Quando Bento XVI refutou a Teologia da Libertação

Nem todo mundo sabe, mas o papa emérito Bento XVI não foi apenas o sucessor de Pedro, segundo a fé católica, mas é também um dos maiores intelectuais cristãos vivos. Foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé entre 1981 e 2005, congregação responsável por defender a doutrina católica. Foi nesse período que o então cardeal Joseph Ratzinger teve o famoso debate, em 2004, com o filósofo alemão Jurgen Habermas, um dos mais importantes pensadores da esquerda da atualidade.

Também foi nesse período que, em 1984, Ratzinger escreveu o famoso documento Libertatis Nuntius, com o objetivo de emitir “instruções sobre alguns aspectos da ‘Teologia da Libertação'”, na verdade, foi um golpe quase fatal contra a Teologia da Libertação de matriz comunista, socialista ou marxista. Digo que foi quase fatal porque, infelizmente, ainda existem adeptos da Teologia da Libertação marxista que, desafiando a Doutrina da Igreja, usam-na como meio para propagação de suas ideias, embora desde 1984, eles tenham sido obrigados a fazer isso de forma velada e dissimulada.

Os teólogos da libertação atuais contudo, se escondem em apresentações distorcidas de princípios importantes da Doutrina Social da Igreja, como a opção preferencial pelos pobres, dentre outras. Além da brecha deixada pelo documento, onde Ratzinger convida os teólogos a criarem uma nova Teologia da Libertação, pois de fato, o tema da libertação contra a injustiça e a opressão são temas cristãos, mas dessa vez com uma base filosófica compatível com a Doutrina Católica e corrigindo os erros da antiga. Com base nesse convite porém, muitos continuaram pregando a antiga Teologia da Libertação, alegando que estão pregando uma nova, a convite do próprio documento.

Neste documento, Ratzinger se empenha numa análise do marxismo digna de um grande intelectual humanista e explica as consequências desta ideologia sobre a Teologia da Libertação. Ele explica que, embora o marxismo se arrogue “científico”, o conceito nele não tem o mesmo significado que muitos imaginam, uma análise crítica da proposta marxista demonstra que ele não tem nada de científico no sentido comum, pelo contrário, ele impõe uma visão de mundo que se aproxima muito mais de uma religião. A teoria marxista não se separa da sua práxis, baseada na luta de classes, ou você está do lado do oprimido, ou está do lado do opressor, e uma vez que o marxismo se coloca como práxis inquestionável a favor do oprimido, qualquer um que se oponha a ele, está necessariamente do lado do opressor.

O marxismo é uma visão de mundo estruturada de forma indivisível, totalizante, por isso, é muito complicado emprestar do marxismo, apenas as partes que lhe pareçam interessantes e excluir o resto. Uma vez que você aceita os pressupostos básicos do marxismo, é muito complicado não aceitar também seus desdobramentos. O marxismo também concebe o homem de forma fundamentalmente diferente do cristianismo, por isso, há uma incompatibilidade.

Ratzinger explica ainda que, da mesma forma que o marxismo, apesar de se dizer científico, não o é, ele também não redime os pobres como se propõe, pelo contrário, suas propostas políticas e econômicas levam a uma miséria e tirania, muitas vezes, ainda maiores do que aquelas que se pretendia solucionar.

Outro elemento fundamental do marxismo é o materialismo e, consequentemente, o ateísmo. Tanto que algumas vertentes da Teologia da Libertação chegam ao ponto de propor uma “teologia” totalmente materialista, entendendo as escrituras, os ensinamentos, as celebrações e os ritos cristãos como meras alegorias de preocupações sociais e econômicas. Evidente que tal teologia, esvaziada de qualquer elemento espiritual ou transcendental, é completamente incompatível com o que há de mais fundamental na Doutrina Católica.

Ratzinger termina recomendando que, na dúvida, devemos deixar teologias complicadas para os teólogos experientes e nos ater em ensinar o que está na Doutrina Social da Igreja.

Um comentário em “Quando Bento XVI refutou a Teologia da Libertação

  • 6 de setembro de 2020 em 14:49
    Permalink

    Aí está o motivo da “renúncia” do Papa Bento XVI e a formação da “fumaça branca” exalada no chaminé da Capela Cistina, que elegeu o comunista Georgio Bergoglio como Papa Francisco I°.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *