Amplo estudo realizado nos EUA não encontra ligação entre glifosato e câncer

Um amplo estudo de longo prazo sobre o uso do herbicida glifosato realizado entre trabalhadores agrícolas nos Estados Unidos não encontrou vínculo entre a exposição ao herbicida e a incidência de câncer, conforme disseram alguns cientistas na quinta-feira, dia 9.

Publicado no Journal of the National Cancer Institute (JNCI), o estudo descobriu que não havia associação entre o glifosato, o ingrediente principal do popular herbicida Roundup da Monsanto, “e quaisquer tumores sólidos ou neoplasias linfóides em geral, incluindo linfoma não-Hogkin (NHL) e seus subtipos”. [1]

David Spiegelhalter, professor da Universidade de Cambridge, que não possui vínculo com a pesquisa, disse que as descobertas eram resultado de um “estudo amplo e cuidadoso” e não mostravam “nenhuma relação significativa entre o uso de glifosato e qualquer câncer”.

As descobertas provavelmente afetarão processos judiciais nos Estados Unidos contra a Monsanto, em que mais de 180 demandantes alegam que a exposição ao RoundUp lhes causaram câncer.

As descobertas também podem influenciar uma decisão crucial sobre se o glifosato deve ser re-licenciado para venda em toda a União Européia.

A decisão da UE foi adiada por mais de um ano depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde (IARC) analisou o glifosato em 2015 e concluiu que era “provavelmente cancerígeno” para os seres humanos. Outros órgãos, como a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, concluíram que o glifosato é seguro.

O problema é que os documentos publicados pela IARC que ligavam o uso de glifosato ao câncer, foram forjados. A IARC, radicada em Lyon, na França, é uma entidade semi-autônoma da Organização Mundial da Saúde (OMS). O ingrediente ativo foi ranqueado como cancerígeno do “grupo 2a”, ou uma substância que “provavelmente causa câncer”. Uma das fraudes porém, foi a remoção do textos onde vários cientistas dizem concluir com seus estudos que “não encontraram nenhuma relação entre o glifosato e o câncer em animais de laboratório”. Nessa frase o sentido original foi invertido, aponta a agência Reuters.

Em outra frase, havia uma referência no rascunho a uma patologia citada por especialistas da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês). O trecho afirmava que um relatório concordou “firme” e “unanimemente” que o glifosato não causou crescimento anormal dos ratos estudados. No estudo final apresentado pela Agência Internacional de Pesquisa Sobre Câncer, esse trecho foi deletado.

No total, a Reuters encontrou 10 edições importantes no texto. As negativas de que o glifosato não tem relação com qualquer tumor também foi apagada. A Reuters não foi capaz de determinar quem fez as mudanças. Cientistas da agência não quiseram comentar a reportagem. (Você pode ler mais sobre o caso aqui [2] e aqui [3].)

Em 2016 também a OMS e a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) anunciaram que o glifosato não é cancerígeno ao ser humano. [4]

“É improvável que o uso do glifosato através da dieta seja cancerígeno para o homem”, disse a OMS em comunicado publicado ao fim de um painel de especialistas sobre resíduos de pesticidas nos alimentos e no meio ambiente.

“Os testes científicos indicam que a administração de glifosato e de produtos derivados a doses de até 2 mil miligramas por quilo, por via oral, que é a maior exposição à substância em uma dieta, não está associada a efeitos genotóxicos na maioria dos estudos conduzidos com mamíferos”, diz o texto.

[1] Reuters: Large US farm study finds no cancer link to mansanto weedkiller

[2] Agrolink: OMS forjou dados para dizer que glifosato causa câncer

[3] Texto em inglês no blog The Risk Monger: Greed, Lies and Glyphosate: The Portier Papers

[4] Agência EBC: OMS e FAO voltam atrás e dizem que glifosato não provoca câncer

 

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