O que exatamente Olavo de Carvalho disse sobre Fetos na Pepsi e por que é um absurdo

O que Olavo de Carvalho disse:

“Mas você veja, a Pepsi Cola está usando células de fetos abortados, como adoçante, nos refrigerantes. (…) Então taí, toma Pepsi-Cola, você é mais do que um homem-sanduíche, você é um abortista terceirizado.”

Em outro vídeo:

“O ser humano é visto como uma mercadoria reciclável, ou como uma matéria prima reciclável. Por exemplo, você pode matar os bebês para você fazer cosmético, para você fazer adoçante, tá certo, então o ser humano pode virar um adoçante, você tá lá comendo uma barra de chocolate aí tem o feto humano lá dentro, tá certo, na indústria de cosméticos nem se fala.”

Ouça você mesmo a partir dos 2’30”:

 

Resumindo, Olavo deu a entender que existem, literalmente, pedaços, ou pelo menos células, de fetos sendo usados como adoçantes, dentro das latinhas de refrigerante e em outros alimentos.

Uma objeção a esta minha interpretação pode ser a de que ele usou linguagem figurada, ou construiu suas frases de forma hiperbólica apenas para expressar a gravidade da situação. Mas que situação? O que de fato aconteceu e por que era grave? No mínimo, ele fez muito alarde sobre uma história que ficou muito mal contada.
Para saber se a Pepsi realmente fez algo terrível envolvendo fetos humanos e adoçantes, teremos que entrar numa discussão moral que vou deixar para o final porque primeiro precisamos saber quais são os fatos. Se Olavo não estava narrando literalmente o que aconteceu, então o que aconteceu?

Os fatos

Em 1973, ou seja, há 46 anos, um feto (só um) foi abortado legalmente em Leiden, nos Países Baixos, no laboratório de um tal Alex van der Eb, por motivos não divulgados. O feto poderia ter sido jogado no lixo, simplesmente, como acontece diariamente, mas o laboratório achou por bem retirar as células de um único rim deste feto e manter estas células vivas numa cultura de células. Essa cultura de células foi batizada de HEK 293.

Fonte: Transcrição de uma reunião da FDA (órgão do governo americano que regula a indústria de alimentos e medicamentos) na qual, a partir da página 77, van der Eb descreve em detalhes, a origem das células HEK 293.
O link original era esse, mas foi retirado do ar.
Mas você ainda pode ler o documento com a ajuda desse site que resgata o “histórico” de páginas da internet.
Primeira publicação científica das células HEK 293.

O feto não foi morto para servir de adoçante, nem sequer de cobaia, nem para experiência de tipo algum, ou pelo menos, não é possível afirmar isso. Ao que tudo indica, ele teria sido abortado de qualquer maneira e isso foi há 46 anos atrás. E o mais importante: Seria totalmente inútil abortar um feto apenas com a finalidade de obter células dele, pois abortos, inclusive espontâneos, acontecem todos os dias. Então não há por que duvidar da história contada pelo laboratório.

Anos depois que o feto já estava abortado e a cultura HEK 293 estava lá, sendo mantida viva, outras culturas de células derivadas da HEK 293 (Lembrando que células vivas conseguem se multiplicar naturalmente) começaram a ser comercializadas para laboratórios, para os mais diversos tipos de pesquisa.

O feto já estava morto há muitos anos e deixar de usar as células não iria trazê-lo de volta à vida. Isso sequer representa um problema moral de incentivos, porque não era necessário fazer novos abortos para obter novas células. Como eu disse, células vivas se reproduzem sozinhas.

Fonte: Como funcionam as culturas de células.

A empresa Senomyx então comprou uma dessas culturas para fazer testes para a indústria de alimentos, inclusive com adoçantes. Como as células HEK 293 vinham de um embrião, elas tinham a capacidade de se transformar em células de outros tecidos, nesse caso, em células nervosas. Essa cultura de células interessou a Senomyx pela possibilidade de testar como células nervosas ligadas ao paladar poderiam reagir a novos adoçantes.

