Toda cultura é feita de apropriações culturais

Autor: David Frum
Publicado Originalmente no The Atlantic

Conheça os Cowboys do Death Metal do Botswana. Em couro preto decorado com tachas de metal, eles tocam um estilo de música que, segundo os entendidos do assunto, remete à banda britânica “Venom” e seu álbum de 1981, Welcome to Hell. Pergunta: Isso é apropriação cultural? Por que ou por que não?

A questão é inspirada por um espasmo de crueldade nas mídias sociais que chamou muita atenção na semana passada. Uma jovem em Utah – EUA comprou um vestido em estilo chinês para usar na sua formatura do colégio. Ela postou algumas fotos de si mesma em sua página pessoal no Instagram – e de repente se viu alvo de ataques on-line.

Pela primeira vez, a história teve um final feliz. O bom senso e a gentileza prevaleceram, e em vez de ter seu baile arruinado, a jovem saiu da dança impulsionada pelo apoio mundial que recebeu, principalmente de dentro da própria China.

No entanto, persiste a ideia de que há algo de errado e opressivo em pessoas de um contexto adotando e adaptando artefatos de outro. Infelizmente, essas histórias terminam como demonstrações bem-sucedidas de poder, impostas por valentões locais.

Em Oberlin, em 2015, um estudante vietnamita fez com que o refeitório parasse de servir sua versão de sanduíches Banh Mi.

Em vez de uma baguete crocante com carne de porco grelhada, patê, legumes em conserva e ervas frescas, o sanduíche usava pão ciabatta, carne de porco desfiada e salada de repolho. “Foi ridículo… Como eles podem simplesmente empurrar algo completamente diferente e rotulá-lo como se fosse a comida tradicional de outro país?”

As referências a “baguette” e “patê” em um produto alimentício de uma ex-colônia francesa deveriam ter dado a entender a um irritado estudante de Oberlin que o banh mi não é uma comida vietnamita tão tradicional quanto ele imagina. Quando este remake exótico de um clássico pate en baguette foi vendido pela primeira vez nas ruas de Hanói, os vendedores o chamaram de “banh tay”: literalmente “pão de estilo ocidental”.

Uma universidade canadense cancelou suas aulas de ioga sob a alegação de apropriação cultural – apesar do fato de que a maioria dos exercícios extenuantes em uma aula moderna terem se originado na ginástica dinamarquesa e na calistenia do exército britânico, que por sua vez foram apropriados por empreendedores indianos que buscavam atualizar o ioga, de uma forma de meditação para uma prática ativa, tipicamente moderna, integrando mente e corpo.

Os fiscais da apropriação cultural responderiam à estas objeções com um contra-argumento familiar: É uma questão de poder. Não há problema para os indianos colonizados incorporarem programas de condicionamento físico europeus em sua ioga; mas é errado para os canadenses de origem européia incorporarem a ioga em seus programas de condicionamento físico.

Mas o problema com esse argumento é que – como a cultura – o poder também flui e declina. Costumes que podemos considerar imemorialmente inerentes a uma cultura, muitas vezes se originaram na própria história de império e dominação daquela cultura. Os chineses de etnia han aprenderam a beber chá por lazer com os povos do sul. A bandeira verde do Islã foi adaptada das religiões pré-islâmicas do Irã. O grande reino de Benin, no oeste da África, adquiriu o metal para algumas de suas famosas obras de arte de bronze, vendendo milhares de pessoas como escravas aos comerciantes portugueses.

Toda cultura tem uma história. Os jovens nascidos na América do Norte podem imaginar que as receitas ou o guarda-roupa de sua avó surgiram de forma autóctone em uma pátria ancestral atemporal. Mas isso reflete apenas o quão bem eles se americanizaram, reduzindo as complexidades de outros países a meros folclores a serem fetichizados em vez de compreendidos e avaliados em seus próprios termos.

O vestido chinês que a jovem Kezia Daum queria usar para o baile originou-se de um ato brutal de imperialismo, mas não de qualquer povo ocidental. Originou-se na conquista da China pela Manchúria em 1648, um evento comparável à Guerra dos Trinta Anos da Europa, em termos de morticínio que abalou a sociedade. Milhões de pessoas, talvez dezenas de milhões, perderam suas vidas no levante.

