Acho que a PEC do teto dos gastos será aprovada tranquilamente, minha preocupação é com a reforma da previdência, acredito que ela será muito impopular, tão impopular que pode sobrar até pra nós. Explico:

A mudança para uma idade mínima de 65 anos para se aposentar é muito radical em comparação com a situação atual. Imagine um garoto que recebeu uma mesada de R$ 500 durante toda a vida e, ao chegar aos 17 anos, o pai diz que a mesada cairá pra R$ 50. Por mais que o pai tenha lá suas razões, é evidente que o filho ficará extremamente revoltado. Bom, acho que a revolta da imensa maioria do povo brasileiro, tão mal acostumado com décadas de populismo, será incomparavelmente maior, sem exagero. Acho que o governo Temer está colocando a mão dentro de um vespeiro de tamanho sem precedentes, a revolta será grande, a popularidade de Temer cairá a zero e vai sobrar pra nós.

Em primeiro lugar, a impopularidade do governo será canalizada contra todos os que apoiaram o impeachment - "Tiraram a Dilma para colocar o Temer e agora, vejam o que ele fez!". - Em segundo lugar, vão culpar a ideologia por trás da reforma, pra ser mais exato, acredito que vão culpar o liberalismo e a chamada "austeridade". Vai sobrar para o PSDB também, afinal são parte da base de apoio ao governo Temer, com consequências nas eleições de 2018 e por fim, ao fazerem resistência à reforma, também o PT terá a sua grande chance de recuperar parte da popularidade perdida, colocando-se mais uma vez como defensores dos "direitos dos trabalhadores". Eu diria até que, pela habilidade e experiência política que o PT tem, eles já devem estar trabalhando nisso desde agora.

A saída para os liberais, na minha opinião - o que infelizmente não vai contar muito porque sei que poucos vão me ouvir - é simplesmente olharmos para os nossos ideais e nos mantermos fiéis a eles, sem fazer concessões para soluções pela metade e isso significa que também devemos nos colocar contra a reforma, principalmente se ela for tão radical quanto está sendo proposto agora. Antes de tudo, porque a reforma já não é a solução ideal do ponto de vista liberal, a solução ideal para nós é a privatização da previdência e acreditem, essa seria uma solução menos impopular do que a reforma proposta pelo governo. Uma solução que por sinal, não deveria ser vista como tão utópica assim, visto que já foi praticada em outros países, como no Chile por exemplo. O discurso de que a previdência social não funciona tem, além de tudo, os fatos a seu favor, pois o Brasil não é o único país onde a previdência passa por problemas. A previdência estatal está em processo de falência completa em todo o mundo, principalmente nos países desenvolvidos onde a população está envelhecendo.

Por mais que a reforma do governo Temer seja uma opção melhor do que simplesmente deixar tudo como está, não valerá a pena, nesse caso, apoiar o mal menor, como normalmente é o melhor a ser feito, se esse mal menor, do ponto de vista econômico, é o mal maior do ponto de vista político.
Ao invés de um discurso de apoio à reforma, deveríamos adotar, na minha humilde opinião, a posição de que a reforma termina por provar que o estado é ineficiente também para gerenciar a previdência, já que se exige cada vez mais de nós, enquanto se entrega cada vez menos, em primeiro lugar porque essa é a mais pura verdade e em segundo lugar, porque essa posição poderia nos proteger da ira popular que certamente virá.

Mas o mais grave é que os tais "movimentos de rua liberais", a essa altura já totalmente subservientes ao governo Temer, com certeza vão apoiar a reforma e trabalhar incansavelmente (e em vão) para tentar mudar a opinião do povo, o que só servirá para fazer com que a opinião do povo se volte contra eles próprios e por tabela, contra nós todos também.
Mas para aqueles que, assim como eu, não têm rabo preso com políticos e partidos a dica que eu tenho pra dar essa: Não apoiem a reforma da previdência do governo Temer, apresentem como solução ideal, a privatização completa da previdência e usem a própria reforma como prova de que a previdência estatal não funciona. Precisamos pelo menos tentar mostrar que há independência e diversidade de pensamento entre os liberais e que nosso compromisso é em primeiro lugar, com ideais e valores, não com políticos e partidos que nem sequer representam nossas ideias.

Meritocracia é um assunto polêmico. Talvez seja um dos assuntos mais frequentes e mais polêmicos dentro do debate socioeconômico maior entre defensores do livre mercado e defensores da distribuição de renda. Este artigo pretende apenas jogar mais lenha nessa fogueira, apresentando alguns dados que, na minha opinião, podem mudar o rumo desse debate.
Os que se mantém céticos diante da ideia de meritocracia, criticam a ideia de que basta possuir algumas virtudes, como disposição ao trabalho e perspicácia empreendedora, para subir aos mais altos graus de opulência, não importando o quão baixo você estivesse na escala social. Para esses críticos, um garoto que nasce na favela, jamais terá as mesmas chances que um garoto que nasce em berço de ouro, as oportunidades simplesmente não são as mesmas para todos, por isso o garoto pobre jamais alcançará ao longo de sua vida, a mesma riqueza do garoto que já começou a corrida na frente.
Afinal, qual é a probabilidade de um garoto que nasceu na base da pirâmide social, ascender ao topo da piramide? Bom! Depois de uma rápida pesquisa na internet, encontrei a resposta. Pra ser mais preciso, pelo menos nos Estados Unidos essa probabilidade é de 9%. Encontrei o gráfico abaixo numa matéria da revista The Economist.