Essa parte é muito importante: As células não seriam usadas como adoçantes e sim para testar o adoçante. Até porque, culturas de células são bastante caras e seria comercialmente inviável colocar um grande volume delas em cada latinha de refrigerante. O objetivo era testar a reação do adoçante em contato com células nervosas humanas.
Que fique bem claro: NUNCA SE COGITOU COLOCAR CÉLULAS HUMANAS DENTRO DAS LATINHAS DE REFRIGERANTE.
Até porque, que gosto tem células de fetos afinal? Será que elas são tão doces assim a ponto de poderem substituir os adoçantes que já eram usados?

Por fim, a Senomyx foi então contrada pela Pepsi, que começaria a usar o novo adoçante a partir de 2013, mas acabou voltando atrás depois da histeria que conspiracionistas e fundamentalistas religiosos fizeram. Ou seja, o novo adoçante sequer foi adotado.

Então vamos comparar:

O que Olavo disse:
A Pepsi Cola está usando células de fetos abortados, como adoçante, nos refrigerantes.”

A realidade:
A Senomyx, contratada pela Pepsi, está usando uma cultura de células derivadas das células de um rim de um feto abortado há 46 anos, por razões desconhecidas, para testar adoçantes que seriam usados nos refrigerantes, mas que acabaram não sendo usados.

Esses fatos configuram algum tipo de ato extremamente imoral?

Agora que você conhece os fatos, você precisa fazer dois julgamentos:

1. Olavo distorceu os fatos (ou acreditou facilmente numa distorção dos fatos) na ânsia de corroborar sua visão conspiracionista de mundo ou não foi nada disso que ele quis dizer? A segunda hipótese, pra mim, é puro malabarismo retórico para minimizar o absurdo do que ele disse. Pra mim, o que está dito, dito está e não adianta agora querer desdizer.

2. O que de fato aconteceu, realmente configura uma situação preocupante do ponto de vista moral e justifica o tom usado por Olavo de Carvalho?
Na minha opinião de cristão pró-vida, não. O laboratório de van der Eb talvez tenha feito algo de imoral, ao abortar o feto, mas até para afirmar isso, precisaríamos conhecer as circunstâncias. Ainda que o aborto tenha sido a parte imoral, recolher células do rim do feto, depois que este foi abortado, é outra ação, e essa outra ação precisa ser julgada separadamente.
Abortar é um ato e foi errado. Recolher as células do feto já abortado para fins de pesquisa foi outro ato distinto, usar uma colônia de células derivadas dessas células para fazer testes, é ainda outro ato, consumir o refrigerante é outro ato ainda. Acontece é que, ao dizer que quem consome Pepsi é um “abortista terceirizado”, Olavo está estendendo o aborto até aqui, quando na verdade, somente o primeiro ato foi um aborto, os demais sequer configuram algo imoral.

Pensar o contrário seria o mesmo que pensar que receber os órgãos doados por uma vítima de assassinato é o mesmo que ser coautor do assassinato.

 

3 comentários em “O que exatamente Olavo de Carvalho disse sobre Fetos na Pepsi e por que é um absurdo

  • 19 de setembro de 2019 em 18:12
    Permalink

    Esse velho é senil e quem segue o que ele fala é ainda pior. Obscurantismo puro.

    Resposta
  • 14 de setembro de 2019 em 15:40
    Permalink

    Há alguns anos atrás, há menos de 10 anos na verdade, vi esta notícia, de que a Pepsi estaria usando células de fetos abortados como intensificadores de sabor. Achei a notícia muito chocante, na verdade, e quis confirmar para ver de fato sua veracidade ou se tratava-se de fake news, então fui ao site oficial da Pepsi, onde havia uma declaração de que não mais fariam uso “deste tipo” de flavorizante.

    Resposta
  • 2 de agosto de 2019 em 06:39
    Permalink

    Bom dia, gostaria de por favor se possível que me enviem o link de onde tem a matéria completa do Olavo falando sobre o pepsi e os fetos, gostaria de poder ver toda a material para não me sentir enganado, pois aí só aparece o momento em que ele já está falando ou comentando sobre… Agradeço pois quero realmente formar uma opinião limpa, e não talvez manipulada.

    Obrigado

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *