O que os economistas disseram, até agora, sobre o impacto do Coronavírus

A preocupação quanto ao impacto do Coronavírus na economia é quase tão grande quanto a preocupação com o impacto que ele vem tendo na saúde, na verdade, para algumas pessoas, a preocupação chega a ser maior. Muitos apontam um dilema entre salvar vidas e salvar a economia e diante desse dilema, alguns preferem salvar a economia, argumentando que uma depressão econômica severa também têm consequências sobre a vida das pessoas: desemprego, suicídio, aumento da miséria, fome, instabilidade política e queda na arrecadação do governo, seriam algumas consequências.

No entanto, antes de fazer análises na base do chute, o ideal é ouvir o que os próprios economistas têm a dizer e a opinião deles parece divergir um pouco daquela defendida pelos que desejam salvar a economia a qualquer custo. Por isso resolvi fazer aqui, um compilado sobre as opiniões e comentários feitos por alguns dos maiores economistas vivos da atualidade. E mais: todos eles, indubitavelmente liberais, a prova disso é que já citei a maioria deles em outros posts aqui no blog (vou colocar um link para os respectivos posts ao lado do nome).

Nenhum deles disse que precisamos fingir que o problema não existe a fim de “preservar a economia”, nenhum deles recorreu ao negacionismo e nenhum deles pediu o retorno a uma “normalidade” que não mais existe.

Paul Romer: Testagem em Massa

Uma das abordagens mais completas e inteligentes que encontrei sobre o impacto do Coronavírus foi exposta pelo economista Paul Romer, prêmio Nobel de Economia de 2018, em um artigo do The New York Times. (Já traduzi um artigo do Paul Romer que você pode ler aqui).

A estratégia de testagem em massa, defendida por Romer, é sem dúvidas, a mais bem sucedida e a que melhor consegue conciliar as preocupações com saúde e economia, sendo que Coréia do Sul e Alemanha são as duas grandes vitrines dessa abordagem.

Para Romer, o lockdown deve ser uma medida apenas emergencial, enquanto se entende a situação particular e se prepara outras estratégias. A testagem em massa se resume em simplesmente, examinar o maior número de pessoas o possível e isolar somente os casos suspeitos ou os grupos de risco, permitindo que todos os demais continuem trabalhando, mantendo apenas um afastamento moderado.

Apesar da atratividade da proposta, há muitas dificuldades em se produzir testes em massa, mas Romer ressalta que avanços tecnológicos estão permitindo produzir testes mais baratos e que entregam resultados mais rapidamente. Para Romer, o governo deve financiar massivamente a pesquisa e o desenvolvimento de testes, equipamentos, tratamentos e vacinas, sem poupar gastos. Uma depressão econômica, de uma forma ou de outra, vai exigir gastos enormes do governo para reativar a economia, gastar com pesquisa e desenvolvimento, além da fabricação em massa de equipamentos e testes, ainda custaria muito menos do que deixar a economia quebrar.

Romer termina sentenciando que a economia não sobreviveria a um lockdown de 12 ou 18 meses.

A Pesquisa da Universidade de Chicago

Outro ponto que não podemos deixar de comentar é a pesquisa da Universidade de Chicago com economistas consagrados, que mostrava um certo consenso sobre medidas relacionadas à pandemia e que foi muito divulgada na mídia e nas redes sociais.

A pesquisa entrevistou nomes de grande peso nas ciências econômicas. Eu acompanho há algum tempo os trabalhos de Daron Acemoglu, David Autor, William Nordhaus, Angus Deaton e Richard Thaler, seja através de artigos ou livros, e afirmo que eles não costumam se render facilmente a qualquer opinião por puro modismo ou clubismo.

No entanto, a forma como essa pesquisa foi divulgada na mídia e nas redes sociais me pareceu um tanto equivocada, por isso achei importante ir direto à fonte, verificar quais foram as perguntas e principalmente, ler os comentários e ressalvas que os próprios economistas fizeram. Para falar bem a verdade, na minha sincera opinião, a própria formulação das perguntas foi um pouco tendenciosa, tanto que Nordhaus chega a comentar que uma das perguntas é “vaga”.

