso, quanto mais você tenta atender àquelas demandas não satisfeitas, maiores as chances de ser melhor recompensado. Se recuse a atender às demandas da sociedade e você será pouco recompensado.

Muitas vezes porém, precisamos de gênios para nos dizer o óbvio. O economista austríaco Friedrich A. Hayek ganhou o prêmio Nobel de Economia em 1974 por dizer esta simples verdade: Os preços carregam informações. Um volume inimaginavelmente grande de informações dispersas, que mudam a todo momento e que governo nenhum é capaz de reunir.


Friedrich A. Hayek

Se os preços carregam informações sobre o que as pessoas querem consumir, quando o governo interfere na economia, ou quando ele tenta controlar o mercado e os preços, indiretamente, ele está DITANDO às pessoas o que elas devem consumir. Por isso, o planejamento central de uma economia pelo estado é sempre uma forma de tirania e de autoritarismo, pois indiretamente, ele nos nega estas duas liberdades econômicas das quais falamos.
No capitalismo, as pessoas não podem fazer sempre o que querem, pois há forças impessoais ordenando o sistema, temos liberdade até para ignorar estas forças ou desafiá-las, mas temos que arcar com as consequências depois, a diferença é que o capitalismo é uma ORDEM ESPONTÂNEA e IMPESSOAL, que tenta harmonizar a vontade de todo mundo ao mesmo tempo, enquanto que o planejamento central da economia pelo governo é uma ORDEM PLANEJADA e ARBITRÁRIA e que portanto, é sempre autoritária.

E pior: Ir contra as forças de mercado não apenas vai contra a nossa liberdade, mas é uma atitude sempre fadada ao fracasso. Lembra que os preços também carregam informações sobre o grau de escassez ou abundância de um certo bem? Pois então, se o governo interfere na economia e nos preços, não há como saber quais bens são mais abundantes e quais são mais escassos. As pessoas não sabem o que produzir, em que focar os seus esforços produtivos, dessa forma, a economia se torna uma bagunça e os bens e recursos são mal alocados. 
É o que vemos acontecer num país socialista que fica aqui, bem pertinho de nós: A Venezuela. A Venezuela é um país socialista onde o governo controla a economia. E o que acontece lá? A economia é uma bagunça: Inflação disparada, falta de bens, falta de energia elétrica com apagões constantes, mercados com prateleiras vazias, falta papel higiênico e até comida, enquanto sobra outros recursos menos necessários. Como o país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o governo consegue garantir que a gasolina seja extremamente barata.
O mesmo acontecia na antiga União Soviética: Enquanto eles eram pioneiros em mandar foguetes para o espaço, aqui na Terra faltava os bens mais básicos, de lâminas de barbear a absorvente feminino. No socialismo, a economia serve às ordens do governo e não aos desejos das pessoas.
Por isso o socialismo é sempre uma forma de tirania e o capitalismo, é a própria expressão da liberdade no campo econômico.

Leitura Recomendada:


Milton Friedman - Capitalismo e Liberdade

Friedrich A. Hayek - O uso do conhecimento na sociedade