Carestia na Venezuela

Em 1999, 10 anos depois da queda do muro de Berlim, aquilo que deveria servir como prova definitiva de que o socialismo havia falhado, Hugo Chávez resolve dar uma segunda chance ao modelo de economia planificada, desta vez na Venezuela. O país é altamente dependente do petróleo, que representa 96% dos ganhos de exportação do país, 40% das receitas do governo e 11% do PIB, mas a abundância deste recurso não foi capaz de livrar nossa vizinha de sérios problemas econômicos. O PIB contraiu 4% em 2014 e a previsão é de que se contraia mais 7% este ano. A inflação terminou 2014 em 68,4% e espera-se que chegue a 80%. O país também experimenta escassez de produtos básicos e o declínio das reservas internacionais do banco central. O atual presidente, Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, tem aprofundado ainda mais o controle do estado sobre a economia na tentativa de solucionar a crise. [1]

Os defensores do socialismo chavista alegam que o presidente conseguiu reduzir a pobreza no país. Segundo dados da CEPAL, em 2002 a porcentagem de pessoas vivendo em situação de pobreza no país era de 48,6%. Em 2010 este número havia caído para 27,8%. [2]
Num primeiro momento, Hugo Chávez soube usar os ganhos com a alta dos preços do petróleo para investir em programas sociais. O barril de petróleo em Dezembro de 1998, pouco antes de Chávez assumir, estava em US$ 11,24. Em Abril de 2011, estava em US$ 113,37. [3]

Mas os socialistas ficaram tão empolgados com estes números que esqueceram de se atualizar. De 2012 para 2013 contudo, segundo a mesma CEPAL, o número de pessoas vivendo na pobreza na Venezuela disparou para 32,1% da população e este foi o último número divulgado. [4] Mas é quase certo que a situação piorou ainda mais desde então, com a piora da economia. [5] [6]

O socialismo fracassará sempre, isso é inevitável. Mas algo que poucos sabem é que Chávez só começou a pôr em prática efetivamente a ideia de transformar a Venezuela num país socialista, depois de 2007. Logo após conquistar uma nova vitória eleitoral em 2006, ele prometeu aprofundar a revolução [7] e no ano seguinte iniciou um amplo programa de nacionalizações e expropriações. Foi só então que o socialismo do século XXI começou a ser praticado de fato.

No setor elétrico, as consequências dessas políticas são visíveis. Em 2007, o governo comprou a empresa Electricidad de Caracas [8], completando assim o processo de nacionalização do setor elétrico. Em seguida, as 14 principais empresas de eletricidade do país foram unificadas na CORPOELEC. [9] – Incluindo a Edelca que, sozinha, era responsável pela metade da produção de energia eléctrica no país [10]

E o que aconteceu em seguida? Apagões se tornaram uma rotina. [11] Alguns casos famosos foram noticiados até pela mídia de esquerda. [12] Mas nesse caso, como sempre, o governo culpou uma suposta “sabotagem da direita”, mesmo tendo controle absoluto sobre todo o setor.
Este ano, o vice-presidente anunciou medidas de racionamento e que inclusive, partes do funcionalismo público teria sua jornada de trabalho reduzida para economizar energia. [13]

Mas foi só em 2008 que o governo começou a atacar o setor de aliementos. Em março daquele mesmo ano, o executivo nacional por meio da PDVSA adquire o grupo de empresas Lácteos Los Andes, transformando-a numa empresa pública socialista. [14] Outros alvos posteriores seriam as Indústrias Diana (Óleo de cozinha e outros produtos) [15], Fama de América (Café) [16] a mexicana Monaca (Farinha de Trigo, milho, macarrão, arroz, óleo, aveia, atum, entre outros) [17].
Em março de 2009, o governo da Venezuela ordenou uma intervenção militar em todas as fábricas processadoras de arroz do país. [18] No mesmo mês, Hugo Chávez ordenou a expropriação das plantas processadoras de arroz da empresa americana Cargill [19] e em Abril de 2010, o presidente expropriou terrenos e depósitos das empresas Polar, a maior empresa de alimentos do país. [20]

Mas não só as empresas produtoras de alimentos foram alvo destas políticas. Em maio de 2009, Chávez anunciou que iria expropriar 10.000 hectares de latifúndios para produção de alimentos. [21]
E o governo também tomou controle da distribuição: Em 2010, por meio do Decreto Nº 7.185, ele adquire a cadeia de hipermercados Éxito. [22] Em maio deste ano, foram anunciadas leis para nacionalizar a atividade, mas a esta altura, o governo já controlava metade da distribuição de alimentos no país, segundo estimativas. [23]
E não para por aí. Em Outubro de 2010, o governo faz a aquisição forçada da Agrosileña (atualmente Agropatria) que produz suprimentos agrícolas como fertilizantes, sementes e agroquímicos. [24] Em maio de 2015, a Fedeagro alegou que a empresa tem o monopólio do setor. [25]

A consequência: Escassez. E os produtos cuja produção o governo assumiu são justamente os mais em falta. Falta leite. [26] [27] [28] Óleo de cozinha lidera níveis de escassez. [29] Falta arroz. [30] Só em 2013, houve uma queda de 10,55% no consumo de arroz [31] Esta matéria [32] também aponta os produtos mais escassos : Leite, café, arroz, papel higiénico, açúcar, sabão e óleo de milho.

Mas tudo isso pode ser mera “invenção da mídia burguesa”, certo? Se você não acredita, veja a escassez com seus próprios olhos neste vídeo [33]. Na verdade, o próprio governo assume o problema, mas culpa uma suposta “sabotagem da direita” [34]. Só que esta é uma explicação difícil de engolir já que, como vimos, o desabastecimento é mais severo quando se trata dos produtos produzidos pelas empresas nacionalizadas.

Em resposta ao desabastecimento, o atual presidente, lança a Guerra Econômica, colocando a culpa pela alta dos preços nos pequenos comerciantes que se atrevem a vender produtos acima do preço fixado pelo governo. Neste vídeo, Maduro (a partir de 5′) ordena a prisão imediata dos donos do Estabelecimento (sem devido processo, portanto) além de ordenar a ocupação da loja para a venda a “preços justos”. [35]
E neste vídeo [36], o resultado da Guerra Econômica, pessoas comuns, trabalhadores honestos são usados como bode expiatório para a ingerência socialista. No vídeo, um pequeno comerciante é preso por membros das forças armadas, por reajustar preços acima da tabela.

Outras medidas “brilhantes” para tentar resolver o problema incluem o controle biométrico para compras em supermercado, impedindo que as pessoas comprem além da cota [37] e a proibição de notícias sobre escassez. [38]

Por fim, pensei em falar também da má administração do governo socialista sobre o setor da construção civil, mas acho que o texto já ficou demasiadamente longo para este formato. Se procurarem na internet com paciência, com certeza encontrarão informações a respeito.

Fontes:
[1] CIA – The World Factbook: Dados sobre a economia da Venezuela
[2] CEPAL: América Latina (18 Países): Pessoas em situação de pobreza e indigência, em torno de 2002, 2010 e 2011
[3] Acionista: Preços do Petróleo desde 1997
[4] CEPAL (em Espanhol): Panorama Social da América Latina (ver página 96)
[5] G1: Falta de produtos se agrava na Venezuela com queda do petróleo
[6] Estadão: Venezuela entrou em recessão, DIZ GOVERNO
[7] UOL (notícia de 2006): Chávez é reeleito presidente da Venezuela
[8] BBC (em Espanhol): Venezuela nacionaliza empresa de Eletricidade
[9] Site Oficial da Corpoelec (em Espanhol): Quem Somos
[10] Terra: Estatal venezuelana “recorre a Deus” contra crise energética
[11] Business Insider (em Inglês): As luzes estão se apagando na Venezuela
[12] Carta Capital: Venezuela vive pior apagão desde 2008
[13] Pronunciamento do Vice-Presidente da Venezuela (Aos 2’37” do vídeo): Jornada de Trabalho será reduzida a 6 horas e haverá racionamento elétrico frente a onda de calor.
[14] Site Oficial da empresa Lacteos Los Andes (em Espanhol): Empresa Socialista
[15]  Site Oficial das Industrias Diana (em Espanhol): A Empresa
[16] Site Oficial da empresa Fama de America (em Espanhol): Quem Somos
[17] Opera Mundi: Venezuela nacionaliza filial de empresa de alimentos do México
[18] BBC: Chavez determina ocupação militar de empresas de Arroz
[19] El Mundo (em Espanhol): Chávez ordena a expropriação de fábricas da estadunidense Cargill
[20] G1: Chavez expropria terrenos e depósitos da empresa Polar
[21] Europa Press (em Espanhol): Chávez anuncia expropriação de mais de 10.000 hectares de terras no noroeste do país
[22] Site Oficial da Rede Bicentenário (em Espanhol): História
[23] El Pais (em Espanhol): Maduro promete aumento de salários
[24] Site Oficial da empresa Agropatria (em Espanhol): Quem Somos
[25] El Siglo (em Espanhol): Fedeagro: Agropatria fechou as portas ao setor privado e monopolizou os insumos agrícolas.
[26] BBC: Como a escassez de alimentos está dividindo os venezuelanos
[27] Vídeo filmado em Supermercado da Venezuela: Confusão para comprar leite em pó
[28] G1: Sorveteria famosa da Venezuela fecha temporariamente por falta de leite
[29] La Verdad (em Espanhol): Milho e óleo de girassol lideram níveis de escassez
[30] G1: Crise leva consumidores a brigar por mercadorias na Venezuela
[31] El Pais: A escassez e a inflação reduzem a alimentação básica na Venezuela
[32] El Pais: A via crucis para comprar comida na Venezuela em meio à crise
[33] Vídeo: Desabastecimento na Venezuela – Supermercados Vazios
[34] Telesur: Maduro: vamos recuperar o abastecimento na Venezuela
[35] Pronunciamento de Maduro (em Espanhol): Maduro ordena a ocupação de Tiendas Daka por usura contra o povo venezuelano
[36] Vídeo (em Espanhol): Comerciante chora diante de intervenção
[37] Exame: Venezuela limita compras em supermercado
[38] Publico: Governo da Venezuela proíbe notícias sobre escassez de bens

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