George Soros para além das Teorias da Conspiração



A primeira coisa que os liberais precisam saber sobre George Soros, e que talvez seja uma surpresa para muitos, é que ele foi inspirado pelas ideias liberais. Acho que ele se desvirtuou demais do liberalismo, mesmo daqueles que ele próprio considera seus mestres, para ser chamado de liberal, mas a origem de suas ideias remonta ao liberalismo.

Vou começar falando de suas virtudes, já que sua face negativa já foi exposta e até exagerada pelos conspiracionistas. George Soros é um aluno da London School of Economics, local por onde andou outros ilustres "liberais sociais" como Karl Popper, Ernest Gellner e José Guilherme Merquior. Seu principal mestre foi Karl Popper, tanto que o nome da sua fundação, a Open Society Foundation, é uma homenagem às ideias defendidas por Popper no livro A Sociedade Aberta e Seus Inimigos.


No livro, Karl Popper critica o marxismo, denuncia seu carater totalitário e explica que tanto o comunismo quanto o nazi-fascismo se tornaram totalitários, ou seja, sociedades "fechadas", porque se basearam totalmente numa verdade absoluta que não era contestada jamais. Todo o sistema portanto dependia daquela verdade absoluta. Uma sociedade aberta por outro lado, é aquela que não acredita em verdades absolutas e que portanto, está aberta à transformação e ao aperfeiçoamento de suas instituições.
Assim, como bom discípulo de Popper, e como alguém que experimentou tanto o totalitarismo comunista quanto o nazista enquanto viveu na Hungria, George Soros é um ferrenho anti-comunista. Como tal, ele contribuiu de forma crucial, com grandes somas em dinheiro, para movimentos anti-comunistas no Leste Europeu como o Solidariedade na Polônia e o Carta 77 na antiga Checoslováquia.



Soros também tem duas ideias principais que fazem sentido, na minha opinião, mas apenas até certo ponto. A primeira e mais marcante de sua forma de pensar é a "Reflexividade". Basicamente, é a ideia de que, em ciências sociais, não é possível separar o observador do objeto observado. Dessa forma, as ideias que temos sobre como a sociedade funciona, acabam influenciando sobre o modo como a sociedade de fato vai funcionar, já que estamos inseridos na sociedade. Trata-se portanto, de uma via de mão dupla, por isso o nome "Reflexividade". As ciências sociais não permitem que se isole um fenômeno para observá-lo de fora, como acontece nas ciências naturais.
Segundo Soros, a aplicação desse princípio à economia, e à formação de preços de ativos no mercado financeiro, foi o que o tornou bem sucedido nos negócios, até se tornar um dos homens mais ricos do mundo. 
Como isso se aplica ao mercado? Posso dar somente um exemplo simples, já que minha compreensão do princípio é um pouco limitada: Alguém que não conhece ou não acredita na Lei de Oferta e Demanda, não pode se basear na Lei de Oferta e Demanda para estabelecer os preços de seus produtos e serviços, certo? Logo, muita gente se baseia nos mais diversos critérios, alguns até irracionais, para definir os preços daquilo que querem vender. É uma ideia que faz até muito sentido e não me resta dúvidas da importância desse fator para entender o funcionamento do mercado, contudo, na minha humilde opinião, George Soros extrapolou demais a importância da reflexividade ao usá-la para relativizar as Leis de Mercado. A Lei de Oferta e Demanda acaba se impondo, mesmo quando ela é ignorada. Alguém que, ignorando as Leis de Mercado, define um preço muito alto em relação à demanda, para a sua mercadoria, verá suas vendas caírem e seus estoques encalharem. Da mesma forma, aquele que fixa um preço muito baixo, é prejudicado na medida em que deixa de lucrar tanto quanto poderia se tentasse se aproximar mais do preço de mercado. Com o tempo, a competição então acabaria selecionando aqueles que mais se aproximaram dos preços de mercado e eliminando aqueles que mais se afastaram.
Claro, talvez a ideia de reflexividade faça mais sentido quando aplicada especificamente ao mercado financeiro, e talvez o exemplo do comércio de mercadorias comuns que usei não fosse o que ele tinha em mente, mas é curioso que Soros, sendo um especulador, se considere bem sucedido por se basear num critério racional (a reflexividade), ao mesmo tempo que trata os demais especuladores como meros apostadores irracionais. Resumindo, ele se considera o único especulador esperto do mundo, todos os demais são apostadores inconsequentes que colocam em jogo suas fortunas, deixando-se levar por emoções do momento. O inferno são os outros.

