A Pré-História da Alt-Right

Autor: Jeffrey A. Tucker
Originalmente publicado no site da FEE – Foundation for Economic Education

Ler “Por que eu deixei a esquerda” é um lembrete sólido de que não resta muito peso intelectual naquele lado da cerca. Se uma ideologia se propõe a isolar o lócus do mal na própria identidade das pessoas, é porque já está bem desgastada. Isso, somado ao fracasso do modelo socialista em todo o lugar onde este foi praticado, explica por que a esquerda tem sofrido tanto nas urnas e agora enfrenta uma séria oposição nas universidades e na vida pública.

Com a falha da ação, vem a reação, e agora o mundo ocidental se depara com algo bem menos familiar para a maioria: A ascensão da alt-right enquanto alternativa. Ela é atrativa para alguns jovens por quebrar tabus e pelo seu éthos rebelde que tão facilmente irrita professores e protetores de convenções cívicas.

O movimento é mais do que isso, contudo. Ele tem uma história política e filosófica real, uma que permanece em violenta oposição à ideia de liberdade individual. Ela tem sido amplamente suprimida desde o fim da II Guerra Mundial e, por causa disso, a maioria das pessoas assume que o fascismo (e suas ramificações) foram varridos da face da Terra.

Como resultado, essa geração não foi preparada filosoficamente para reconhecer a tradição, os signos, as implicações, e a aplicação prática da ideologia que tantos estão ansiosos para abraçar.

Aqui está a pré-história daquilo que chamamos hoje de Alt-Right, que é provavelmente melhor descrita como a encarnação, no século XXI, daquilo que no século XIX era chamado de Hegelianismo de Direita. Estou pulando vários movimentos políticos (na Espanha, França e Itália), e líderes grosseiros como George Lincoln Rockwell, Oswald Mosley e Fr. Coughlin, para ir direto ao núcleo de ideias que formam algo como uma escola de pensamento que se desenvolveu por mais de um século.

Aqui temos uma genealogia da marca de pensamento não-marxista e não-esquerdista mas ainda assim totalitária, desenvolvida em fanática oposição à liberdade burguesa.

1820: Georg Friedrich Hegel publica Princípios da Filosofia do Direito que soletrava as implicações políticas do seu “idealismo dialético”, um panorama que rompia dramaticamente com a tradição liberal ao abstrair completamente da experiência humana para postular forças antagônicas vitais operando além do controle de qualquer pessoa para moldar a história. Acontece que a política dessa visão implicava que “o estado é a marcha de Deus através do mundo”. Ele olhava para alguma era no futuro em que a apoteose do controle do estado seria realizada. A visão hegeliana, de acordo com uma palestra de 1952 de Ludwig von Mises, se quebrou em duas vertentes, uma de direita e outra de esquerda, dependendo de sua posição quanto ao nacionalismo e a religião (a de direita apoiava o estado e a igreja Prussiana, enquanto a de esquerda não apoiava), e assim “destruiu o pensamento alemão e a filosofia alemã por mais de um século, pelo menos.”

1841: Thomas Carlyle publica “On Heroes, Hero-Worship, and The Heroic in History“, que popularizou a teoria do Grande Homem na história. A história não era sobre melhorias marginais nas condições de vida ao se usar melhores ferramentas mas sim sobre grandes mudanças episódicas provocadas pelo poder. Um defensor da escravidão e oponente do liberalismo, Carlyle mirou contra a ascensão da sociedade comercial, homenageando Cromwell, Napoleão e Rousseau, e tecendo rapsódias sobre as glórias do poder. “O comandante dos homens; Aquele a quem nossa vontade é para ser subordinada, e se render lealmente, e encontrar o bem-estar deles ao fazê-lo, pode ser considerado o mais importante dos Grandes Homens ”. O alvo de Carlyle era Adam Smith e o iluminismo escocês em geral. Biógrafos de Hitler concordam que seu desejo era que as palavras de Carlyle fossem as últimas a serem lidas para ele antes de morrer.

1841: Enquanto isso, no continente, Friedrich List publica Sistema Nacional de Economia Política, celebrando o protecionismo, os gastos com infraestrutura, além dos controles e subsídios do estado sobre a industria. Novamente, foi um ataque direto contra o laissez faire e a celebração da unidade nacional como a única força produtiva na vida econômica. Steven Davies comenta: “O resultado mais sério das idéias de List foi uma mudança no pensamento e na percepção popular. Ao invés de ver o comércio como um processo de cooperação mutuamente benéfico, políticos e homens de negócio passaram a considerá-lo um luta com vencedores e perdedores.” Os nacionalistas econômicos de hoje não têm nada de novo para acrescentar ao edifício já construído por List.

