Alt-Right: A porta de entrada do Eurasianismo na América

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Embora a mídia venha fazendo um servicinho bem porco na tentativa de denegrir Donald Trump e seus seguidores, em especial o novo movimento político de extrema-direita que vem crescendo nos Estados Unidos, a Alt-Right, isso não significa que este movimento não seja realmente algo com o que se preocupar. Então, é importante que você não confunda esse artigo com as matérias toscas, pouco fundamentadas e que beiram o infantil (como essa, por exemplo) que a grande mídia vem fazendo sobre a Alt-Right.

Também é importante deixar claro que, embora a proximidade de Donald Trump com Stephen Bannon, o fundador do principal blog da Alt-Right, o Breitbart, e com a Rússia, isso não significa que Donald Trump seja, pessoalmente, adepto da Alt-Right, muito menos que todos os seus apoiadores ou eleitores sejam, a maioria obviamente nem sabe do que se trata. Confundir os apoiadores de Trump com a Alt-Right é dar a essa última, uma importância que ela não tem.

E foi justamente no Breitbart que eu encontrei um guia (vamos nos referir a ele constantemente nesse texto como "nosso guia" ou com termos semelhantes) para explorar a Alt-Right embasar este artigo. O guia é este artigo, co-assinado por Milo Yiannopoulos. Bom, se um artigo do Breitbard e co-assinado por Milo Yiannopoulos não tiver autoridade para falar em nome da Alt-Right, então ninguém mais tem. E embora alguns possam argumentar que a Alt-Right é um movimento composto pelas mais diversas opiniões e sub-ideologias políticas e que nem toda a Alt-Right está representada nesse artigo (algumas vertentes não estão porque são ainda piores), ele é suficiente para nos deixar preocupados, já que ele representa a opinião de, no mínimo, uma boa parte dos seus adeptos.


Richard Spencer e o site altright.com




Se você viu o vídeo acima, entende inglês, está minimamente familiarizado com o vocabulário e os gestos nazistas e não percebeu que o orador gravado no vídeo é racista, então desista de ler esse artigo, nada do que vamos dizer aqui poderá convencê-lo.

O sujeito que aparece nele é ninguém menos que Richard B. Spencer, citado no nosso guia como o fundador do site altright.com. Richard Spencer também é ex-marido de Nina Kouprianova, uma ativista russa, tradutora das obras de Dugin e que já expressou opiniões revisionistas sobre os crimes de Stalin.



"Alto lá! Mas você está acusando os caras de serem nazistas e stalinistas ao mesmo tempo?" - Exatamente! É precisamente disso que se trata o eurasianismo: Uma mistura bizarra de todas as formas mais desprezíveis de coletivismo que existem: Do nazi-fascismo ao comunismo. (Mas vamos falar mais disso ao longo do texto)

E ao entrar no site de Richard Spencer, o altright.com você pode encontrar:

Obsessão com o Irã: Um dos articulistas do site é um rapaz iraniano, que parece muito empenhado em mostrar para seus amigos americanos que o Irã é um país legal porque...os iranianos são arianos.
Nesse artigo, o cara desenvolve toda uma tese para tentar provar que um importante poeta iraniano era branco.

Vocabulário Eurasiano: Quem já leu pelo menos duas linhas sobre eurasianismo sabe que eles dividem toda a humanidade em duas grandes civilizações: Os atlantes, que representam a civilização ocidental, moderna e liberal-democrática e os eurasianos, que representam as formas mais tribais e antiquadas de coletivismo.
Vários artigos do site são claramente pautados por estes dois conceitos da filosofia eurasiana. Isso você mesmo pode conferir aqui, aqui, aqui e aqui.

Na verdade, o site trás até artigos do próprio Alexander Dugin.

Racismo Explícito: Nesse artigo, você pode ver os caras preocupados com miscigenação racial.

unz.com

Outro site citado no nosso guia é o unz.com. E o que eu encontrei por lá?

Um artigo tentando provar que os antigos gregos e romanos eram brancos. E qual a utilidade de uma discussão tão fútil quanto essa, além de servir a uma tentativa desesperada para mostrar pra todo mundo o quanto ser branco é ser foda?