A segunda ideia de Soros da qual quero falar com mais ênfase, e que na minha opinião é uma meia verdade, é a de que o livre mercado pode se tornar uma ameaça à sociedade aberta. Mesmo na visão de Soros, nem de longe se trata de uma ameaça tão perigosa quanto o marxismo e o nazi-fascismo obviamente, até porque o livre mercado é uma tentativa de criar uma sociedade mais livre além de ser totalmente compatível com outras liberdades.
O perigo está, e nesse ponto eu concordo com Soros em partes, na possibilidade de que a Lei de Mercado se torne a verdade absoluta das sociedades capitalistas e democráticas do ocidente, o que as transformariam em sociedades fechadas. Tanto o marxismo quanto o nazi-fascismo se baseavam em ideias pseudo-científicas. Da mesma forma, as leis econômicas só podem ser consideradas "científicas" com muita generosidade. Não se pode dar aos axiomas das ciências econômicas e sociais, o mesmo grau de confiança que têm as verdades descobertas pelas ciências exatas sendo que nem mesmo estas são verdades absolutas. Nesse sentido, as "Leis de Mercado" correm o risco de se tornarem a pseudo-ciência que, uma vez transformada em dogma, transformaria as sociedades capitalistas em sociedades fechadas.
Concordo que uma sociedade aberta não pode aceitar verdades absolutas e que nem mesmo as leis de mercado podem ser tratadas como tais. Essa era a ideia inicial de Karl Popper, e minha concordância com Soros termina aí. O medo de que estas leis se cristalizem em dogmas é porém, na minha opinião, completamente infundado. 
Primeiro porque as ciências econômicas estão, o tempo todo, questionando as leis de mercado, pondo-as à prova, procurando entender seus limites e aplicações práticas, buscando conhecer os demais fatores que afetam a realidade para além dos já conhecidos e enfim, aperfeiçoando o entendimento que temos sobre o funcionamento da economia. As leis de mercado não correm o menor risco de se tornarem dogmas.
Em segundo lugar, não é por medo de que uma verdade se transforme em dogma, que vamos rejeitá-la. Devemos rejeitar uma tese convincente somente quando sua antítese se torna ainda mais convincente, caso contrário, mantemos nossa aceitação do entendimento vigente. E eu, mesmo admitindo meu conhecimento estreito e muito limitado, continuo achando que o funcionamento da economia tal como descrito pelos grandes luminares modernos do liberalismo econômico como Hayek e Friedman, ainda é a explicação mais convincente.
E por fim, numa democracia, para o bem ou para o mal, é sempre possível mudar a direção de uma sociedade. Por isso é muito improvável que democracias se tornem sociedades fechadas. A qualquer momento, um líder cético quanto às leis de mercado, pode ser eleito. É um risco real nesse exato momento, nos Estados Unidos por exemplo, com a candidatura de Bernie Sanders. Uma democracia tem dessas coisas, portanto é praticamente impossível que o livre mercado se torne a base inquestionável das democracias ocidentais.

Bom, parece que um artigo que tinha a intenção de desconstruir a imagem demonizada de George Soros que os conspiracionistas criaram, acabou tratando suas ideias de forma predominantemente negativa. Mas enfatizando seu lado positivo, tentei mostrar que ele não é nenhum esquerdista radical como muitos imaginam, que deu sua contribuição crucial para a derrubada do comunismo no leste europeu, que suas ideias foram inspiradas nas ideias liberais e que fazem sentido até certo ponto, mas não são convincentes o suficiente para me fazer abandonar minhas convicções no livre mercado. Sigo sendo aquilo que outro liberal social, o italiano Benedetto Croce, chamou de "liberista": Um tipo específico de liberal que acredita tanto nas liberdades civis, nas liberdades democráticas e no ideal de sociedade aberta quanto no livre mercado.

Para finalizar, talvez decepcionando alguns leitores, terei que me abster de falar do apoio de Soros aos movimentos "progressistas", como o movimento negro, LGBT e o feminismo, porque simplesmente não tenho a menor ideia do que ele espera com isso, de quais são suas intenções e quais ideias estão por trás disso tudo. Sabendo porém que ele é um anti-marxista, acho que podemos excluir a hipótese de que ele esteja tentando instigar a luta de classes ou que esteja trabalhando para o marxismo cultural, a menos que ele não esteja sendo sincero quanto aos seus ideais, mas essa é uma possibilidade que eu prefiro excluir. Acho que um debate razoável começa com a presunção de que todos estão sendo sinceros.

Contudo, esse é outro motivo que me leva a afirmar que Soros se desviou demais das ideias liberais. Karl Popper acreditava na importância das instituições, no processo lento e gradual de evolução pelo qual estas instituições passaram e portanto, reconhecia a importância da tradição, rejeitava as utopias e a arrogância intelectual dos pretensos reformadores da sociedade, por isso, acho que os projetos megalomaníacos de engenharia social de George Soros sofrem de muitos dos vícios que seu mestre certamente condenaria.

13 comentários:

  1. Desmantelado o Império, as igrejas disseminadas pelo território tornaram-se os sucedâneos da esfrangalhada administração romana. Na confusão geral, enquanto as formas de uma nova época mal se deixavam vislumbrar entre as névoas do provisório, os padres tornaram-se cartorários, ouvidores e alcaides. As sementes da futura aristocracia européia germinaram no campo de batalha, na luta contra o invasor bárbaro. Em cada vila e paróquia, os líderes comunitários que se destacaram no esforço de defesa foram premiados pelo povo com terras, animais e moedas, pela Igreja com títulos de nobreza e a unção legitimadora da sua autoridade. Tornaram-se grandes fazendeiros, e condes, e duques, e príncipes, e reis.