1871: Charles Darwin deixou brevemente o campo da ciência para entrar na análise sociológica com seu livro A Descendência do Homem. Trata-se de um fascinante trabalho mas que tende a tratar a sociedade humana mais como um zoológico do que como um empreendimento econômico e sociológico. Ele inclui um explosivo parágrafo (qualificado mas muito mal interpretado) onde lamenta como “instituímos leis pobres; e nossos médicos exercem sua habilidade máxima para salvar a vida de cada um até o último momento (…) Assim, os membros fracos das sociedades civilizadas propagam sua espécie. Ninguém que tenha assistido à criação de animais domésticos duvidará que isso seja altamente prejudicial para a raça humana ”. No mínimo, ele sugeriu, deveríamos proibir os fracos de se casarem. Isso era o mínimo que poderíamos fazer para evitar que a sociedade fosse dominada por inferiores. Tragicamente, esse rápido comentário instigou os eugenistas que imediatamente, começaram a tramar planejamentos e esquemas demográficos para evitar o terrível deslize biológico para a total degeneração humana.

1896: A Associação Econômica Americana publica Traços e Tendências Raciais do Negro Americano por Frederick Hoffman. Essa monografia, uma de muitas desse tipo, descreve os negros como criminosos intratáveis ao mesmo tempo preguiçosos e promíscuos, cuja influência na biologia nacional só poderia levar a um declínio da raça. Sua mera presença era considerada uma ameaça existencial às “intransigentes virtudes da raça ariana.” Tais pontos de vista foram abraçados por Richard T. Ely, o fundador da Associação Econômica Americana, que veio a dominar os periódicos acadêmicos deste período, oferecendo cobertura acadêmica para as Leis Jim Crow, para a segregação, regulação sobre os negócios e coisas ainda piores.

1904: O fundador da Sociedade Americana de Eugenia, Charles Davenport, estabeleceu a Estação para Evolução Experimental e trabalhou para propagar a eugenia, empoleirado como Professor de Zoologia na Universidade de Harvard. Ele foi muito influente sobre toda uma geração de cientistas, figuras políticas, economistas e burocratas, também foi em partes por sua influência que a eugenia se tornou uma preocupação central das políticas americanas deste período até a II Guerra Mundial, influenciando a aprovação de leis sobre salários, imigração, leis sobre o casamento, leis sobre a jornada de trabalho e, é claro, esterilizações forçadas.

A esta altura da história, todos os cinco pilares da teoria fascista (historicismo, nacionalismo, racismo, protecionismo e estatismo) estão em seus lugares. Temos uma teoria da história, temos um retrato do inferno, que é o liberalismo e a sociedade comercial descontrolada, temos um retrato do paraíso, que são as sociedades nacionais comandadas por grandes homens vivendo em estados onipotentes focados na indústria pesada e temos uma base científica.

Mas acima de tudo, temos uma agenda: Controlar a sociedade a partir do topo com o intuito de gerir cada aspecto do caminho demográfico da sociedade humana, o que significa controlar os seres humanas do berço ao túmulo, a fim de produzir o produto mais superior, bem como instituir o controle industrial para substituir o ardil dos processos de mercado. A própria ideia de liberdade, para esta escola de pensamento emergente, era um desastre para qualquer um, em qualquer lugar.

Só era realmente necessário popularizar as mais incendiárias ideias.

1916: Madison Grant, estudioso de enorme prestígio e de conexões com a elite, publicou The Passing of the Great Race. Nunca foi um bestseller, mas exerceu enorme influência sobre as elites governantes, além de fazer uma aparição famosa em The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Grant, um precursor do ambientalismo, recomendou a esterilização em massa como uma “prática, piedosa e inevitável solução para o problema todo” que seria “aplicada a um círculo sempre crescente de descartes sociais, começando sempre com o criminoso, o doente e o insano, e estendendo-se gradualmente a tipos que podem ser chamados de fracos, em vez de defeituosos, e talvez, em última análise, a tipos de raças inúteis.” Hitler amou o livro e enviou a Grant uma nota elogiando o livro como sua Bíblia pessoal.

1919: Na sequência da I Guerra Mundial, o historiador alemão Oswald Spengler publicou O Declínio do Ocidente, que encontrou ampla aclamação popular por capturar o sentimento do momento: A economia capitalista e o liberalismo estavam mortos e só poderiam ser substituídos pela ascensão de normas culturais monolíticas que girariam em torno do sangue e da raça como fontes de significado. O sangue está sobrepujando o dinheiro por todo mundo, ele argumentou. O interminável e nebuloso texto estava repleto de especulações hegelianas sobre o status do homem e previa a queda completa de todas as coisas amáveis a menos que a civilização ocidental abdicasse de seu vinculo com as normas comerciais e o individualismo e em lugar deles, se voltasse para a causa da identidade de grupo. O livro deu início a uma década de obras e movimentos semelhantes que declaravam que a liberdade e a democracia eram ideias mortas: A única batalha relevante era entre as formas comunista e fascista de planejamento estatal.

1932: Carl Schmitt publica O Conceito do Político, um ataque brutal ao liberalismo enquanto negação da política. Para Schmitt, a política era a essência da vida e a distinção entre amigo/inimigo era a característica mais importante. Amigos e inimigos deveriam ser definidos pelo estado e a inimizade só seria totalmente resolvida pelo derramamento de sangue, que deve ser real e presente. Mises o chamou de “o jurista do nazismo” por uma razão: Ele era membro do partido e suas ideias contribuíram para a percepção predominante de que a matança em massa não só era moral, mas essencial para a preservação do próprio sentido da vida.

