Quando progressistas abraçam o ódio

Autora: Bari Weiss
Publicado originalmente no The New York Times

Há apenas meio ano, antes das polêmicas envolvendo James Comey e o “conluio” com os russos, do decreto para barrar muçulmanos e daquelas envolvendo Anthony Scaramucci, houve um momento brilhante em que milhões de americanos inundaram as ruas de cidades de todo o país para registrar sua fúria contra um misógino sem remorso que acabara de se tornar o líder do mundo livre.

A eleição de Donald Trump foi um momento decisivo. Mesmo aqueles que, como eu, já bateram anteriormente em candidatos de ambos os partidos, sentiam que Trump não apenas violara todo senso de decência comum, mas, de forma alarmante, que ele parecia não ter ideia de que existia mesmo um código não explícito de civilidade e dignidade. Agora era a hora de construir uma ampla coalizão para resistir ao machista que tinha os códigos nucleares nas mãos.

A Marcha das Mulheres me emocionou. O.K., tudo bem que Madonna e Ashley Judd disseram algumas coisas idiotas. Mas todo movimento tem seus excessos, raciocinei. O Sr. Trump fez campanha para atacar os mais fracos e mais vulneráveis da nossa sociedade. Agora era a hora de deixar de lado pequenas diferenças e questões secundárias para se opor à sua presidência.

Isso é certamente o que os líderes do Partido Democrata, que aplaudiram a marcha, nos disseram. O senador Charles Schumer chamou o protesto de “parte da grande tradição americana”. A líder democrata da Câmara, Nancy Pelosi, ofereceu seus parabéns às “corajosas organizadoras” da marcha e a senadora Kirsten Gillibrand se gabou delas na revista Time, onde elas apareciam entre as 100 pessoas mais influentes de 2017. “A Marcha das Mulheres foi o momento mais inspirador e transformador que já presenciei na política”, ela escreveu. “E isso aconteceu porque quatro mulheres extraordinárias – Tamika Mallory, Bob Bland, Carmen Perez e Linda Sarsour – tiveram a coragem de assumir algo grande, importante e urgente, sem titubear”.

A imagem desse quarteto fantástico, ecoada em mais de alguns artigos lisonjeiros, era tão sedutora quanto um anúncio da Benetton. Havia Tamika Mallory, uma jovem ativista negra que foi coroada como a “Sojourner Truth de nosso tempo” pela revista Jet e “uma líder do amanhã” por Valerie Jarrett. Carmen Perez, mexicana-americana e veterana organizadora política, foi nomeada uma das 50 líderes mundiais da revista Fortune. Linda Sarsour, uma palestina-americana que usa hijab e ex-presidente da Associação Árabe-Americana de Nova York, foi reconhecida como “defensora da mudança” pela Casa Branca do governo Obama. E Bob Bland, a designer de moda por trás das camisetas “Nasty Women”, foi a mãe branca que teve a ideia da marcha pela primeira vez.

O que alguém poderia ter contra então?

Muito, como depois se viu. As líderes da Marcha das Mulheres, talvez as feministas mais proeminentes do país, possuem algumas ideias e conexões assustadoras. Longe de erigir a grande tenda que tantos esperavam, o movimento que lideraram abraçou causas decididamente iliberais e cultivou um teor radical que parece determinado a hipnotizar a todos, mas não os mais atentos

***

Comecemos pela Sra. Sarsour, de longe a que mais chama a atenção no quarteto de organizadoras. Acontece que essa “colega de hijab”, como foi chamada por um dos muitos artigos a seu respeito, tem um histórico de opiniões perturbadoras, tal como anunciado . . . pela própria Linda Sarsour.

Há comentários em seu Twitter do tipo anti-sionista: “Nada é mais assustador do que o sionismo”, ela escreveu em 2012. E, estranhamente, dada a sua condição de grande organizadora feminista, há mais de um comentário que parece concordar com opiniões anti-feministas, como este de 2015: “Você sabe que está vivendo sob a lei da sharia quando de repente todos os seus empréstimos e cartões de crédito estão livres de juros. Parece legal não é mesmo?” Ela rejeitou a feminista anti-islã Ayaan Hirsi Ali nos termos mais cruéis e explícitos, dizendo que ela “não é uma mulher de verdade” e confessando que gostaria de poder tirar a vagina da Srta. Ali. – disse isto sobre uma mulher que sofreu mutilação genital quando ainda criança na Somália.