Os novos governantes de Pequim exigiram que os homens chineses adotassem estilos manchus de roupas e cabelos, incluindo o notório “rabo de porco”. Quando a dinastia Manchu foi finalmente derrubada em 1911, os chineses se viram livres pela primeira vez em 250 anos para se vestir como bem entendessem. Na década seguinte, personalidades criativas da grande metrópole comercial de Xangai criaram um novo tipo de roupa para as mulheres. Eles o chamavam de cheongsam.

A nova peça era uma fusão do velho e do novo, do oriente e do ocidente. Tecidos de estilo manchuriano foram adaptados a um padrão de estilo europeu. No passado, as roupas das mulheres da classe alta transmitiam status e movimentos restritos. O cheongsam estava igualmente disponível para mulheres de uma ampla gama de classes sociais – e permitia que as mulheres chinesas se movimentassem como suas contrapartes ocidentais.

A história da moda é um assunto notoriamente controverso. O leigo é aconselhado a se manter discreto e evitar declarações fortes. Mas aqui está o que se pode dizer: seja qual for a razão disso ter acontecido, a ideia de que os estilos de roupa devem mudar regularmente e muitas vezes, sem nenhuma razão muito convincente, é uma das contribuições mais distintas da Europa para a cultura mundial. Antes de seu encontro com a cultura européia, ninguém mais entendeu o sentido disso. A indumentária chinesa era particularmente conservadora: as vestimentas da classe alta variavam conforme as dinastias e raramente variava dentro delas.

Aquele momento de criatividade não durou. A conquista comunista de 1949 restaurou a antiga prática: um novo imperador impõe uma nova vestimenta. Mao Tsé-Tung exigia que seus súditos usassem o mesmo traje azul unisex – e ele empobreceu tão desesperadamente a China que poucos poderiam ter escolhido o contrário, mesmo que ousassem. Somente depois de sua morte as mulheres chinesas recuperariam qualquer liberdade de se vestir, e não antes da década de 1990, tiveram meios financeiros de exercer essa liberdade. Hoje, a China ultrapassou os Estados Unidos, a União Européia e o Japão como o maior mercado mundial de bens de luxo.

O cheongsam também voltou, em uma variedade estonteante de comprimentos e estilos. Mas a liberdade que o povo chinês recuperou é apenas muito parcial. Os governantes da China pós-Mao ainda policiam minuciosamente qualquer lampejo de ressentimento regional contra o governo de Pequim. Eles têm, por lei, insistido que a língua do Norte, conhecida no Ocidente como mandarim, seja reconhecida como a única língua oficial da nação. “Cheongsam” é uma palavra cantonesa para uma coisa do sul da China – mas em quase todos os relatos da mídia sobre o cyberbullying de Kezia Daum, a peça recebe o nome mandarim de “qipao”.

É importante conhecer esses detalhes para entender o que há de tão sinistro nas reclamações que estão sendo feitas contra o vestido de formatura.

Tal como a ideia de que o público deve se calar enquanto a música é executada, a ideia de que as mulheres devem poder se movimentar tão livremente e facilmente quanto os homens é um produto cultural – popularizado pelos países do Atlântico Norte no período após a Primeira Guerra Mundial. Se é errado que uma cultura pegue emprestado de outra, então foi errado inventar o cheongsam pra começar – porque não apenas a forma da peça se originou fora da China, mas também os propósitos dela. Foi precisamente porque eles queriam importar as idéias ocidentais sobre as mulheres é que os inventores do cheongsam adaptaram uma forma ocidental. Eles tomaram algo estrangeiro e fizeram dele algo doméstico, num padrão que se repetiu de infinitas formas desde o período neolítico.

Os fiscais da apropriação cultural não pensam assim. Eles têm um conto de moralidade para contar, uma vitimização ocidental de povos não-ocidentais – uma vitimização tão extrema que é desencadeada pela compra de um vestido chinês por uma garota ocidental, projetado precisamente para que as meninas chinesas pudessem ser mais como as garotas ocidentais.