    A propriedade agrária não foi nunca o fundamento nem a origem, mas o fruto do seu poder. Poder militar. Poder de uma casta feroz e altiva, enriquecida pela espada e não pelo arado, ciosa de não se misturar às outras, de não se dedicar portanto nem ao cultivo da inteligência, bom somente para padres e mulheres, nem ao da terra, incumbência de servos e arrendatários, nem ao dos negócios, ocupação de burgueses e judeus.

    Durante mais de um milênio governou a Europa pela força das armas, apoiada no tripé da legitimação eclesiástica e cultural, da obediência popular traduzida em trabalho e impostos, do suporte financeiro obtido ou extorquido aos comerciantes e banqueiros nas horas de crise e guerra.

    Se o sistema medieval havia durado dez séculos, o absolutismo não durou mais de três. Menos ainda durará o reinado da burguesia liberal. Um século de liberdade econômica e política é suficiente para tornar alguns capitalistas tão formidavelmente ricos que eles já não querem submeter-se às veleidades do mercado que os enriqueceu. Querem controlá-lo, e os instrumentos para isso são três: o domínio do Estado, para a implantação das políticas estatistas necessárias à eternização do oligopólio; o estímulo aos movimentos socialistas e comunistas que invariavelmente favorecem o crescimento do poder estatal; e a arregimentação de um exército de intelectuais que preparem a opinião pública para dizer adeus às liberdades burguesas e entrar alegremente num mundo de repressão onipresente e obsediante (estendendo-se até aos últimos detalhe da vida privada e da linguagem cotidiana), apresentado como um paraíso adornado ao mesmo tempo com a abundância do capitalismo e a “justiça social” do comunismo. Nesse novo mundo, a liberdade econômica indispensável ao funcionamento do sistema é preservada na estrita medida necessária para que possa subsidiar a extinção da liberdade nos domínios político, social, moral, educacional, cultural e religioso.

    Com isso, os megacapitalistas mudam a base mesma do seu poder. Já não se apóiam na riqueza enquanto tal, mas no controle do processo político-social. Controle que, libertando-os da exposição aventurosa às flutuações do mercado, faz deles um poder dinástico durável, uma neo-aristocracia capaz de atravessar incólume as variações da fortuna e a sucessão das gerações, abrigada no castelo-forte do Estado e dos organismos internacionais. Já não são megacapitalistas: são metacapitalistas – a classe que transcendeu o capitalismo e o transformou no único socialismo que algum dia existiu ou existirá: o socialismo dos grão-senhores e dos engenheiros sociais a seu serviço.

    Essa nova aristocracia não nasce, como a anterior, do heroísmo militar premiado pelo povo e abençoado pela Igreja. Nasce da premeditação maquiavélica fundada no interesse próprio e, através de um clero postiço de intelectuais subsidiados, se abençoa a si mesma.

    Resta saber que tipo de sociedade essa aristocracia auto-inventada poderá criar – e quanto tempo uma estrutura tão obviamente baseada na mentira poderá durar.

    Começa aos 1:40:
    https://www.youtube.com/watch?v=imTAorGUPj0

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Voce tirou isso de algum livro ,seu comentário ficou ate melhor do que o artigo muito bom, parabens

      Excluir
    2. Gesse Gonçalves, esse texto se chama História de quinze séculos, de Olavo de Carvalho.

      Excluir
    3. Que bom que alguém tem um plano e força pra implementá-lo. Eu achava que esse mundo estava apenas a deriva, seguindo leis cegas de mercado em direção à hecatombe ecológica. Mas pelo jeito, os metacapitalistas estão chegando :)

      Excluir
  2. vc é um iluminati como soros, ja leu os dez mandamentos das pedras da georgia, e quer garantir um lugar no meio dos 500 milhões que vão ser polpados do mega genocídio global,...

    ResponderExcluir
  3. "Polpados(sic) pelo Genocídio" dá um bom nome de banda.

    ResponderExcluir
  4. Anti-marxista? O Soros??? Imagine se fosse a favor! rsrsrsrs

    ResponderExcluir
  5. Soros é um mito pacifista demonizado por ser progressista, discurso tão incoerente quanto a turma que caçoa de pessoas que são pobres e de direita.
    Quem diz que ele é marxista ignora Robert Schuman, Rawls, Sen, até caras como Niall Ferguson.
    E os conservadores conspiracionistas nunca têm nada a dizer da ALEC e dos Koch, estranho, os danos causados por suas práticas lobistas fizeram até os mesmos retrocederem.

    ResponderExcluir
  6. Se ele é tudo isso, por que ele financia a esquerda? Mídia Ninja mesmo é financiado pelo Soros.

    Não seria porque ele é um corporativista e -- embora no passado talvez haja tido -- hoje não tem NADA de liberal?

    ResponderExcluir
  7. Bem, investir nas causas "progressistas" como movimento negro, feminista ou lgbt pode ser muito interessante do ponto de vista da criação de novos nichos de mercado.

    ResponderExcluir