Sarsour e seus defensores responderam a tudo isso como uma campanha de difamação coordenada pela extrema direita e motivada por islamofobia. Além disso, eles argumentaram, muitos desses tweets foram escritos há cinco anos! São da pré-história.

Mas no mês passado, a Sra. Sarsour provou que seu passado é prólogo. Em 16 de julho, o feed oficial do Twitter da Marcha das Mulheres oferecia votos calorosos a Assata Shakur. “Feliz aniversário para a revolucionária #AssataShakur!”, dizia o tweet, que traz um “#SignOfResistance, em homenagem a Assata” – um retrato rosa e roxo em estilo Pop Art da Sra. Shakur, mais conhecida como Joanne Chesimard, uma assassina condenada que está na lista do FBI dos terroristas mais procurados.

Como muitos outros, Jake Tapper da CNN notou o tweet ultrajante. “Shakur é uma assassina de policiais foragida em Cuba”, ele twittou, passando a mencionar as declarações passadas inquietantes da Sra. Sarsour. “Algum progressista aí condenando isso?” Ele perguntou.

Diante dessa crítica sóbria, a Sra. Sarsour reagiu agressiva: “@jaketapper se junta às fileiras da alt-right para me atacar online. Bem vindo à festa.”

Não há dúvida de que Sra. Sarsour é um alvo constante de grupos de extrema-direita, mas a reação dela nesse ataque é o que a torna mais problemática. Na verdade, a ideia de que Jake Tapper é um membro da alt-right é o tipo de loucura delirante e descolada dos fatos que alimenta Donald Trump e seus partidários. Infelizmente, é exatamente o sentimento ecoado pela Marcha das Mulheres: “Nosso poder – seu poder – assusta a extrema direita. Eles continuam tentando nos dividir. Os ataques de hoje contra #AssataShakur são o exemplo mais recente.”

Desde quando criticar uma terrorista doméstica se tornou uma marca da extrema direita? Que eu saiba, essa posição é uma questão de decência e patriotismo básicos.

O que é mais angustiante é que a Sra. Sarsour não é a única líder desse movimento de mulheres que nutre idéias tão alarmantes. Igualmente negligenciadas foram as declarações, igualmente ultrajantes, das outras organizadoras da marcha.

A Sra. Mallory, além de aplaudir Assata Shakur como um emblema feminista, também admira Fidel Castro, que abrigou Shakur em Cuba. Ela postou uma enxurrada de mensagens quando o Sr. Castro morreu no ano passado. “DESCANSE EM PAZ. Comandante! Seu legado continua vivo!” Ela escreveu em um. Ela não prestou a mesma homenagem aos policiais americanos. “Quando você joga um tijolo em um bando de porcos, o único que grita é o que foi atingido”, ela postou em 20 de novembro.

A Sra. Perez também expressou sua admiração por um Pantera Negra condenado por tentar matar seis policiais: “Grata por aprender e por compartilhar o mesmo espaço que Baba Sekou Odinga”.

Mas a figura pública que as duas mulheres adulam com mais frequência é Louis Farrakhan.

Em 11 de maio, Mallory postou uma foto abraçada com Farrakhan, o líder do Nation of Islam, de 84 anos, notório por seus comentários anti-semitas, no Twitter e no Instagram. “Graças a Deus esse homem ainda está vivo e vai bem”, escreveu ela. Este é um dos vários vídeos, fotos e citações que a Sra. Mallory postou sobre o Sr. Farrakhan.

A Sra. Perez também é uma grande fã. No outono, ela postou uma foto na qual ela dá as mãos com o Sr. Farrakhan, escrevendo: “Há muitas vezes em que eu me sento com anciões ou pessoas inspiradoras e penso, ‘Eu só queria poder empacotar isso e entregar esse momento para outros. ‘” Ela também promoveu um vídeo do Sr. Farrakhan “entregando conhecimento” e outro em que ele diz que está “falando verdades aos poderosos”.