Parece uma chance pequena, mas lembrando que essas são as chances de passar do último quintil para o primeiro. Podemos presumir que passar do quinto para o segundo ou para o terceiro quintil, é bem mais fácil. (Vamos mostrar isso mais adiante)
Outros dados interessantes que constam nessa matéria: Em outros países, como na Dinamarca por exemplo, a probabilidade chega a ser o dobro maior. Isso se deve ao fato de que, na Dinamarca, existe mais igualdade social, alguns devem pensar, e isso pode estar certo em partes (em partes), pois é de se imaginar que um abismo maior entre ricos e pobres seja mais difícil de atravessar. Mas também não é bem assim.
O estudo do qual essa matéria trata, que por sinal, é o mais completo sobre mobilidade social nos Estados Unidos até então, concluiu que a mobilidade social no país praticamente não mudou nos últimos anos, isso justamente num período em que, segundo muitos especialistas, a desigualdade aumentou. Ou seja, a desigualdade parece não ter afetado a mobilidade social.

Se a probabilidade de chegar ao topo, saindo da base, fosse muito grande, isso invalidaria a tese da meritocracia ao invés de fortalecê-la, afinal se a tarefa não for difícil, não é preciso mérito cumpri-la. Se 100% dos pobres se tornassem ricos, isso significaria que você vai ficar rico de qualquer forma, provavelmente mesmo que não mereça.
Mas deixar de ser pobre nos Estados Unidos, ou seja, passar do último quintil para o quarto quintil, é algo tão provável, que daria até pra supôr que requer pouco esforço. É o que mostram os seguintes dados:

Um estudo do Federal Reserve Bank of Dallas. mostra que quase 86% das pessoas que eram pobres em 1979, já não eram mais pobres em 1988.





Mas o que você pode estar se perguntando agora é: Se tantas pessoas deixam de ser pobres todos os anos, como é possível que continue a existir pobreza? Acontece é que todos os anos, novas pessoas "entram na economia", principalmente jovens, que ainda não acumularam patrimônio e que recebem salários menores pela falta de experiência e também por conta dos imigrantes. Estes costumam ser os "novos pobres" que ocupam o lugar daqueles que vão deixando a pobreza. Espero também que você tenha em mente que "pobreza" nos Estados Unidos não significa o mesmo que no resto do mundo. Um pobre americano poderia facilmente ser comparado a alguém da classe C no Brasil, como demonstra este ótimo artigo do site Spotniks.

Tão interessante quanto a possibilidade de subir, é a possibilidade de cair. Repare que mais da metade dos que estavam no topo da piramide em 1976, não estavam mais em 1988. Posso imaginar muitos desses ricos "fracassados" ajudando a engrossar o coro que repete exaustivamente: "Meritocracia não existe."

As chances de perder o paraíso são reais não só para os 20% mais ricos da população dos Estados Unidos, mas até para aqueles cujo nome aparece no ranking de bilionários da Revista Forbes. Como destaca essa matéria da própria revista Forbes, desde que o ranking de pessoas mais ricas do mundo foi lançada pela primeira vez em 1987, poucos conseguiram se manter na lista ao longo dos anos.

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Comparando a lista de Bilionários 
da Forbes de 1987 com a de hoje, 
percebemos que é bastante difícil 
permanecer no topo.
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Outro dado interessante revelado pela revista Forbes, é discutido nesta matéria: Cerca de 2 terços dos 1810 participantes da mais recente lista de bilionários, são self-made man, ou seja, pessoas que construíram sozinhas suas próprias fortunas. Destaque para o primeiro da lista, Bill Gates, que fundou a Microsoft com seu então sócio, Paul Allen, praticamente do zero. Mesmo no Brasil, cujo ambiente para o empreendedorismo não é nem um pouco elogiado, 38% dos bilionários daqui fizeram suas próprias fortunas.

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Cerca de 2 terços dos bilionários
da lista da Forbes fizeram suas
próprias fortunas. No Brasil, 38%
dos bilionários construíram suas
fortunas do zero.
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Isso tudo é suficiente para dizer que meritocracia existe? Não sei, até porque este artigo é apenas o primeiro de uma série que pretendo escrever sobre o assunto e até porque também, nem tratamos de meritocracia aqui diretamente mas somente de mobilidade social. O que eu acho muito estranho contudo, é que discussões sobre meritocracia não levem em conta a mobilidade social como fator importante; em especial os críticos da meritocracia, pelo menos aqui no Brasil, falam como se esse fator sequer existisse, como se mobilidade social fosse impossível, tratando o sistema de classes quase que como um sistema de castas, enquanto que nos Estados Unidos, a preocupação por parte da esquerda política parece ser com a possibilidade de que, com o aumento da desigualdade, a mobilidade social seja reduzida. Nos Estados Unidos a esquerda não só reconhece a mobilidade social como preza por ela.

Se esses dados não esgotam o assunto, creio que pelo menos algumas conclusões podem ser tiradas deles: A primeira e mais importante é a de que o capitalismo, pelo menos quando tratamos de um país mais próximo do ideal de capitalismo, como é o caso dos Estados Unidos, é um sistema bastante dinâmico, que ser rico não é garantia de permanecer rico e que nascer pobre não significa estar condenado a ser pobre pelo resto da vida.