Olavo de Carvalho disse que Darwin copiou Spencer. Cronologicamente isso é impossível

Se Olavo de Carvalho nega Einstein, nega Newton, nega Galileu e tantos outros, não deveria ser surpresa se ele negasse Darwin também. Se fundamentalistas religiosos, até bem menos obscurantistas que ele, rejeitam o darwinismo, é de se esperar que Olavo o rejeite também. Por que então resolvi comentar esse texto, se já mostrei que ele disse coisa muito pior?

Primeiro, para mostrar que as bobagens que ele disse e que já comentei aqui, não eram acidentais. Em segundo lugar, porque já ouvi que Olavo de Carvalho já foi um sujeito interessante no passado e que só recentemente é que começou a dizer bobagens. Com esse texto pretendo mostrar que ele vem dizendo bobagens monumentais pelo menos desde 2007. E por fim, porque ele comete um erro nesse artigo que alguém que se diz o único filosofo do Brasil não pode cometer.

O artigo ao qual me refiro está disponível em seu site, data de 2007 e tem como título “A Evolução da Evolução“. O problema maior com esse texto não é a rejeição a Darwin, que realmente, costuma esbarrar em crenças religiosas que são muito caras para muita gente, ainda que a Igreja Católica, à qual Olavo supostamente pertence, já tenha declarado que a Teoria da Evolução não necessariamente contradiz o cristianismo (confira aqui e aqui), reconheço que não é fácil para todo mundo conciliar as duas coisas.

Olavo, por outro lado, não tem o mesmo comedimento ao tratar do assunto. Ele começa o artigo dizendo:

“O que sei com absoluta certeza é que como construção intelectual o evolucionismo é um dos produtos mais toscos e confusos que já emergiram de uma cabeça humana – ou animal.”

Eu imagino que se Olavo fosse responder a esse artigo, ele diria que teoria da evolução e evolucionismo são coisas diferentes e que na verdade ele criticou apenas o evolucionismo. É bem o tipo de retórica para a qual ele recorre quando é pego no pulo. Mas o uso corrente dos termos não reconhece essa distinção. Tanto nos meios científicos quanto no debate público, Teoria da Evolução e Evolucionismo são a mesma coisa. Se Olavo não deixou essa distinção clara no texto, então ou o objetivo é descreditar a Teoria da Evolução realmente ou ele estaria sendo ambíguo de proposito.

Comento agora, os trechos mais problemáticos do texto.

“Nada no mundo evolui tão rápido quanto a Teoria da Evolução . Em pouco mais de um século, de Darwin a Dawkins, passou da necessidade férrea ao acaso mais gratuito e incontrolável, sem perder a pose nem a impressão de unidade. Uma teoria capaz de alegar em sua defesa motivos opostos e incompatíveis e continuar sendo ela mesma tem, evidentemente, a plasticidade semântica de um símbolo poético, de um mito.”

1. A teoria da evolução evolui porque é uma teoria científica. Olavo de Carvalho não entende o método científico e não entende que a capacidade de evoluir e se aprimorar é a maior qualidade, não o maior defeito de uma teoria científica. Olavo de Carvalho não entende isso porque já deixou claro, em diversas ocasiões, que ele se julga capaz de conhecer verdades absolutas.

2. Como assim “passou da necessidade férrea ao acaso mais gratuito e incontrolável“? Esses termos vagos e imprecisos não pertencem à ciência. São interpretações que ele próprio faz da teoria, mas não são parte da teoria.

3. “Uma teoria capaz de alegar em sua defesa motivos opostos e incompatíveis” – Como assim? Uma teoria cientifica não tem motivos além de descrever os fatos. Novamente Olavo confunde possíveis interpretações e consequências da teoria com o próprio conteúdo da teoria.

Ao longo de todo o texto, Olavo tentará apelar para uma Falácia Moralista, atacando a teoria pelas possíveis consequências morais, sociais e políticas que, na cabeça dele, a teoria implica.

E aqui é onde ele comete o erro mais constrangedor:

“Historicamente, o evolucionismo nasce como um mito ocultista, com Erasmus Darwin, depois transmuta-se numa ideologia político-social, com Herbert Spencer, e por fim numa hipótese biológica, com o neto de Erasmus, Charles. Que este não tenha sido influenciado nem pelas idéias do avô nem pela leitura dos Fist Principles , o best seller spenceriano que já continha em germe a sua teoria, é uma impossibilidade histórica manifesta.”

1. Se ele quer retomar a história das ideias precursoras do evolucionismo, como se isso tirasse o crédito da teoria, ele poderia ir além, começando com Anaximandro de Mileto (610-546 aC), passando realmente pelo ocultismo, não através do avô de Darwin, mas pelas mãos de Helena Blavatsky e realmente desembocando em teorias sociais.

2. Mas não passa por Spencer antes de Darwin porque Darwin escreveu antes de Spencer. A Origem das Espécies é de 1859, o First Principles de Herbert Spencer é de 1862. Olavo quer falar em impossibilidade histórica, construir todo um argumento em cima dela e não se dar ao trabalho de verificar quem veio antes de quem.

Além disso, ainda que Spencer tivesse escrito antes, seria possível sim que Darwin não tivesse se inspirado nele, bastava para isso que Darwin nunca tivesse lido o autor. Agora, se inspirar em algo que foi feito depois, isso sim é uma impossibilidade histórica.

Olavo de Carvalho constrói todo o seu artigo em torno desse argumento. Uma vez demonstrado que o argumento se baseia num erro cronológico grosseiro, eu poderia dar o assunto por encerrado agora mesmo, mas a questão é um pouco mais complicada.

Darwin realmente pode ter se inspirado numa teoria social, mas não em Herbert Spencer e sim em Thomas Malthus e seu Princípios da População, que data de 1798. Provavelmente, Olavo leu ou ouviu em algum lugar, provavelmente de alguma fonte criacionista, que a Teoria da Evolução de Darwin fora inspirada numa teoria social, tentou escrever um artigo sobre o assunto como se o argumento fosse seu, se esqueceu dos nomes dos autores e chutou que fosse Spencer pela mera semelhança.

Mas a fonte de inspiração de uma teoria científica não tira sua validade e a semelhança entre teorias biológicas e sociais acontece porque ambas são afetadas pelos mesmos fatores: Populações, escassez, competição e cooperação, recursos e meios de sobrevivência, comportamento social, etc.

Todo o restante do artigo, como comentei, é um mero desenvolvimento da sua Falácia Moralista, que tenta atacar a teoria atacando as interpretações que ele próprio faz dela, e nas consequências sociais que ele próprio imagina que a teoria produz. Uma retórica inaceitável para alguém que se considera “o único filósofo do Brasil” e que denuncia o nível de obscurantismo de quem recorre a ela.

 

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