E qual é a verdade do Sr. Farrakhan? Os leitores nascidos depois de 1980 provavelmente terão pouca ideia, já que ele ficou fora das manchetes desde a Marcha dos Milhões que ele organizou em 1995. Mas seus pontos de vista, que este editorial chamou de “distorcidos”, continuam tão apavorantes como sempre.

“E não se esqueça, quando é Deus quem coloca você no fogo, é para sempre!”, Alertou aos judeus em um discurso em uma reunião do Nação do Islã no Madison Square Garden em 1985. Cinco anos depois, ele não havia mudado: “Os judeus, um pequeno punhado, controlam o movimento desta grande nação, como um radar controla o movimento de um grande navio nas águas.” Tem ainda essa metáfora, dirigida aos judeus: “Vocês enrolaram seus tentáculos ao redor do governo dos EUA, e vocês estão enganando e enviando esta nação para o inferno”. Ele chamou Hitler de “um grande homem” em rede nacional. O judaísmo, ele insiste, é uma “religião da sarjeta”.

Em um dos seus vários vídeos facilmente encontrados no Youtube sobre os judeus, ele disse aos afro-americanos que “o controle da sinagoga de Satanás sobre o nosso povo deve ser exposto”. Ele acrescenta: “Esses satânicos não apenas controlaram o hip-hop, mas eles controlam, de acordo com suas próprias palavras, as próprias mensagens que são trazidas ao público.” Ele continua, oferecendo uma análise verdadeiramente notável da indústria do hip-hop, na qual rappers “inteligentes” são rejeitados pelas “mentes satânicas” que insistem na “sujeira que eles querem” e encorajam a “vulgaridade” e a “selvageria”. E esses são apenas os primeiros 10 minutos de uma hora.

O Sr. Farrakhan também é um racista sem remorso. Ele insiste que os brancos são uma “raça de demônios” e que “os brancos merecem morrer”.

As feministas também têm poucos motivos para aplaudir suas opiniões sobre gênero dos anos 50: “Sua vida profissional não pode satisfazer sua alma como um homem bom e amoroso.” Recentemente ele disse a Jay-Z que ele deveria fazer Beyoncé vestir roupas. Ele também se opõe ao casamento gay.

Se isso não bastasse, o Sr. Farrakhan também ama a Cientologia e acredita que o 11 de setembro foi uma ataque de falsa bandeira.

***

Eu já posso até ouvir as reações. O que são alguns tweets e fotos infelizes comparados com o show de horrores que é esse governo? Guarde sua indignação para a proibição de transgêneros nas forças armadas, para as mentiras que surgem diariamente da sala de imprensa, pelos cortes ao Planned Parenthood, para os negócios obscuros com a Rússia, e, e, e…

Mas o pesadelo da administração Trump é a razão pela qual tudo isso importa. Acabamos de ver o que acontece com partidos políticos legítimos quando eles são vítimas de movimentos que são, na base, antiamericanos. Isso vale para os populistas e racistas da alt-right que ajudaram a colocar Trump na Casa Branca e agora, está esvaziando o Partido Republicano. E isso pode ser verdade para a “resistência” progressista – independentemente de quão chique, Instagramável e carregado de celebridades o movimento possa parecer. Lembre-se que apenas alguns meses atrás, Keith Ellison, um homem com uma longa história de defesa e trabalho com anti-semitas, quase se tornou líder do Comitê Nacional Democrata.

Os progressistas terão mais rigor do que os conservadores no policiamento do ódio em suas fileiras? Ou eles vão negligenciar isso em sua fúria contra a administração Trump?

Tenho certeza de que Linda Sarsour e talvez as outras líderes da Marcha das Mulheres vão me bloquear por escrever isso. Talvez eu seja acusada de me alinhar com o alt-right ou rotulada como islamofóbica. Mas o que sou contra é abraçar terroristas, desprezar vozes feministas independentes, odiar as democracias e celebrar ditaduras. Se isso me coloca fora do movimento feminista progressista em voga hoje na América, que assim seja.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *