A Holanda do Século XVII e sua experiência pioneira com a liberdade

Na imagem: Emmanuel de Witte, Bolsa de Valores de Amsterdã, 1653

Vamos seguir o conselho dos esquerdistas e estudar um pouco de história? Gostaria de falar um pouco sobre o Século de Ouro Holandês que compreendeu o período entre 1584 e 1702. Um dos raros períodos da história da humanidade em que um povo desfrutou de relativa liberdade e por isso mesmo, é um dos meus favoritos.
Por volta de 1581, a Holanda se torna independente do império espanhol, fundando a República Unida dos Países Baixos e dando início ao período conhecido como o Século de Ouro Holandês. A República era uma confederação de 7 províncias que tinham seus próprios representantes e gozavam de grande autonomia. A República como um todo oferecia liberdade política, econômica, de pensamento e de religião sem precendentes na história ocidental. Essa liberdade atraiu refugiados de várias partes da Europa que ali encontraram asilo, principalmente intelectuais, cientistas e artistas, além de desenvolver o comércio e trazer grande prosperidade. Nos séculos XVII e XVIII, os neerlandeses eram um povo disciplinado, racional e criativo, que foi capaz de construir a nação Europeia economicamente mais rica e científicamente mais avançada.

Durante uma grande parte do século XVII, os neerlandeses, tradicionalmente habilidosos navegadores e cartógrafos dominaram o comércio mundial. Primeiro, os neerlandeses dominaram o comércio entre países europeus, a região dos Países Baixos era favoravelmente posicionada entre as rotas de comércio do Leste-Oeste e do Norte-Sul e ligada à uma grande parte do interior alemão através do rio Reno. Comerciantes neerlandeses transportaram vinho da França e de Portugal para a região Báltica e retornaram com grãos destinados aos países do Mar Mediterrâneo.
Mas vivendo num país pequeno e de poucos recursos, os neerlandeses tiveram de ir mais além. Em 1602, a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais (VOC), a primeira multinacional da História, foi fundada. Mas nenhum cidadão da época possuía capital o suficiente para financiar sozinho, as ousadas aventuras marítimas da companhia. Pra isso foi fundada, no mesmo ano, a Bolsa de Valores de Amsterdã, com o objetivo de vender ações da companhia, a primeira na história a realizar esta prática, levantando assim o capital necessário.
O florescente comércio neerlandês resultou numa larga e rica classe comercial. A nova prosperidade trouxe mais atenção e patrocínio para as artes visuais, a literatura, e a ciência. Os navegadores neerlandeses também descobriram a Nova Zelândia, as ilhas Fiji e várias outras ilhas do pacífico. A descoberta do novo e o contato com culturas e povos exóticos, acabou com a complacência da sociedade neerlandesa e abriu a mente de seus cidadãos para novas ideias.

Em consequência de seu clima de tolerância intelectual, a República Neerlandesa atraiu cientistas e intelectuais de toda a Europa. Especialmente a renomada Universidade de Leiden tornou-se o lugar de reunião para estas pessoas, como o filósofo René Descartes, por exemplo, que viveu em Leiden de 1628 à 1649. Depois de ter problemas com a inquisição, Galileu escolheu os Países Baixos para realizar alguns de seus trabalhos científicos. Até mesmo John Locke, o pai do liberalismo, fugiu para os Países Baixos em 1683. O filósofo Baruch de Espinoza também viveu na Holanda dessa época.
O famoso engenheiro hidráulico neerlandês Jan Leeghwater (1575-1650) alcançou importantes vitórias na eterna luta dos Países Baixos contra o mar. Leeghwater adicionou uma considerável parte de terra à república, convertendo diversos grandes lagos em pôlderes através da drenagem das terras por moinhos de vento.
Christiaan Huygens (1629-1695) foi um famoso matemático, físico e astrônomo. Autor de uma frase bastante revolucionária para a época: “O mundo é meu país, a ciência é minha religião”, ele inventou o relógio de pêndulo, que foi um grande passo à frente na medição exata do tempo, o que por sua vez era muito importante para as navegações. Entre suas contribuições à astronomia encontra-se a explicação dos anéis planetários de Saturno. Ele também contribuiu na área da ótica. O mais famoso cientista neerlandês na área da óptica é certamente Anton van Leeuwenhoek, que realizou grandes melhorias no microscópio e foi o primeiro a estudar metódicamente a vida microscópia, criando assim as fundações para a área de microbiologia. É provável que, para aprimorar este instrumento, ele tenha se inspirado nas lentes que os comerciantes usavam para verificar a qualidade das mercadorias.
Novamente, em consequência do clima de tolerância, a edição livreira floresceu. Diversos livros sobre religião, filosofia e ciência, considerados controversos em outros países, foram publicados nos Países Baixos e exportados ao exterior. Consequentemente, os Países Baixos tornaram-se cada vez mais a editora livreira da Europa no século XVII.
Todo este movimento em favor da razão, da ciência e do esclarecimento, deu origem ao que mais tarde seria o iluminismo e o clima de liberdade, tolerância e descentralização política inspirou o movimento pela independência dos Estados Unidos.

A região dos Países Baixos passou por um desenvolvimento cultural que superou o de países vizinhos. Enquanto ricos aristocratas por muitas vezes tornaram-se patrocinadores das artes em outros países, na República Neerlandesa esse lugar foi ocupado por ricos comerciantes.
Os mais famosos pintores do Século de Ouro são as figuras mais dominantes do período: Rembrandt, o mestre do gênero Johannes Vermeer, o inovador pintor paisagista Jacob van Ruisdael, e Frans Hals, que injetou nova vida no retratismo.

Fontes:
Wikipedia: Século de Ouro dos Países Baixos
Wikipedia (em inglês): Dutch Republic
Wikipedia (em inglês): Politics and government of the Netherlands (1581-1795)
Wikipedia (em inglês): Act of Abjuration
Infoescola: Descobrimentos e Navegações Holandesas
Mercado Comum: História da Bolsa de Valores

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