Manifesto do Movimento Center-Lib

É fato que o liberalismo não é de centro, mas é “isentão”.
O que me encantou no liberalismo logo de início, foi sua rejeição à falsa dicotomia entre direita e esquerda e a independência de pensamento que isso proporciona. Mas qual não foi minha surpresa quando descobri que trataram de dividir o liberalismo em subcorrentes: Left-lib e right-lib, para usar uma linguagem típica de liberais e libertários de internet. Na tentativa de rejeitar a ambas, é que resolvi lançar o movimento Center-lib.
Pretendo rejeitar aqui não só aos grupelhos e tribos que se expressam nas redes sociais, mas a todas as tentativas de reduzir o liberalismo a posições exclusivamente conservadoras ou exclusivamente progressistas. A dicotomia direita e esquerda é falsa porque a dicotomia entre conservadorismo e progressismo é falsa. Quem adota posições conservadoras sem analisar os méritos de cada questão, se prende a uma falácia de apelo à tradição. Os que adotam posições progressistas de forma irrefletida, por sua vez, se prendem a uma falácia de apelo à novidade.
Devemos ser conservadores ou progressistas? Um defensor da liberdade, mais do que qualquer outra pessoa, deveria responder: Seja o que bem entender. E mais: Seja o que quiser, no momento e da forma que achar conveniente. Seja conservador num tema e progressista em outro. Seja independente e trate cada assunto de forma independente também. É de um reducionismo absurdo achar que todos os problemas políticos e sociais terão uma única resposta.
Liberalismo é humildade intelectual. A liberdade é importante porque não temos todas as respostas. Não temos certeza absoluta da verdade, ou do bem ou do belo. É para isso que a liberdade serve: Para que sejamos capazes de descobrir, num eterno processo de tentativa e erro. A liberdade de expressão é importante para que exista uma competição de ideias, a democracia e a divisão de poderes existe para que exista competição entre políticos, agentes do estado e unidades administrativas, o livre mercado existe para que exista uma competição entre empresas na tentativa de agradar o consumidor. A competição é a melhor forma que temos de provar que uma coisa é melhor que a outra.
Então, diante de dilemas como egoísmo ou altruísmo, fé ou ceticismo, tradição ou modernidade, organizações privadas mais hierárquicas ou mais democráticas, a resposta do liberal deve ser um socrático “não sei”, ou pelo menos um “depende”, até porque as respostas variam dependendo das circunstâncias. Não sabemos e justamente por não saber é que precisamos de liberdade. Se soubéssemos as respostas, a liberdade seria desnecessária, bastaria impor, pela força, a resposta correta. Se a resposta mais conservadora fosse sempre a mais correta quando o assunto é família, por exemplo, não precisaríamos de liberdade para formar famílias da forma como achamos melhor, bastaria impor o modelo conservador de família, e todos os problemas relacionados ao assunto estariam automaticamente resolvidos. O mesmo vale para as posições progressistas sobre este mesmo assunto.
E este entendimento não é novo, nem inventado por mim, na verdade, ele é a essência do próprio liberalismo. O liberalismo center-lib é o único possível. Hayek explicou isso muito bem em seu artigo “Por que não sou conservador“:
“Há um aspecto, porém, em que podemos afirmar que o liberal ocupa uma posição de centro, a meio caminho entre o socialista e o conservador: ele está tão distante do racionalismo primitivo do socialista, que pretende reconstruir todas as instituições de acordo com um padrão prescrito por sua razão individual, quanto do misticismo ao qual o conservador frequentemente precisa recorrer.” 
Muito antes ainda, John Stuart Mill já dizia, no mais perfeito manifesto liberal já escrito, seu Ensaio sobre a Liberdade que:
” Assim como é útil, enquanto a humanidade seja imperfeita, que haja diferentes opiniões, assim também o é que haja diferentes experiências de maneiras de vida, que se deem largas livremente, salvo a injúria a outrem, às variedades de caráter, e que o mérito dos diversos modos de vida seja praticamente provado, quando alguém se julgue em condições de experimentá-los.”
E embora John Stuart Mill seja considerado um dos pensadores mais progressistas de seu tempo, ele deixa bem claro que a mudança só pela mudança, não faz nenhum sentido:
“Falei da importância que há em dar às coisas não costumeiras a mais livre expansão possível afim de que se possa verificar, oportunamente, quais dentre elas se revelam próprias para se enverterem em costumes. Mas a independência da ação e o desprezo pelo costume não merecem encorajamento só pela possibilidade que proporcionam, de se criarem formas melhores de ação e costumes mais dignos de acolhimento.(…) Não há razão para que toda a existência humana se construa por um só modelo, ou por um pequeno número de modelos.”
 
E em outro trecho:
 
“O espirito de aperfeiçoamento nem sempre é um espírito de liberdade, pois pode aspirar impor melhoramentos a um povo relutante; e o espírito de liberdade, em tanto que resiste a tais tentativas, pode aliar-se, transitoriamente, aos adversários do progresso. A única fonte infalível e constante, porem, de aperfeiçoamento é a liberdade, desde que com ela há tantos centros independentes de aperfeiçoamento possíveis quantos indivíduos.”
Rejeitemos então ao simplismo da resposta única e adotemos a unica postura compatível com o verdadeiro liberalismo: A da humildade intelectual. Essa é a proposta do movimento Center-lib. Óbvio que não pretendo lançar nenhum movimento político de verdade, até porque seria desnecessário. O movimento center-lib é o próprio liberalismo, o único liberalismo possível.

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