Otimismo vs Malthusianismo – A Aposta Simon-Ehrlich

Paul Ralph Ehrlich é um biólogo americano, da Universidade de Standford, que ficou famoso ao publicar, em 1968, o livro “A Bomba Populacional”, que previa que o crescimento populacional iria pressionar os recursos naturais e que os avanços tecnológicos seriam incapazes de contrabalançar as leis dos rendimentos decrescentes. Como resultado o aumento dos preços dos alimentos e das matérias primas seria inevitável.

Desta forma, Paul Ehrlich (na linha do pensamento de Thomas Malthus), em uma visão pessimista, defendia a ideia de que a falta de disponibilidade de alimentos causaria a morte de milhões de pessoas nas décadas seguintes, um aumento dramático na taxa de mortalidade e uma explosão dos preços das commodities.

Ele declarou:

“A batalha para alimentar toda a humanidade está perdida. Na década de 70, centenas de milhões de pessoas vão morrer de fome a despeito de qualquer programa que tente evitar isso agora. A essa altura, nada pode impedir um aumento substancial da taxa de mortalidade no mundo”.

Já o economista Julian L. Simon, da Universidade de Maryland, tinha um ponto de vista bastante diferente e bem mais otimista. Ele via o ser humano não apenas como um mero consumidor de recursos, mas como um ser inteligente capaz de buscar soluções para melhorar suas condições de vida.

Ele publicou em 1981, o livro “The Ultimate Resource” no qual ele explica que, embora os recursos do planeta sejam finitos, somos capazes de encontrar meios e alternativas, cada vez mais eficientes, de usar estes recursos. O progresso tecnológico nos permite fazer cada vez mais usando cada vez menos, encontrar novas fontes de recursos ou substituir uma matéria-prima por outra mais abundante quando a primeira começa a se tornar escassa.

De acordo com ele:

“Não há razões naturais ou econômicas para que recursos e empreendimentos humanos não possam continuar sempre a responder a escassez iminente e aos problemas existentes com novas soluções que, após um período de ajuste, nos deixam em melhor situação do que antes do aparecimento do problema.”

A Aposta

Por volta de 1980, ao ser acusado de ser pessimista demais, Ehrlich declarou que se ele fosse um apostador, apostaria que a Inglaterra nem sequer existiria mais no ano 2000. Foi quando Simon o desafiou a colocar seu dinheiro onde estava sua boca*, propondo um desafio.
O desafio científico, que chamou muita atenção, aconteceu nas páginas do Social Science Quarterly. Simon apostou US$ 10.000,00 que o custo das matérias-primas não controladas pelo governo (incluindo grãos e petróleo) não aumentaria ao longo da próxima década.

Simon desafiou Ehrlich a escolher qualquer matéria-prima que desejasse e qualquer data para além de um ano e apostou que os preços dessa matéria-prima, ajustados pela inflação, cairiam. Ehrlich escolheu uma cesta de cinco metais: cobre, cromo, níquel, estanho e tungstênio. A aposta foi formalizada em 29 de setembro de 1980, com 29 de setembro de 1990 como data de pagamento. Ehrlich perdeu a aposta, já que todas as cinco commodities apostadas viram seu preço cair de 1980 a 1990, o período de aposta.

* Há uma expressão em inglês: “Put your money where your mouth is” que traduzindo quer dizer “Coloque seu dinheiro onde está a sua boca”, o que significa que, se você acredita mesmo no que fala, não deve ter medo de arriscar seu dinheiro agindo em conformidade com aquilo que prega.

A tentativa de revanche

Imaginando que Simon tentaria vencer uma nova aposta, Ehrlich e o climatologista Stephen Schneider tentaram uma revanche. Eles escolheram 15 aspectos em que eles acreditavam que o mundo iria piorar nos próximos anos, sendo que o valor apostado seria de US$ 1.000,00 por cada item da aposta. Simon porém, não pôde aceitar os termos do novo desafio.

Ele justificou sua recusa dizendo que os critérios determinados por Ehrlich e Schneider, não eram boas medidas para saber quem tinha razão. Ehrlich apostava, por exemplo, que a quantidade de terra fértil e de terra cultivada por habitante no mundo seria menor em 2004 do que era em 1994, mas Simon argumentava que esse indicador de nada serviria sem levar em conta a produtividade da Terra, que na opinião de Simon, tenderia a aumentar devido ao progresso tecnológico no campo.

A maioria dos critérios estabelecidos por Ehrlich também tinham a ver com condições ambientais que Simon admitia, poderiam piorar nos próximos anos, até que as pessoas pudessem se adaptar às novas condições, mas que isso ainda não seria o suficiente para fazer o bem estar da população regredir.

Simon deu sorte?

Muita gente acredita que Simon só venceu a aposta por pura sorte, pois se o período escolhido fosse outro, antes ou depois, Simon certamente perderia. O gerente de ativos Jeremy Grantham, escreveu que se a aposta Simon-Ehrlich tivesse sido por um período mais longo (de 1980 a 2011), então Simon teria perdido em quatro dos cinco metais e que a derrota teria sido ainda maior se considerasse outras commodities.

No entanto, Simon só levaria a pior em amostragens curtas de tempo. A longo prazo, o tempo tende a dar razão a Simon. O economista Mark J. Perry observou que, por um período ainda mais longo, de 1934 a 2013, o preço ajustado pelo Índice de Commodities Dow Jones-AIG mostrou uma tendência de queda significativa e concluiu que Simon era “mais esperto do que sortudo”.

O economista Tim Worstall escreveu que “O resultado final de tudo isso é que sim, é verdade que Ehrlich poderia ter vencido a aposta dependendo da data de início (…) Mas a tendência de longo prazo para o preço dos metais é de queda.”

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