Para contar essa história, os fiscais da apropriação cultural precisam esmagar e deformar grande parte da verdade da história cultural – e, nesse processo, rebaixam e infantilizam as pessoas que supostamente defendem.

Considere, novamente, os Cowboys do Death Metal. Apesar de sua adoção entusiasta e por atacado de roupas e músicas importadas para o Botswana, é improvável que sejam acusados de apropriação cultural. Por que não? Os fiscais da cultura construíram toda a sua filosofia numa única suposição de extremo chauvinismo: que a cultura ocidental é universal – na verdade, a única cultura universal. A tecnologia ocidental, a ênfase ocidental na autonomia individual e igual dignidade humana, e até mesmo práticas ocidentais tão estranhamente específicas como a música death metal – os fiscais da cultura consideram tudo isso tão comum quanto um peixe toma como comum a água em seu aquário.

Você vê esse paroquialismo mais claramente quando alguém que vive em um contexto cultural ocidental tenta valorizar uma prática não-ocidental que possa parecer opressiva para outras pessoas ocidentais. É então que, precisamente quando imaginam que estão se afastando dos modos ocidentais, precisam confiar na tradição intelectual ocidental para justificar sua ação. Um exemplo aleatório dentre centenas que poderiam ser citados, um editorial do The New York Times diz: “Eu vejo o hijab como a liberdade de considerar meu corpo como minha própria intimidade e como uma forma de garantir liberdade pessoal em um mundo que objetifica a mulher (…) um modo assertivo de expressão e direitos feministas individuais”.

É claro que o véu islâmico não foi inventado como um modo de expressão feminista individual. Muito pelo contrário. As várias coberturas voluntariamente adotadas por algumas mulheres na América do Norte e na Europa Ocidental evoluíram em sociedades onde 90% da população ainda concorda que as mulheres devem obedecer seus maridos em todos os momentos.

Felizmente, os defensores ocidentais do véu não vivem em tais sociedades. Eles vivem em uma cultura de autonomia e escolha. Sua decisão individual de usar (ou deixar de usar) uma roupa tradicional, por si só, já mudou o contexto cultural dessa vestimenta e deu a ela um novo e tipicamente ocidental significado.

O que é bom! Esta é uma sociedade livre, faça o que quiser! Mas lembre-se, ao fazê-lo, que essa “liberdade” que você usa é em si um produto cultural, que tem sua origem exatamente na cultura que você critica.

A cultura ocidental de autonomia pessoal e igualdade de dignidade é uma coisa preciosa justamente porque não é universal. Aqueles que participam dessa cultura e desfrutam de seus benefícios podem esperar – e de fato esperam – que um dia ela se torne universal. Eles podem esperar que sua cultura modele o futuro compartilhado de toda a humanidade. Mas ela não é uma herança universal e não é a prática contemporânea universal. Além disso, essa cultura está em retração no momento, desafiada e atacada tanto de dentro quanto de fora. Ela precisa ser defendida e, para ser defendida com eficácia, é vital entender o quanto ela é não universal.

Na medida em que os fiscais da apropriação cultural exortam seus alvos a respeitar os que são diferentes, eles dizem algo que todos precisam ouvir. Mas indo além disso, eles podem acabar se complicando. A cultura popular americana é uma mistura de influências: Ilhas Britânicas, Europa Oriental, África Ocidental e quem sabe o que mais. Cole Porter não cometeu nenhum erro ao se apropriar da música judaica; Elvis Presley enriqueceu o mundo quando fundiu o country-and-western com o rhythm-and-blues.

Como traçar a linha entre isso e a terrível tradição da América de parodiar, na qual os povos subordinados são imitados e ridicularizados – como Al Jolson imitou e zombou da música negra em sua polêmica carreira de blackface? Não existe uma regra clara, mas há um caminho aberto: os valores de respeito e tolerância que são extraídos precisamente das tradições racionalistas e iluministas, tão rejeitados quanto invocadas pela polícia da apropriação cultural. Essas tradições são o núcleo espiritual da cultura americana no seu auge. E aqueles valores que todos devemos esperar ver apropriados por todos os povos e culturas deste planeta.

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