Não é só keynesianos vs. austríacos

Autor: Steven Horwitz
Publicado originalmente em Inglês no site da FEE – Foundation for Economic Education

Sou um grande fã dos vídeos de rap Keynes vs. Hayek e do trabalho dos meus amigos John Papola e Russ Roberts em geral. Eu uso os vídeos em aula o tempo todo e com grande efeito. Uma das maiores decepções da minha carreira é que eu tive um desafio que não pude cumprir quando John me pediu para interpretar Mises no segundo vídeo. Todo acadêmico deveria ter um papel em um vídeo de rap em seu currículo!

Trata-se apenas de um vídeo, então não é possível, é claro, capturar toda a realidade. Infelizmente, acho que os vídeos tiveram uma conseqüência negativa absolutamente inesperada em relação a como alguns jovens entendem economia. Em vários lugares, on-line ou pessoalmente, muitos jovens parecem pensar que a economia moderna pode ser dividida em apenas dois campos: Austríacos e keynesianos.

Na pior versão desse erro, essa linha divisória é tida como o que separa economistas que apoiam ou não o livre mercado. Em outras palavras, qualquer pessoa que apoie o livre mercado deve ser um austríaco e qualquer economista que apoie (Qualquer? Algum?) grau de intervenção do estado deve ser um keynesiano.

Tanto este dualismo simplista, quanto a tentativa de explicar a diferença entre essas duas correntes com base na sua crença ou não no livre mercado, são equivocos graves que são facilmente percebidos por qualquer um que conheça um pouco de economia moderna. Como resultado, aqueles que cometem esse erro verão seus argumentos mais substantivos, mesmo quando corretos, perdendo credibilidade entre os mais conhecedores.

O Debate do Século

É verdade que na década de 1930 a teoria austríaca dos ciclos econômicos, defendida nos vídeos por Hayek, era talvez a explicação mais aceita das depressões. Também é verdade que o trabalho de Keynes se tornou o principal oponente desta teoria e que, na verdade, acabou por derrotá-la quando a II Guerra Mundial acabou. Os vídeos estão corretos, historicamente, ao mostrar que a batalha era entre Hayek e os austríacos versus Keynes. E eles também estão corretos, embora em menor grau, ao sugerir que a batalha maior no que diz respeito à Grande Recessão e às crises financeiras foi entre narrativas predominantemente hayekianas ou predominantemente keynesianas.

No entanto, essa batalha mais conhecida sobre a Grande Recessão não define a economia moderna. O keynesianismo é uma escola de pensamento dentro da macroeconomia. Um economista que se descreva de forma genérica como “keynesiano”, está declarando sua posição sobre macroeconomia. Esse rótulo não tem implicações, necessariamente, sobre como ele enxerga uma variedade de interessantes questões microeconômicas.

Não é uma contradição lógica pensar, por exemplo, que as recessões são causadas por investimentos insuficientes devido às expectativas empresariais e que podem ser melhoradas por despesas deficitárias (duas visões amplamente keynesianas) e acreditar, ao mesmo tempo, que a intervenção do governo em mercados específicos é uma má idéia, ou que o salário mínimo causa desemprego. Na verdade, eu diria que esta combinação descreve um bom número de economistas.

A questão é que o rótulo de “keynesiano” deve ser aplicado apenas à abordagem macroeconômica. Ele não tem implicações necessárias sobre uma variedade de outros problemas. Tratar “keynesiano” como sinônimo de “alguém que rejeita o mercado” é simplificar demais.

Muitas Escolas

Mesmo dentro da macroeconomia, há toda uma variedade de abordagens para além da “austríaca” e da “keynesiana”. Desde que o keynesianismo triunfou na década de 1940, vimos o desenvolvimento subsequente do Monetarismo e da Nova Economia Clássica, bem como a mais recente Teoria dos Ciclos Reais de Negócios.

A macroeconomia moderna está focada nos chamados Modelos DSGE (Equilíbrio Econômico Estocástico Dinâmico), que são modelos matemáticos complexos da economia que podem se basear em uma variedade de escolas de pensamento, incluindo o keynesianismo, mas também em outras como a Teoria dos Ciclos Reais de Negócios.

Também vale a pena notar que cada uma dessas escolas de pensamento não é monolítica. Existem muitas variedades de keynesianismo e os autodescritos austríacos discordam sobre uma variedade de questões como moeda, macroeconomia e ciclos econômicos.

E por fim, a divisão entre austríacos e keynesianos não descreve precisamente a divisão entre “livre mercado” versus “intervencionismo”. Como observei anteriormente, alguém pode ser keynesiano em macroeconomia e bastante favoravel ao mercado em microeconomia.

Além disso, existem outras escolas de pensamento não-austríacas que tendem a apoiar muito o livre mercado. Os economistas da Escola de Chicago e os economistas da Nova Escola Institucional são exemplos disso. Como o economista Bryan Caplan, entre outros, demonstra, você não precisa ser um austríaco para ser um convicto liberal. Só porque um economista não adota a teoria austríaca dos ciclos econômicos ou não conhece a crítica austríaca do socialismo, não significa que ele não apoie fortemente o livre mercado.

Há muita boa economia lá fora, que não é estritamente austríaca, e há muita economia ruim que não é estritamente keynesiana. Quanto mais pessoas tiverem uma compreensão melhor de todas essas nuances, mais legitimidade suas idéias terão aos olhos dos céticos.

É um bom começo, mas…

Para deixar claro, eu não culpo Papola e Roberts por essa conseqüência dos seus vídeos. Os vídeos são ferramentas de ensino excepcionais e fizeram muito bem ao apresentar importantes ideias econômicas para pessoas novas. Eu só gostaria que eles servissem como ponto de partida para que mais jovens se aprofundassem mais na economia moderna, apreciando sua complexidade e nuances.

O falecido economista Paul Heyne disse uma vez sobre Economia Introdutória que, se os professores ensinarem como se fosse a primeira aula de economia que os estudantes terão, ela será também a última. Mas se eles o ensinarem como se fosse a última aula que os alunos terão, ela será a primeira de muitas. No espírito de Heyne, os vídeos Hayek vs. Keynes devem servir como um bom curso introdutório – a primeira parada na longa jornada da educação econômica, e não a última.

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