Dostoiévski: Os Demônios e o Comunismo

Autor: Jared Louw
Publicado Originalmente em Inglês no Site Think Liberty

O romance Os Demônios de Dostoiévski, publicado em 1872, é possivelmente o maior romance anticomunista já escrito. O que é irônico, já que ele foi escrito muito antes dos resultados e repercussões do comunismo serem vistos no mundo. Não foi especificamente contra o comunismo em si que Dostoiévski advertiu ao longo do romance, e sim mais contra a “possessão” ideológica que o acompanhava. Certas traduções do romance, na verdade, o batizaram de “Os Possuídos”.

Foi um dos romances mais difíceis que já experimentei, mas foi extremamente gratificante, como todas as suas obras costumam ser. É um romance sobre um grupo sinistro de ativistas políticos que tentam minar e derrubar a classe governante de uma pequena cidade. Os “Demônios” do título não são carniçais, demônios reais ou pessoas, mas ideias que tomam conta de certas pessoas e levam à ruína. No início do romance, um dos personagens principais, Stepan Trofimovich, um intelectual progressista que está envelhecendo, descreve o que ele observa nos novos progressistas de uma grande cidade que visita. “Você não imagina que tristeza e raiva invadem toda a alma de uma pessoa quando uma grande ideia, que há muito reverenciamos piamente, é pinçada por alguns trapalhões e arrastada para as ruas, para mais tolos como eles, e então você finalmente a encontra no mercado de pulgas, irreconhecível, suja, torta, apresentada de forma distorcida, fora de proporção, sem harmonia, um brinquedo para crianças estúpidas. ”

Isso deveria ser algo como um tema que acompanha o romance, enquanto observamos um grupo de niilistas, seduzidos pelos ideais do comunismo, causando estragos nesta pequena cidade na Rússia do século XIX. Um integrante do grupo, em uma confissão no final do romance, explica exatamente o que se propôs a fazer: “O abalo sistemático dos alicerces, para a corrupção sistemática da sociedade e de todos os seus princípios, a fim de abater a todos e confundir tudo, afrouxando a sociedade, enferma e manca, cínica e descrente, mas com um anseio infinito por alguma ideia norteadora de autopreservação – para tomá-la de repente em suas próprias mãos. ”

Os argumentos de Dostoiévski em Os Demônios provavelmente permaneceriam os mesmos hoje se o homem ainda estivesse vivo. Aparentemente, esta é uma verdade universal: na ausência de um poder maior e superior, a humanidade tende a ser facilmente seduzida por ideologias políticas. O romance foi um aviso do que estava por vir para a Rússia no início do século XX. Infelizmente, ninguém ouviu. Dostoiévski estava observando as faíscas que acabariam por levar a Lenin, Stalin e um dos regimes mais assassinos da história do mundo. Um dos personagens centrais do romance, Chátov, ao observar este grupo de radicais no romance, diz: “Eles seriam os primeiros a ficarem infelizes se a Rússia de alguma forma fosse reconstruída de repente, mesmo que fosse à sua maneira, e de alguma forma, de repente ficasse rica e feliz. Eles não teriam ninguém para odiar, e nada em que cuspir, nada para zombar. Tudo o que existe é um ismo ”

Essa única citação de Dostoiévski dizia tudo sobre a Rússia bolchevique que estava por vir. Em quase todos os movimentos comunistas revolucionários, acaba não se tratando de igualdade. Esses movimentos são movidos pelo ódio – ódio pelo opressor, pelo burguês, ódio pelo sistema – e esse ódio só pode se manifestar em você quando você for possuído por idéias. Esse ódio também não vai embora depois de capturá-lo. E uma vez que o objetivo é alcançado – o que acontecerá? Quando um movimento é alimentado por ódio e ideologia, muitas vezes ele acaba indo além do limite.

Dostoiévski usou esse romance para alertar que o liberalismo havia sido sequestrado por um grupo perigoso. Se ele estivesse vivo hoje, ele estaria nos avisando sobre a mesma coisa. Parece haver um movimento de destruição varrendo o mundo. O liberalismo nas mãos erradas é uma ladeira escorregadia para o fundamentalismo radical alimentado pelo ressentimento.