A pesquisa fez três afirmações com as quais os economistas concordaram majoritariamente. Foram elas:

a. Uma resposta política abrangente ao coronavírus envolverá tolerar uma contração muito grande na atividade econômica até que a propagação da infecção tenha caído significativamente.

b. Abandonar um lockdown severo em um momento em que a probabilidade de ressurgimento de infecções ainda é alta, levará a um dano econômico ainda maior do que manter o lockdown para eliminar o risco de ressurgimento.

c. O ideal é que o governo invista mais do que está fazendo atualmente na expansão da capacidade de tratamento por meio de medidas como construção de hospitais temporários, a aceleração de testes, produção de mais máscaras e ventiladores e incentivo financeiro para a produção de uma vacina bem-sucedida.

No entanto, como comentamos, essas perguntas não estão muito bem formuladas. Minha impressão, bastante particular, é a de que elas foram formuladas para induzir opiniões a favor de um lockdown severo. Por isso, os comentários que eles fizeram são muito valiosos.

Selecionei abaixo alguns comentários sobre a afirmativa (sobre ter que “tolerar” uma grande contração econômica):

“Mas contenção [da doença] não significa eliminação completa. Pode ser ideal escalonar o retorno ao trabalho para grupos de baixo risco depois que o pico da doença passar.” – Daron Acemoglu (Acemoglu é um velho conhecido deste blog e você pode conferir isso aqui)

“Uma política fiscal será necessária para apoiar os mais necessitados durante a recessão.” – Alberto Alesina

“Não sabemos ao certo o quão ruim será ou exatamente o que significa ‘muito grande’. Mas o espírito é esse.” – Angus Deaton

“A questão é que a contração [econômica] não se deve apenas à política, mas também a mudanças de comportamento que as pessoas teriam de qualquer maneira.” – Michael Greenstone

“Sim, haverá uma contração ‘muito forte’ [na economia], mas com uma duração curta, esperamos que apenas algumas semanas.” – Kenneth Judd

“Mas há muitos passos que podemos tomar para reduzir a contração [econômica] e a perda de vidas. Obviamente, melhor testagem [é um deles].” – Christopher Udry

E mais alguns comentários selecionados sobre a afirmativa (sobre abandonar o lockdown cedo demais).

“Novamente, isso só se aplica para o pico da doença.” – Daron Acemoglu

“Não podemos exagerar nesse lockdown, mas também não podemos fazer de menos.” – David Autor (Também já citamos David Autor em um artigo do blog)

“Novamente, depende de qual é a verdadeira taxa de infecção (por localidade). Se todos já estiverem infectados, um lockdown não faria mais diferença.” – Pinelopi Goldberg

“Esta é principalmente uma questão epidemiológica.” – William Nordhaus

Sobre a pergunta C, acho desnecessário colocar os comentários aqui porque as respostas foram quase unânimes e os comentários, todos num mesmo sentido, mas você pode conferir tudo no link da pesquisa original.

O Otimismo de Vernon Smith

Vernon Smith (já falamos dele aqui e aqui), prêmio Nobel de Economia de 2002, em artigo para o USA Today, demonstrou muito otimismo em relação à recuperação econômica pós-pandemia. Ele declarou: “Hoje a economia está em suspensão, não em queda livre. A pandemia passará. As cadeias de suprimentos serão reabastecidas. Os mercados de valores mobiliários se recuperarão e o crescimento continuará.”

Ele reforça sua crença na robustez das economias de mercado e do sistema de preços. Por isso, ele alerta que políticas de controle de preços diante da pandemia, a fim de evitar “preços abusivos”, vão no caminho errado e podem provocar desabastecimento ou mesmo criar um mercado negro.

 

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