Desde que o movimento Escola Sem Partido começou a chamar a atenção em todo o Brasil, o assunto "doutrinação ideológica" passou a ser amplamente debatido. Os argumentos contra o projeto variam bastante, desde negar a existência do problema, passando pela defesa da "liberdade de expressão" do professor até chegar à alegação de que uma educação neutra é impossível. Isso é claro, para não mencionar os que admitem, de forma cínica, que promovem a doutrinação em sala de aula mesmo e pensam que, com isso, estão promovendo o bem maior para os alunos e a sociedade.


Mas há muito tempo, alguns dos maiores defensores intelectuais da liberdade, já tentavam nos alertar para este, que é um problema intrínseco da educação pública. O primeiro desses foi John Stuart Mill. Como já comentei em um post anterior, John Stuart Mill, ao contrário do que muitos possam pensar, estava longe de ser um liberal laissez-faire ou um mero reacionário, pelo contrário, foi um dos pensadores mais progressistas de seu tempo. Embora Stuart Mill fosse a favor de subsídios estatais para a educação das classes menos abastadas, ele via com maus olhos, a educação pública totalmente gerida pelo estado. Ele chegou a escrever em seu Ensaio Sobre a Liberdade
"O sistema de ensino público para todos é um mero artifício destinado a moldar as pessoas para que se tornem exatamente iguais umas às outras: e o molde utilizado é aquele que agrada a quem exerce o poder, quer seja uma monarquia, uma classe de sacerdotes, uma aristocracia, quer a maioria da atual geração; na medida em que este sistema seja eficiente e produza resultados positivos, contribuirá para instaurar o despotismo sobre a mente, levando, por uma tendência natural, ao despotismo sobre o corpo."
Considerando então o nosso atual sistema de educação, totalmente controlado pelo estado em todos os seus detalhes, não é de se estranhar que o problema da doutrinação apareça.
Mas se você ainda não está totalmente convencido de que essa seja uma preocupação digna de um pensador realmente progressista, talvez você fique surpreso em saber que também Bertrand Russell, falou sobre o tema. 


Bertrand Russell era um pensador de esquerda, sem sombra de dúvidas, era um socialista libertário, secularista e pacifista, sua preocupação era não só com a doutrinação ideológica, mas também com a doutrinação religiosa, muito comum em seu tempo. Também foi o autor de numerosos escritos sobre educação.
Em uma conferência na qual tratava justamente do trecho acima citado de John Stuart Mill, denominada "John Stuart Mill, Proceedings of the British Academy", XLI (1955), 57 ele diz: 
"O ensino público, nos países que adotam os princípios [de Fichte], quando eficiente, gera uma horda de fanáticos ignorantes, prontos a atender a ordens superiores· para se engajar em guerras ou perseguições, conforme lhes seja ordenado. Este mal é tão grande, que o mundo seria um lugar melhor (pelo menos em minha opinião) se o ensino público nunca tivesse sido implantado". 
Talvez seja difícil para a esquerda brasileira atual, tão presa aos seus slogans fáceis como o da "educação pública e de qualidade", que alguém de esquerda possa ter se colocado contra a educação pública.

Também é atribuída à Russell, a frase:
"Os homens nascem ignorantes, não incapazes de pensar. O que os torna incapazes de pensar é a educação."
Russell alertou também que o sistema educacional, num futuro próximo, seria uma ferramenta tão poderosa de doutrinação, que poderia levar os estudantes a acreditarem que a neve é preta, como ele bem colocou em The Impact of Science on Society, em 1951:

"A fisiologia e a psicologia têm dentro de si espaço para técnicas cientificas que ainda aguardam desenvolvimento. A importância da psicologia em massa aumentou consideravelmente devido ao crescimento dos métodos modernos de propaganda. Destes, o mais influente é aquele chamado de “educação”. Os psicólogos sociais do futuro irão ter um número de cursos para as crianças em idade escolar, e neles serão testados métodos distintos de forma a produzir a inabalável convicção de que a neve é preta.
Rapidamente, se obterão vários resultados. Primeiro, que a influência do lar é destrutiva. Segundo, que nada mais pode ser feito a menos que a indoutrinação comece antes dos 10 anos. Terceiro, que os versos musicais entoados de forma repetitiva são muito eficazes. Quarto, que a opinião de que a neve é branca tem que ser mantida como forma de demonstrar um gosto mórbido pela excentricidade.
Mas já me estou a antecipar. Cabe aos cientistas do futuro dar precisão a estas máximas, e descobrir quanto é que custa, por cabeça, fazer com que as crianças acreditem que a neve é preta, e quão menos custaria levá-los a acreditar que ela é cinzenta-escura. Quanto a técnica tiver sido aperfeiçoada, todos os governos que estiverem encarregados da educação durante uma geração, serão capazes de controlar os seus súditos sem a necessidade de exércitos e polícias."

Mas afinal de contas, uma educação neutra é possível? Não totalmente, mas isso não é desculpa para partir em direção ao extremo oposto, o da doutrinação pura e simples. É o que tentou explicar um dos maiores defensores da neutralidade axiológica em ciências sociais, o sociólogo Max Weber.

Em novembro de 1917 Max Weber pronunciou a famosa conferência “A ciência como vocação” em Munique, na qual disse.
"O professor só pode mostrar a necessidade da escolha, mas não pode ir além, caso se limite a seu papel de professor e não queira transformar-se em demagogo. Além disso, ele poderá demonstrar que, quando se deseja tal ou qual fim, torna-se necessário consentir em tais ou quais consequências subsidiárias que também se manifestarão, segundo mostram as lições de experiências".
Resumindo, o professor deve ser um transmissor de conhecimento técnico e científico, não um propagador de valores. O problema em deixar a cargo da escola, a propagação de valores é esse: A escola controlada pelo estado, transmitirá os valores que interessam para o estado, ou para quem estiver no poder.
E em O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociais e humanas, Weber declara:
Porque é na verdade uma situação sem precedentes aquela em que numerosos profetas, creditados pelo Estado, em vez de pregarem pelas ruas, nas igrejas e em outros lugares, ou então privadamente, em pequenos conventos de crentes escolhidos pessoalmente e que se reconhecem como tal, se arrogam o direito de declamar ex cathedra, em “nome da ciência”, vereditos decisivos sobre a concepção do mundo, aproveitando-se do fato de, por um privilégio do Estado, as aulas lhes concederem um silêncio aparentemente objetivo, incontrolável, que os protege da discussão e consequentemente das contradições.
Nesse trecho específico, Max Weber expõe a covardia dos que usam de sua posição privilegiada, prestígio e autoridade, atributos concedidos todos pelo estado, para falarem em nome da ciência. É perceptível o quanto os doutrinadores parecem acreditar que não estão falando em nome de uma doutrina, ou de uma ideologia, mas sempre de um suposto "consenso científico".