E aqui um artigo dizendo que a Califórnia está em decadência porque a raça branca também está em decadência por lá por culpa da miscigenação racial.

Se isso não é racismo, então não sei mais o que é.

Steve Sailer

O artigo que usamos de guia também cita Steve Sailer, um sujeito que escreve sobre diferenças intelectuais entre "raças" e gêneros. (Embora não tenha formação nenhuma em qualquer área relacionada à biologia ou psicologia.)

Nosso guia se refere a Steve Sailer como sendo o cara que "ajudou a espalhar o movimento da 'biodiversidade humana', um grupo de blogueiros e pesquisadores que ousou caminhar pelo campo minado da ciência das diferenças raciais".

É importante deixar claro aqui que "biodiversidade humana", é um eufemismo que estes grupos usam em referência à ideia de que algumas raças são superiores a outras.

Os intelectuais da Alt-Right

Diferente da direita conservadora americana e britânica tradicional, que se pauta pelas ideias de pensadores como Edmund Burke, Russell Kirk e Roger Scruton, a Alt-Right (segundo o nosso guia) segue as ideias de um grupo bem diferente de intelectuais, entre eles, Julius Evola, o grande pai do tradicionalismo. (Que é algo bastante diferente daquilo que em política, se conhece como conservadorismo - É muito importante não confundir as duas coisas que são, na verdade, quase que incompatíveis)
Nosso guia cita Evola como um dos principais intelectuais da Alt-Right, e até Stephen Bannon (sim, o mesmo Stephen Bannon, o estrategista de Donald Trump) citou Evola recentemente.



Julius Evola

Julius Evola foi um esotérico italiano, anti-católico, anti-semita que defendia um conceito próprio de racismo que ele próprio chamava de "racismo espiritual". Esses conceitos chamaram a atenção de Mussolini que depois ajudou Evolua a publicar o jornal Sangue e Spirito.
Julius Evola só não conseguiu se entender totalmente com o fascismo porque suas idéias eram obscuras e potencialmente, impopulares demais até para o fascismo que, querendo ou não, buscava o apoio das massas num país com uma longa tradição católica.
Julius Evola é também a principal influência de ninguém menos que...Advinhem!...Ele mesmo, Alexander Dugin.

Alexander Dugin, pra quem não sabe ainda, é o grande mentor intelectual do eurasianismo, uma filosofia que exerce alguma influência sobre o presidente russo Vladmir Putin. Num passado remoto, Dugin foi membro do Partido Nacional Bolchevique, cuja ideologia ainda guarda muitas semelhanças com o Eurasianismo.



Dugin nos primórdios do Partido Nacional Bolchevique.




Manifestação Nacional Bolchevique

Bom, agora você percebe que, pelo menos na cabeça desse pessoal, nazismo e comunismo não são exatamente incompatíveis, certo? Para nós liberais e conservadores-liberais, também não, nós sempre tentamos alertar as pessoas que os extremos se encontram. Extrema-esquerda e extrema-direita são apenas duas faces do mesmo coletivismo.

Milo Yiannopoulos

Apesar de negar que a Alt-Right seja um movimento supremacista branco, o próprio artigo que usamos como guia aqui, co-assinado pelo próprio Milo, faz algumas afirmações que, na minha opinião, são claramente racistas, como as seguintes:

"egalitarianism flew in the face of every piece of research on hereditary intelligence"


"The alt-right’s intellectuals would also argue that culture is inseparable from race. The alt-right believe that some degree of separation between peoples is necessary for a culture to be preserved."

"Any discussion of white identity, or white interests, is seen as a heretical offence."

Ou, se você acha que isso não é racismo, deve admitir, no mínimo, que Milo Yiannopoulos é um coletivista e alguém seriamente contrário aos valores liberal-democráticos que fundaram a modernidade ocidental e a própria identidade nacional dos Estados Unidos da América, como fica claro nestes trechos abaixo:

"Asking people to see each other as human beings rather than members of a demographic in-group, meanwhile, ignored every piece of research on tribal psychology."
"The alt-right do not hold a utopian view of the human condition: just as they are inclined to prioritise the interests of their tribe, they recognise that other groups"

Resumindo, o argumento dos autores do artigo é basicamente o de que, se a esquerda progressista pode defender políticas estúpidas de identidade racial para negros, a direita também pode ser igualmente estúpida e defender ações afirmativas para brancos. Como se uma estupidez justificasse a outra.

Por fim, Milo tenta minimizar a importância da parte evidentemente "podre" do movimento. Ele admite a existência de nazistas e supremacistas brancos dentro da Alt-Right, mas tenta suavizar a gravidade desse fato dizendo que são apenas um sub-grupo menor, conhecidos como "1488rs", sem no entanto, dar uma única declaração de repúdio contra estes.

Ele tenta justificar ainda, os artigos que criticam a miscigenação racial (alguns dos quais mostramos aqui) que são publicados em blogs da Alt-Right, dizendo que seus autores fazem isso apenas porque eles se divertem vendo a mídia acusá-los de racistas. (Só eu achei essa desculpa pouco convincente?)

Eu diria que se Milo não parece tão explicitamente um chauvinista para alguns (porque pra mim está bem claro que ele é), é porque ele ficou com a ingrata tarefa de tentar enganar libertarians e conservadores convencionais, jovens e ingênuos, atraindo na verdade, todo um povo com forte tradição de liberdade e transformá-los em simpatizantes dos interesses geopolíticos da Rússia, do Eurasianismo e do coletivismo.

Mas...mas...o Milo é gay! Como ele pode ser racista e gay ao mesmo tempo? Considerando que seja verdade mesmo que ele é gay, eu me lembro que foi o próprio Olavo de Carvalho quem, num dos seus saudosos programas do True Outspeak, quem recomendou o livro Pink Swastika, que tratava da homossexualidade dentro do Partido Nazista.
Outra coisa que pode ser bastante esclarecedora é que o Eurasianismo, não está minimamente preocupado em ser uma filosofia coerente e racional, seu único objetivo é criar uma justificativa ideológica para os interesses geopolíticos da Rússia e nada mais.

3 comentários:

  1. Vejamos se algo sobrevive nesse post..

    O euro-asianismo não é uma doutrina ou a doutrina de Duguin, a doutrina do Duguin é, e basta ler o site dele, uma ideologia anti-liberal tradicionalista que bebe de toda fonte tradicionalista ocidental.

    Para provar que Trump é um perigoso eurasiano, ele cita um "articualista" pró-irã, apesar de Trump ter a retórica mais anti-irã dos últimos 10 governos americanos.

    Quem já leu a palavra eurasianismo vai ver que "euro" significa europeu, portanto, seria uma porca contradição evocar um "atlantes" como um discurso anti-europeu.

    O suposto "racismo implícito" é a mesma e convencional crítica ao multiculturalismo que a direita ocidental adora acusar o "marxismo cultural". O implícito só existe na cabeça do suíno. De fato, você não sabe o que é.

    Apelar para Steve Sailer como um guru do alt-right, e portanto, de Trump, é como apelar para Aristóteles, porque, afinal, para argumentar se precisa de lógica, e como Aristóteles inventou a lógico, logo, segundo a lógica suína, o Aristóteles é o guro do alt-right, logo Steave Bannon, logo Trump, logo o suíno capitalista.

    Citar Evola como fascista para concluir que não foi aceito pelo fascismo, é um belo monumento a um porquinho descerebrado metido a intelectual.

    Alexander Dugin está completamente alijado de Putin desde que descordou da abordagem soft dele na Ucrânia. Dugin é um conservador e somente por isso teve algum prestígio no circulo de Putin, que hoje não tem mais. Querer evocar algum bolchevismo dele seria o mesmo que chamar Yeltsin de comunista porque era filiado ao Partido Comunista, apesar de ser o presidente que privatizou todo o país (destruindo 50% do PIB russo, diga-se de passagem) e tornou o Partido Comunista ilegal, além de bombardear o parlamento sob aplausos silencioso dos liberais de todo o mundo.

    Realmente, nada sobreviveu, além da velha "lavagem" cerebral... não confundir "lavagem" com o verbo lavar, a lavagem aqui é o convencional alimento dados aos porcos, sejam eles capitalistas ou não.

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  2. Gostei do Pepe na Thumb!

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