O termo “liberal”* em sua forma original descreveu alguém que resistiu ao estado a fim de ser libertado do controle estatal – ou seja, para obter “liberdade”. Em sua forma original, o liberalismo tratava da liberdade dos indivíduos, liberdade de expressão, oportunidades iguais e julgamento das pessoas pelo conteúdo de seu caráter e não por qualquer outra coisa. Hoje em dia, se você se identifica como “liberal”, provavelmente deseja governos maiores, provavelmente deseja restringir o discurso do qual não gosta, provavelmente é a favor de mais controles e regulamentações, provavelmente tende a colocar as pessoas em caixas com base na cor da sua pele, no gênero, etc., e você provavelmente deseja tirar mais direitos individuais do que está disposto a conceder. Algo que Dostoiévski pode ou não ter previsto.

O liberalismo do século XX fez um bem incrível no mundo. Houve causas nobres pelas quais lutou. Direitos das mulheres, direitos dos homossexuais, direitos dos não brancos, etc. Causas nobres que foram essenciais para o progresso da sociedade na direção certa. Mas, na ausência de causas nobres, mais uma vez ele corre o risco de ir para o fundo do poço? Ele parece ter se movido nessa direção nas últimas duas décadas. O liberalismo radical agora parece mais uma tentativa de destruição – A destruição da Civilização Ocidental. Uma destruição da estrutura familiar tradicional. Destruição da lei e da ordem. Uma destruição do capitalismo, o sistema que tirou milhões da pobreza e levou às grandes invenções dos últimos 200 anos. Destruição de culturas e identidades saudáveis. Isso, é claro, é sustentado por uma tentativa de destruição da religião ocidental.

É pura coincidência que os dois regimes mais assassinos do século XX – os de Joseph Stalin e Mao Zedong, rejeitaram a religião? Veja bem, eu não estou dizendo que ateísmo implica em assassinatos em massa, isso seria ridículo. Mas estou dizendo que, onde falta o cristianismo, há um vazio nos humanos que poderia ser preenchido por qualquer coisa. Afinal, o comunismo rejeita a religião. Há uma razão para isso – se as pessoas vivem para sua fé, como podem viver para o estado?

“Espere um minuto”, você pode dizer. “E quanto a todos os males do fascismo!” Sim, todo mundo sabe disso. Claro, o fascismo é ruim, e sempre foi, com um histórico horrível. Esse é exatamente o ponto – o fascismo é apenas outra ideologia, e assim que as pessoas são sugadas por uma ideologia, esta sempre se torna um terreno perigoso. Além disso, o que estou tentando enfatizar é que a maioria dos regimes brutais dos tempos modernos sempre começaram como movimentos de libertação. O próprio Dostoiévski era liberal. Ele até foi preso em sua juventude e quase foi executado por causa disso. No entanto, como eu agora, tenho a sensação de que ele olhou para o liberalismo na época com uma crescente sensação de desconforto.

Dostoiévski, um cristão ortodoxo russo, era particularmente bom em retratar argumentos fortes que contrastavam com suas próprias opiniões, às vezes até mais fortes do que seus próprios argumentos. O principal exemplo disso é a criação do famoso personagem Ivan Karamazov, no romance Os Irmãos Karamazov. Embora Ivan fosse cético quanto à existência de Deus, ele não conseguia deixar de sentir que “na ausência de Deus, tudo é permitido”. Embora o próprio Dostoiévski não estivesse convencido da existência de um Deus**, ele admitia que os seres humanos, em geral, precisam da religião.

Alguns anos depois, Frederich Nietzsche, um filósofo fortemente influenciado por Dostoiévski, escreveu sua famosa frase “Deus está morto”: “Deus está morto. Deus permanece morto. E nós o matamos. Como devemos nos consolar, os assassinos de todos os assassinos? O que foi mais sagrado e mais poderoso de tudo o que o mundo já possuiu sangrou até a morte sob nossas facas: quem vai limpar esse sangue de nós? Que água existe para nos limparmos? Que festivais de expiação, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a grandeza deste feito grande demais para nós? Não devemos nos tornar deuses simplesmente para parecer dignos disso? ”

É importante notar que Nietzsche era um descrente, mas essas não eram palavras de triunfo. Essas eram linhas de angústia e pressentimento. Este foi um aviso terrível para a humanidade, dizendo que, na ausência dos princípios orientadores da religião, o que aconteceria às pessoas comuns?