1944: Tropas aliadas descobrem milhares de campos de extermínio espalhados por territórios capturados pelos nazistas na Europa, criados a partir de 1933 e continuando até o fim da guerra, responsáveis ​​pela prisão e morte de mais de 15 milhões de pessoas. A descoberta chocou toda uma geração no nível mais fundamental, e uma luta começou para descobrir todas as fontes do mal – políticas e ideológicas – que levaram a uma realidade tão horrenda. Com as forças nazistas derrotadas e os julgamentos de Nuremberg ressaltando a questão, o avanço do dogma fascista em todos os seus timbres nostálgicos, racistas, estatistas e historicistas chegou a um ponto insustentável. A supressão das idéias ali surgidas começou na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos, criando a impressão de que o hegelianismo de direita era um mero flash que fora permanentemente apagado pelo poder do Estado.

No mesmo ano em que começa a descoberta dos campos de concentração, F.A. Hayek publica O Caminho da Servidão, que enfatizava que não bastava rejeitar os rótulos, canções, slogans e regimes do nazismo e do fascismo. Também é necessário, dizia Hayek, rejeitar as ideias de planejamento central, o que, mesmo em uma democracia, necessariamente levaria ao fim da liberdade e à ascensão da ditadura. Seu livro foi recebido com aclamação por um pequeno grupo de liberais clássicos remanescentes, mas foi denunciado e ridicularizado como paranoico e reacionário por muitos outros.

Durante a Guerra Fria que se seguiu, foi o medo do comunismo e não do fascismo / nazismo que dominaria a mente do público. Afinal, o último havia sido derrotado no campo de batalha, certo? A gênese e o desenvolvimento do totalitarismo de direita, apesar dos sérios alertas de Hannah Arendt, se afastaram da consciência pública.

Liberalismo ainda não

A Guerra Fria terminou há 25 anos e o surgimento da tecnologia digital deu às formas liberais de economia e política uma presença gigantesca no mundo. O comércio nunca foi mais integrado. Direitos humanos estão em marcha. A vida comercial, e sua ideologia subjacente de harmonia e paz, é a aspiração predominante de bilhões de pessoas em todo o mundo. As falhas do planejamento governamental são cada vez mais óbvias. E, no entanto, essas tendências, por si só, não selaram o consenso para a causa da liberdade.

Com o hegelianismo de esquerda agora em desgraça, movimentos políticos em todo o mundo estão revisando a história das ideias totalitárias pré-guerra para encontrar alternativas. A supressão dessas idéias não funcionou; na verdade, ela teve o efeito oposto de torná-las mais populares até o ponto em que entraram em erupção. O resultado é o que chamamos de Alt-right nos EUA e é conhecido por muitos outros nomes na Europa e no Reino Unido. (A transição dos anos 90 para o presente será o assunto de outro ensaio.)

Não nos deixemos enganar. Qualquer que seja o sabor – qualquer que seja o ramo de Hegel que escolhamos seguir – o preço do controle governamental é a liberdade, a prosperidade e a dignidade humanas. Podemos escolher mega-estados, homens fortes, planejamento nacional ou homogeneidade religiosa e racial por nossa conta e risco.

Em sua maior parte, os trolls, criadores de memes que colocam fotos ao estilo Stormfront em seus perfis nas redes sociais e os movimentos de massa que pedem que homens fortes assumam o controle e expulsem o outro de seu meio, não sabem a história e o caminho que estão seguindo.

Se você se sente tentado pela Alt-right, olhe para seus progenitores: Você gosta do que vê?

Qual é a alternativa ao hegelianismo de direita e de esquerda? Ela encontra-se na tradição liberal, resumida na frase de Frederic Bastiat “a harmonia dos interesses”. Paz, prosperidade, liberdade e comunidade são possíveis. É essa tradição, e não aquela que postula uma guerra irremediável entre grupos, que protege e expande os direitos humanos e a dignidade humana, e cria as condições que permitem o enobrecimento universal da pessoa humana. (Para mais informações sobre a história das idéias despóticas no século 20, eu sugiro o livro épico de Mises, Planned Chaos, de 1947, agora disponível em epub.)

As palavras definitivas sobre o caminho correto (para os amantes da liberdade) foram formuladas pelo grande historiador inglês Thomas Babington Macaulay em 1830, uma declaração que seria detestada por todos os fascistas da história:

“Não é pela intromissão de um Estado onisciente e onipotente, mas pela prudência e energia do povo, que a Inglaterra até agora avançou em civilização; e é para a mesma prudência e a mesma energia que agora olhamos com conforto e boa esperança. Nossos governantes melhor promoverão a melhoria da nação limitando-se estritamente a seus próprios deveres legítimos, deixando que o capital encontre seu curso mais lucrativo, que mercadorias encontrem seu preço justo, que a indústria e a inteligência encontrem sua recompensa natural e  a ociosidade e a loucura, sua punição natural; mantendo a paz, defendendo a propriedade, diminuindo o preço da lei e observando a estrita economia em todos os departamentos do estado. Deixe que o governo faça isso: O povo seguramente fará o resto ”.

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