Sim, há muitos de vocês por aí agora discordando disso e pensando que podem viver uma vida perfeitamente moral e boa sem a religião como seu guia. Sim, pode ser o caso, mas há uma grande chance de você ser uma pessoa com formação universitária que foi exposta a muitas coisas que fizeram sua mente crescer. Considere por um momento o homem pobre, que recebeu pouca ou nenhuma educação, que talvez tenha crescido em um lar desestruturado? Nessa situação, a quem esse homem recorre para obter orientação moral? Agora imagine este homem prestes a cometer um crime. Se este homem realmente acreditasse no julgamento de um poder superior, isso certamente seria um impedimento infinitamente maior do que a ideia da lei. E o que acontece quando um movimento político perigoso chega e promete a este jovem que ele pode conseguir as coisas de graça e agora é a hora de atacar o opressor?

Não são apenas os pobres, sem instrução que são suscetíveis a cair no fundamentalismo politizado. Eu vejo isso com meus próprios olhos nas redes sociais – pessoas ricas e bem-sucedidas sugadas para a ostentação política, vomitando sem parar seu clichê e ódio reciclado de algo ou alguém, geralmente com um tom incrivelmente raivoso. Geralmente perdendo todo o senso de razão, fato e pensamento crítico no processo. Você pode ter certeza de duas coisas sobre pessoas assim: 1. Elas não são religiosas. 2. Elas não encontraram nenhum propósito ou significado dentro de si mesmos. Elas precisam encontrá-lo em outro lugar.

Como a religião declinou nos últimos 100 anos nos países ocidentais, os governos geralmente aumentaram de tamanho, muitas vezes de forma bastante dramática. Isso leva à infeliz possibilidade de pessoas comuns, na ausência de religião, olharem para grandes governos como sua autoridade moral. Os governos sabem disso. Eles também sabem que quanto mais conseguem fazer com que a plebe dependa deles, mais eles os controlam. Como O Grande Inquisidor nos Irmãos Karamazov colocou de forma sucinta: “Pois quem reinará sobre os seres humanos senão aqueles que reinam sobre suas consciências e em cujas mãos está seu pão.”

Minha sensação é a de que talvez possamos dividir o mundo em dois grupos. No primeiro grupo estão aqueles que podem viver de forma autônoma, encontrando significado, moral e propósito de dentro de si – que podem viver perfeitamente sem nenhuma autoridade superior. E o segundo grupo – aqueles que não podem fazer isso e que realmente precisam de um poder de orientação superior. Talvez as pessoas mais perigosas do mundo sejam as pessoas do segundo grupo que rejeitaram a ideia de Deus. Eles facilmente acabam possuídos por algo, colocando sua fé em algo que nem sempre é totalmente saudável. Como disse o personagem de Dostoiévski, essas pessoas são suscetíveis a “um anseio infinito por alguma ideia norteadora”.

Eu não estou sugerindo que a religião vai curar o mundo. A sociedade superou isso. O que estou sugerindo é que, se você está tirando suas opiniões de sua ideologia, você é parte do problema, e não da solução. Se seus pontos de vista sociais vêm de fontes externas, há uma grande chance de que seu senso de significado, propósito e felicidade também dependam de fontes externas. O Grande Inquisidor de Dostoiévski resumiu isso perfeitamente em uma conversa fictícia com Jesus: “O mistério da existência humana não está apenas em permanecer vivo, mas em encontrar algo pelo qual viver.”

Se a religião ocidental está de fato em declínio, talvez a maior coisa que precisamos ensinar à próxima geração é encontrar o verdadeiro significado e propósito de vida dentro de si mesmos, e que eles entendam que a satisfação e a felicidade vêm de dentro. Sem um forte senso de propósito e significado interno, e sem religião, qualquer coisa pode vir para preencher o vazio.

 

* N.T.: O autor se refere mais ao termo “liberal” tal como ele é usado nos países de língua inglesa, onde liberal se tornou sinônimo de “progressista”, esquerdista moderado ou social-democrata. No restante do mundo, o termo liberal ainda se aproxima mais do sentido original.

** N.T.: Este parágrafo parece um pouco contraditório, mas isso porque a relação de Dostoiévski com a religião é um pouco complicada mesmo. Uma frase do autor que talvez ajude a entender um pouco essa relação é esta: “Não foi como criança que acreditei no Cristo, que confessei sua fé. É de uma vasta fornalha de dúvidas que jorra meu Hosana.”

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